Minha Vida Gay – De A a Z

Direto da Serra da Mantiqueira, em Carrancas – MG, vos escrevo para compartilhar um pouco desse momento de contemplação. Em contraposição às minhas vivências “carniças” detalhadas por aqui, resolvi justo na época do Carnaval partir para um momento mais espiritualizado, longe da sexualidade geral aflorada, por assim dizer.

Escrevendo no MVG na rede, na varanda do chalé em meio a natureza pura.
Escrevendo no MVG na rede, na varanda do chalé e em meio a natureza 360 graus.

Essas fugas à natureza, cercado por 360 graus de montanhas, serras e vales fazem parte da minha vida de vez em sempre. Como já citei algumas vezes aqui no Blog Minha Vida Gay, gosto mesmo de poder entrar e sair do universo gay (ainda mais agora, solteiro) sem viciar. Talvez, tenha uma função de contraponto as loucuras prazerosas as quais me entrego.

Como segunda parte das minhas férias (a primeira no Rio de Janeiro e altamente família) resolvi buscar por um tipo de ostracismo. Acompanhado apenas por um amigo heterossexual – que acabou de superar o câncer entre metástases que limitaram sua vida por 4 anos seguidos – chegamos a Carrancas para que ele pudesse retomar um pouco as vibes de viagens e para que eu tivesse a sua companhia, de uma amizade do colegial e que esse ano completa 22 anos (idade de muitos leitores por aqui – rs).

Meu amigo, pelas complicações inevitáveis, está com o físico mais limitado. Rolês de cavalo, trilhas e cachoeiras são práticas pouco acessíveis no momento. Tenho o acompanhado a alguns passeios mais citadinos e gastronômicos, coisa boa que dá para aproveitar muitíssimo pelas bandas daqui. Fizemos um bate-volta para São João Del Rei e Tiradentes, cidades próximas a Carrancas para conhecer um pouco da tal “Minas Histórica”. É interessante perceber com os próprios olhos o quanto a religião católica tem estaca firme em nossa cultura. Em nossa cultura e na do meu amigo que, indubitavelmente, é fruto de uma família bastante tradicional que, com o tempo dos mais de 20 anos, vem se conformando com a amizade do filho com um gay – rs. Brincadeiras ainda rolam, mas estamos eu e ele, aqui no canto do fim do mundo (ou início) dividindo o mesmo teto.

São João Del Rei tem igrejas em casa quarterão. Das gigantes às pequenininhas. Tudo isso porque na época de foram construídas, o "barato" era botar escravos e índios a entrarem na "linha".
São João Del Rei tem igrejas em cada quarterão. Das gigantes às pequeninas. Tudo isso porque na época que foram construídas, o “barato” era botar escravos e índios na “linha”.

Mas lugares como Carrancas com 4 mil habitantes registrados, quando Grindr e Hornet viram apenas um radar de longa distância para se perceber que o indivíduo gay, bissexual ou “macho” mais próximo está há nada menos que 30Km de você (rs), servem mesmo para exercitar o silêncio, a contemplação e a espiritualidade.

Foi esse o propósito da viagem, não é mesmo?

Dividindo bem nossos tempos, meu amigo ficou pela pousada e acabei fazendo um passeio de cavalo com um grupo de oito pessoas. Três horas no total com direito a visita a “Cachoeira da Diretoria”, lugar de acesso apenas com cavalo ou caminhada na trilha (de 2 horas o trecho). A cachoeira passa a ser incrível pela dificuldade de acesso o que confere um ar de exclusividade para quem é mero visitante. Estava ali, deslumbrante, “virgem” e sem registros populares de nomes marcados nas pedras, bitucas de cigarro ou latas de cerveja.

A frente de sua queda, uma piscina natural com uns 2 metros de profundidade, o que conferia aqueles irresistíveis saltos e mergulhos. Não pude deixar de saudar Iemanjá e pedir aquela boa energia por me deixar energizar em suas águas.

Cachoeira da Diretoria - Acesso à cavalo ou trilha de 4 horas no total, ida e volta.
Cachoeira da Diretoria – acesso à cavalo ou caminhada na trilha de 4 horas no total, ida e volta.

A minha sorte foi que os sete integrantes faziam parte da mesma turma de cariocas totalmente pró-natureza e com a devida consciência quando se visita tais lugares: duas famílias jovens, os pais com 40 e poucos anos e filhos com no máximo 15 anos, todos, carregando o culto de contemplação sem exageros, nem lixos, nem latas de cerveja.

Todos muito hábeis em andar de cavalo, me ensinaram os truques mais básicos de como “pilotar” o bicho e, mais uma vez, notei que o princípio básico é superar o receio. De repente, já estava galopando em cima do Artur no caminho de volta.

Ao chegar na pousada, o matuto Marcelo (dono da pousada, matuto mesmo, do cigarro de palha na beira da boca, 65 anos, chapéu de sertanejo, anti-PT e sotaque mineiro arrastado) brincou comigo:

Ele: “O Artur não te deu trabalho?”;

Eu: “Não, foi tranquilo. Por que?”;

Ele: “Ele é o único que não foi totalmente treinado. Tem só quatro anos, acabou de chegar aqui e resolvi deixar com você, para você mesmo treinar”;

Eu: “Justo eu que sou marinheiro de primeira viagem?”;

Ele: “É, porque aí você ia ter que superar seu medo do bicho e o bicho de você (GARGALHADAS)”.

Artur, 4 anos: motor 2.0 turbo (se bem que na volta o bicho tava devagar - rs)
Artur, 4 anos: motor 2.0 turbo

Definitivamente adorei a vibe. Descobri que cavalo transpira como gente e que aquele lance “romântico” dos filmes entre o cavalo e o bicho homem é tão mito como o tubarão. O lance com cavalo é igual cachorro: precisa ter voz de comando, dar carinho, conversar e, principalmente, mostrar segurança.

Volto amanhã para conhecer o “Pico da Teta” que fica no topo da serra para depois voltar para a Cachoeira da Diretoria. Ah sim, espero que seja com o Artur porque quem se afeiçoa no final é o bicho homem, não o cavalo – rs.

Foi ontem a noite que o Marcelo (não o dono da pousada, mas um dos cariocas) me chamou para uma prosa quando eu e meu amigo voltávamos de Tiradentes. Chalés vizinhos, já era noite e ele e sua esposa Mônica estavam na varanda da frente, tomando suas cervejas e contemplando o céu incrivelmente estrelado.

O casal já vem para Carrancas, na Pousada da Toca, há 10 anos. Estão com um filho de aproximadamente 10 anos e convidaram dessa vez um outro casal de amigos com dois filhos. Creio que o envolvimento afetivo deles por essas bandas seja proporcional ao que tenho por Aiuruoca. Conhecem praticamente de tudo por aqui e já deram dicas dos lugares para se visitar. Na “ponta” de Tiradentes e por recomendação do casal conhecemos também um vilarejo de nome estranho: “Bichinho”. Está aí a foto da placa para não me fazer mentir:

placa_bichinho

Local com uma concentração de artesãos, artistas e designers. Para quem curte coisas diferentes de decoração é prato cheio e mineiro.

De súbito o Marcelo, casado e pai com seus 40 e poucos anos, puxa um beck e me oferece. Logo penso: “nem aqui no fim do mundo, longe da turma mais maconheira, eu me livro da ‘mardita'” – rs. Claro que não poderia negar. Perguntei se era ok fumar com o filho no quarto e eles foram tranquilos: “Não tem problema nenhum. Ele nem faz ideia do que isso seja e, convenhamos, não faz mal pra ninguém”. Não pude discordar – rs.

A maconha veio em boa hora. Quando voltei para o quarto, meu amigo ainda estava acordado e desembestei a falar. Ele acompanha a minha vida há tanto tempo e inevitavelmente sabe da grande maioria das minhas histórias, sejam as narradas ou as presenciais. Conheceu todos meus ex-namorados e meu ex-marido.

No meio de meus devaneios lancei a ele:

“‘Ivo’, você me conhece e sabe que tenho uma natural inquietação. Sou esse cara que vai de A a Z, ou seja, do lixo da cocaína numa balada bagaceira ao luxo das festas mais vips e entiquetadas. Das compras por roupas de marca à vida roots cheia de carrapatos, bosta de cavalo e arranhão nas trilhas. Ivo, será que vou encontrar um futuro namorado que entenda e respeite a vida como eu, de uma maneira autêntica sem querer me agradar? Que, depois que o sonho do príncipe acaba, não queira me colocar em seu quadradinho familiar e confortável? Que consiga me acompanhar nessas vibes, superando receios e preconceitos? Que viva a relação por nós e não para a família?”.

Perto ou longe, nossas buscas residem dentro da gente. E sei que hoje, muito mais criterioso.

O que não posso é reclamar dessa autonomia que tenho reconquistado. Está tudo delicioso, da carniça – na minha faceta urubu – à contemplação do aqui e agora, do silêncio e da natureza, tudo que me parece mais espiritualizado. Para onde vai minha vida afetiva? Entrego para as correntes de uma cachoeira e deixo meus devaneios por aqui para, sempre, organizar e elaborar minhas ideias.

Que sirvam para os bons passantes!

4 comentários Adicione o seu

  1. GFA disse:

    Prezado, autor do blog.

    Verifico que ao longo dos últimos meses o blog veio ganhando mais personalidade… acredito que suas experiências práticas superaram toda e qualquer teoria do universo gay…
    Mas com receios de me encantar demais pela sua pessoa oculta tenho até pensado em desativar o recebimento automatico dos seus posts…. vai que de encantamento em encantamento eu me apaixono? Kkkk

    Obrigado pelas linhas…

    Abcs,
    GFA

    1. minhavidagay disse:

      Oi GFA!
      Muito agradecido pelas suas palavras. Mas acho que não é necessário você desativar o recebimento automático. A não ser que chegue a virar um incômodo. Confesso não expor aqui algumas passagens da vida para gerar um tipo de encantamento. Talvez seja involutário, na condição do “autor de um livro” frente ao seu público. E as pichações e contrariedades também funcionam para polemizar um pouco.

      Eu que agradeço a assiduidade!

      Um abraço,
      MVG

      1. Boa noite MVG…

        Certamente é involuntário.
        O encantamento é a simples consequência de uma espécie de identificação.

        E a assiduidade existe de fato.

        Abraço,
        GFA

  2. Caio disse:

    Que bom mudar de ares. E melhor ainda saber que ainda existe gente que tenta pelo menos não degradar tanto o meio ambiente já tão sofrido. Li hoje uma matéria sobre os esgotos a céu aberto no Rio e toda a poluição desenfreada nas praias de lá. Uma tristeza só o descaso do governo local e a falta de educação da população.

    Nunca estive numa cidade tão pequena, mas devo gostar de passar um dias para sentir o forte contraste, de preferência um que como esta com belas paisagens que tanto gosto.

    Abs e até

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