Gay não é um adjetivo – Ensaio sobre a autosuficiência

“Faça de si mesmo, paciente ou impacientemente, um ser original e único, mas não seja comum” – André Gide, escritor francês.

Quase que de castigo pela virose, meu final de semana foi bastante low profile. Meu amigo “Tablito” apareceu ontem pelo Gtalk, umas 19h, e a minha ideia era ficar tranquilo em casa. Rolou um convite para jantar diante de sua intervenção: “este papo de autosuficiência não me agrada muito, acho viagem, mas vamos lá, hora de ouvir você um pouco!!! rs”.

Resolvi sair da toca, mesmo que esquisito. Conversamos e eis o ensaio sobre o tema inspirado no encontro de ontem, lá nas bandas da Liberdade:

Falar de autosuficiência é pensar num tipo de independência e paz interior relacionadas a quatro vértices principais: material, mental, sentimental e espiritual. Todos dizem respeito a uma certa autonomia de existência. Claro que como seres sociais, não se refere à máxima do desapego (utopia), fuga ou omissão. Não se refere a vida de ermitão, mendigo ou quiçá monge tibetano. Mas diz respeito a uma contemplação de vida na qual batalhamos (e o sentido de luta ou conquista sempre fará parte da maioria dos meus argumentos) para alcançarmos um equilíbrio que não se afeta por angústias ou vazios existenciais; que dependa menos do outro e que dependa mais de si.

A autosuficiência material:

Diz respeito a uma independência financeira, ao poder de compra e ao poder de materialização de ideias e projetos. Não quer dizer que para atingirmos a autosuficiência material temos que nos tornar milionários pois o sentido de diferenciação de riqueza e pobreza é fruto da comparação inerente a uma sociedade capitalista que, invariavelmente, construiu até hoje uma realidade classista entre pessoas e entre países. Em outras palavras, a autosuficiência material se dá no momento que não dependemos de terceiros (pais, parentes ou amigos) e floresce pela exclusiva condição do trabalho (muito dele!) e, principalmente, o prazer gerado por se fazer aquilo que se gosta.

As vezes, mesmo que o trabalho garanta um retorno financeiro que favoreça um alto poder de compra, o indivíduo fica rendido à ganhos, distante do sentido do prazer pelo que se faz. No meu ensaio, o prazer, ou melhor, a felicidade deve ser de saldo positivo nos quatro aspectos, material, mental, sentimental e espiritual.

Trabalhar muito, mas trabalhar muito com aquilo que se gosta é a chave para a autosuficiência material. Não são os ganhos em si.

Pergunta: Já descobriu o trabalho que te dá prazer?

A autosuficiência mental:

A autosuficiência material nos parece a mais óbvia ou mais paupável pois é lógica: trabalhe muito + goste do que faz = autosuficiência material. A partir da autosuficiência mental as subjetividades começam a aparecer, o que dá contorno ao que somos acima de tudo: seres humanos.

Eu diria que a autosuficiência mental, sentimental e espiritual tem grandes intersecções, são praticamente indissociáveis e tem por consequência, também, a autosuficiência material, do ato de realizar.

A autosuficiência mental ajuda a dividir o que o “eu” pensa em relação ao que os pais, irmão, amigos e grupos pensam. Não quer dizer necessariamente um conflito de ideias pois tudo depende da forma que se expressa as intensidades da mente. Diz respeito também a concessões, jogo de cintura e revisões.

Por exemplo: “eu não me sinto feliz por ser gay”. A mente desse indivíduo observa a maioria e entende a maioria com o que é inclusivo, a norma, o “caldo” largo da conduta aceita, o “legal”. Quando dizemos “eu não me sinto feliz por ser gay” é o mesmo que dizer “eu quero fazer parte da maioria/regra” ou “eu não gostaria de me sentir no grupo das minorias e ter que enfrentar a maioria”.

Alcançar uma autosuficiência mental se traduz bem na frase do Steve Jobs que já lancei aqui:

“Não deixe o barulho da opinião dos outros abafar sua voz interior. E mais importante, tenha a coragem de seguir seu coração e sua intuição. Eles de alguma forma já sabem o que você realmente quer se tornar. Tudo o mais é secundário”.

“(…) o barulho da opinião dos outros (…)” se traduz nas expectativas de algumas instituições, tais como: sociedade geral, igreja, pais e amigos. A máquina social nos instiga para andar sobre determinadas faixas. Longe de mim sugerir aqui uma anarquia já que as normas são fundamentais para uma sociedade organizada. Mas a própria sociedade tem suas falhas e miopias e, em alguns aspectos, tal qual o próprio valor que se deu à homossexualidade até os anos 90 (e ainda se dá hoje) – apenas como mais um exemplo no contexto MVG.

A sociedade é também orgânica e isso significa revisões constantes.

A vida é a maneira que queremos enxergar. Em outras palavras, a relação de pessimismo, realismo ou otimismo nada mais é do que reações químicas de nossas sinapses, relacionadas ao “coração” (plano emocional) e a “intuição” (plano espiritual). Já foi comprovado cientificamente que quando mudamos a maneira de pensar, o entrelaçamento físico entre os neurônios também se modifica.

É importante saber que, com esforço, somos capazes de entrar e sair do que é norma ou instituição, respeitar ou rever e ainda assim preservar nossa integridade mental. Mas, como disse, exige esforço e a carcterística vitimista só atrapalha.

Pergunta: Consegue mentalizar seus objetivos de vida todos os dias?

A autosuficiência sentimental:

A dependência entre pessoas numa sociedade é inevitável. Estamos constantemente nos relacionando em todos os lugares, em todas as circunstâncias. Mas o quanto aceitamos a ideia de que muitas delas passarão em nossas vidas e depois partirão, sejam pelos rompimentos, brigas, desarmonias, seja pela irremediável morte?

Temos desapego suficiente? Levamos bem essa transitoriedade?

Na conversa com o amigo Tablito, esse foi o vértice central. Cheguei num momento da vida (que talvez seja apenas uma fase) no qual aprendi a aceitar melhor a condição humana de que, pessoas que possam ter até 20 anos de relacionamento ou mais (de amizade ou matrimônio), caiam em correntezas diferentes da vida num determinado momento e passem a viver distantes. Em outros trechos da vida as correntezas podem se cruzar e existe toda uma naturalidade do trânsito, de se aproximar ou distanciar.

Soltar, ou melhor, entender que não temos nenhum controle sobre essas correntes (seja lutar para estar perto, ou desviar para se estar distante) traduz a própria autosuficiência sentimental. O esforço para se estar perto, as vezes, é só um exercício desgastante que justifica uma dependência, uma imagem perante a sociedade ou uma fonte de acomodação. O desviar para se estar distante acaba sendo outro esforço desgastante para não assumir o não superado/resolvido, a bronca ou o rancor. Ambos os casos não apontam para a autosuficiência.

Pergunta: Você se sente apegado?

A autosuficiência espiritual:

Eis o quarto vértice que, ao meu ver, cada um busca (ou evita, ou nega, ou posterga) a sua maneira. Por isso não vou me delongar pois a fé (ou não fé) é individual. Entendo espiritualidade como uma grande árvore com dezenas de raízes. Cada raiz é uma religião e, todas, invariavelmente conduzem para o mesmo tronco. Ao final, chegamos na copa da árvore que a mim é representação de Deus. A mim, Deus é que importa, mas longe das frases feitas das traseiras de caminhão.

Todos os vértices devem trabalhar num certo equilíbrio e, até que se prove o contrário, temos apenas essa vida para dar conta (ou não). Mas a minha dica é que a gente vá atrás, resilientes (palavra tão escrita pelo Blog), e busquemos algo a mais por intermédio de acertos e erros. Acima de tudo – das sexualidades, das normas sociais, das expectativas e das cobranças  – temos que aceitar uma única condição: embora “robôs”, na responsabilidade de acatar a grande maioria das regras, somos orgânicos.

Você anda se cuidando ou está esperando alguém cuidar de você?

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