Minha Vida Gay – O retorno à metrópole

Impossível não entrar em águas puras e não voltar energizado. Impossível não rever a vida, os últimos anos e as últimas escolhas sejam em sonhos ou insights. Estar em Carrancas foi a permissão de estar comigo mesmo e, acima de tudo, gostar do que vi, do que sou. Essa é a tarefa exaustiva, escrita de tantas formas diferentes aqui no Blog Minha Vida Gay, cuja mensagem é diminuta mas tão intensa: goste de si mesmo. Seja gay, seja o nariz torto, o pau pequeno ou muito grande, seja lá a educação herdada, seja o que for. E se ainda não se sente bem, batalhe, transforme e inclua metas para se sentir bem consigo na maior parte do seu tempo.

Cachoeira do Coração - Carrancas, MG
Cachoeira do Coração – Carrancas, MG

Pude acompanhar meu amigo, em seus passos ainda miúdos, nas mais belas cachoeiras. Pude relembrar porque as pessoas intitulam o despejo dessas fontes de “água doce” pois, no ato involuntário dos mergulhos, percebe-se realmente um toque adocicado até forte, quando realmente livre do lixo.

A natureza é viva e predominante em Carrancas. Uma paixão se estabeleceu e o regresso será inevitável. Não tive isso na virada de ano, como gostaria e como idealizara no Caribe se estivesse com meu ex-namorado. Meu sócio teve a opção, assim como a nossa assistente que tem tudo para tornar-se sócia: esteve em Floripa na virada de ano e, se não me engano, voltaria para lá novamente no Carnaval, não fosse alguns atropelos para conseguir as passagens. A equipe de produção mesma coisa: 15 dias para fazer o que bem entendesse. Eu preferi ficar em SP, novamente, para fazer o resguardo das demandas e para curtir a fossa, tão louvável em términos de namoro. Imagine findar uma relação às portas da virada de ano?! Não seria um assombro?

Poder ser “criança” agora, depois de Rio de Janeiro + Minas Gerais, só no segundo semestre. O ritual de passagem de ano finalmente se deu nessa cidade chamada Carrancas, no início do meu tal “inferno astral” no qual – segundo os conselhos da astrologia – teria que ficar introspectivo e isolado.

As good as it gets. Ficaram eu, meu amigo, Iemanjá e o Artur, cavalinho de 4 anos que foi o meu anfitrião nessa história de ser cavaleiro.

Regressar à cidade é retomar a rotina. Hoje cheguei e já tive que ver alguns boletos, algumas notas fiscais, mandar uma dúzia de e-mails e marcar sem falta para amanhã uma conversa com um cliente recém adquirido, para um novo projeto. Almoçaremos eu, meu sócio e nossa assistente para alinhamentos dessa e da próxima semana.

A ensolação que peguei, depois de farrear em meio a tanta natureza, não foi obstáculo para dirigir metade dos 400 Km de volta, organizar as pequenas demandas do dia, o retorno à academia (a dieta, difícil ter o controle em Minas Gerais) e ter lidado com os roncos assustadores, altos e profundos do meu amigo “Ivo” que, depois da sequência de doenças, engordou uns 20 ou mais quilos! rs

São 22h20 agora e me sinto disposto ainda para deixar esse relato; regressar a cidade e retomar contato com os bons amigos, numa sensação de que vale a pena viver novas histórias, quando as antigas findaram ou são idealizadas. O passado só tem a função de abrir espaço para o presente. Eu não sou daqueles que me amarro no que é antigo. Não é muito digno (consigo) alimentar ideais e situações que não mais voltarão, se é que realmente se materializaram.

Viver o presente é aceitar a ternura ou os desafios do momento, o estar feliz com você mesmo e perceber que o caminho a frente não está isento de obstáculos ou concessões. Por exemplo: para a aceitação ou conformidade da família quanto a sexualidade, no momento que a homossexualidade só se concretiza com a manifestação de um namorado (pois quando se está só, ser gay – as vistas de quem não quer ver – pode ser até assexuado ou ser qualquer coisa) é necessário um tipo de enfrentamento. Mas deve-se saber fazer, até estrategicamente. Ou conceder pela cisão entre a vida gay e a vida em família e, assim, não estar contribuindo em nada à própria emancipação. O todo me parece muito mais saboroso. Mas para se saborear os melhores frutos temos bastante trabalho pela frente (só para lembrar que o meu próprio pai levou 10 anos para se conformar).

Viver o presente é vibrar com os pequenos passos dados, mesmo que diminutos e que não nos tragam as melhores histórias (ou as mais “vencedoras”). É fundamental seguir em frente e entender que os momentos que nos inebriam hoje podem se desgastar com o tempo. O tempo é particular e pode fazer sentido e gerar prazer durante dias, meses ou anos. Mas a história é particular e, se vivaz e querida, vale a pena ser vivida independentemente da opinião alheia.

Deixei meu passado escorrer pelas águas puras e pedi para Iemanjá essa forcinha. Reservo a mim a satisfação do que foi – experiências compartilhadas que certamente fizeram eu ser a pessoa que sou hoje – mas não sigo buscando substitutos, não sigo querendo confundir aqueles “potenciais” com insinuações dúbias ou promessas. Não vou oferecer migalhas para aqueles que desejam o todo.

Não estou pronto. Apenas isso.

Foi-se o meu tempo em que colhia um punhado, oferecendo migalhas, para manter minha autoestima no lugar. Judiei de alguns corações, daqueles que não viraram namorados. Mas não voltaria a fazer isso de novo e não critico quem faz. Porque essa judiação é também parte do crescimento. Alguns passam dessa página, outros não.

A autosuficiência que ganhava contorno antes dessa segunda viagem se definiu: vou seguir sozinho por um tempo e certo de que enquanto o “tanque” de autosuficiência não for bem vivido, não haverá espaço para um novo amor. É a oportunidade que se configura nesse exato momento de minha vida, uma sensação de liberdade muito grande e uma vontade de negar as principais instituições que formam a nossa tão tradicional e retrógrada sociedade. Em paralelo a isso, toco firme o meu trabalho pois agora sim me sinto pronto para 2014.

Tudo isso não quer dizer que assumirei um papel de Madre Teresa, alto lá. Vou curtir a carniça sob um sol escaldante, suado e caloroso. Estar em meio a natureza, nesse processo de autoconhecimento, reserva espaço inclusive para que eu exerça o que é mundano em mim. Meus urubus podem se encontrar com outros da mesma espécie, numa situação sem compromissos para cumprir as danças do acasalamento! A a Z, por hora, irá prevalecer!

No mais, é bom a gente sempre lembrar que dias melhores virão. Acredite nas tempestades, transborde delas pois isso é também humano, mas viva pela bonança, que não quer dizer riqueza, mas o sentido individual de felicidade.

Último por-do-sol em Carrancas
Último por-do-sol em Carrancas

3 comentários Adicione o seu

  1. Wellington disse:

    Caro MVG,
    Novamente venho ressaltar a sua habilidade com as palavras, sou um grande admirador da boa escrita e consequentemente dos seus textos.
    Não bastasse a forma muito bem escrita o conteúdo vem recheado de inspiração para as nossas vidas.
    Espero chegar na sua maturidade um dia, enquanto isso vou seguindo outro conselho deste texto: aproveitar o momento.
    Boa carne seca ao sol escaldante, e q comece 2014.
    Por fim, fiquei com uma duvida. Iemanjá não é dos mares? Não sabia q td relacionado a água poderia ser remetido a Iemanjá
    Um grande abraço
    Well

    1. minhavidagay disse:

      Oi Wellington!
      Obrigado pelos comentários. Vou me esforçando para melhorar meus textos, embora ainda tenha alguns vícios errados de gramática rs.

      Iemanjá é a deusa referente as águas no geral, mares, rios, lagos, exceto as chuvas. Chuvas e tempestades são da alçada de Iansã.

      Um abraço,
      MVG

  2. Wellington disse:

    Erros gramaticas acontecem, quem nunca? Mas são permitidos neste meio informal
    Particularmente não encontrei os mencionados erros, mas estou longe de ser um mestre da gramática(vide comentários)
    Quanto a Iemanjá, obrigado pelo esclarecimento, não conheço muito da religião mais sou um entusiasta.
    Abraços
    Well

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