Príncipes e princesas


Às 16h30 da tarde, durante uma reunião com a jornalista aqui da empresa para definir um novo texto para outro Blog relacionado a negócios, um amigo muito querido me liga para poder desabafar. Desabafar seu caso, com um rapaz de 20 e poucos anos, que anda tirando-o do sério.

O jovem é daqueles padrões de beleza acima da média e, mais do que isso, desde o começo alertei ao meu amigo para uma percepção/intuição que tive de suas primeiras histórias: “me parece que esse menino usa da própria beleza para se aproveitar. Fique atento”.

O conselho que poderia ser um ultraje, inveja dark, ciúme ou whatever para uma grande maioria de pessoas que iniciam um sentimento de envolvimento por alguém, soou como algo que fez sentido para meu amigo. Mas, das coisas das emoções potencializadas, das carências e dos desejos até fantasiosos quando se está com um “príncipe”, ele afirmou que iria avançar.

Cada um, cada um. Cada um no seu quadrado.

Meu amigo iniciou hoje sua conversa intensamente, soltando tudo aquilo que o afligia e não era pouco. Devo tê-lo ouvido pacientemente uns 10 minutos: “ele possivelmente tem um caso com fulano de tal que é empresário!”, “desapareceu no carnaval, descobri que foi para o Rio e imagino que tenha ido com esse fulano!”, “não diz sim nem não para minhas investidas de um envolvimento mais sério e vive dando desculpa que tem que cuidar da mãe adoentada”.

Ouví-lo foi muito importante pois ficava evidente que tinha que desabafar. O fez e, depois dos 10 minutos, nos quais eu escutava, intervindo apenas com um “sei”, “certo”, “entendi”, lancei a ele: “posso falar minhas impressões agora?”.

Ele: “Claro”.

Eu (resumidamente aqui para o Blog): “Bem, meu amigo, desde o princípio te disse que a maneira que a coisa estava evoluindo me parecia esquisita. Você tem insistido em encontros mais frequentes que realmente se concebem só quando ele estala os dedos. Basta ele estalar que vocês se encontram. Mas quando você quer ele sempre tem as mesmas desculpas”.

Ele: “Mas você tem algum conselho para me dar que não seja me distanciar?”.

Eu: “Não. A mim tudo parece um jogo, no qual ele se aproveita dos próprios atributos estéticos para te manipular. E não sei se está no plano do consciente ou do inconsciente, mas certamente – a ele – está bastante confortável enquanto você está aí, sofrendo. O jogo é esse desde o começo e você mesmo quis bancar. Não conheço o rapaz, conheço você, e estou dizendo da sua responsabilidade – mea culpa – nessa história toda. Você gostaria de subir três montanhas com ele. Ele tem te oferecido apenas um montinho, embora não diga nem que sim, nem que não que – a mim – aí está a sacanagem toda. Se fosse eu, seria muito claro: ‘consigo ir com você até esse nível. Topa?’. Mas ele não. Ele se aproveita do seu evidente envolvimento para te chamar para o montinho a hora que bem entende. Você gosta de ser mulher de malandro? Está aí a situação: se quiser continuar sendo mulher de malandro, basta dar corda. Caso contrário, não tem jeito, corte a pessoa”.

Ele: “Sim, você está certo. Mas não gostaria de cortar”.

Eu: “Olha, existem muitas outras pessoas para você querer resumir sua vida nessa história. História que, inclusive, está te fazendo mal. Experimente cortar para você ver, ele nem vai ligar. Vai dar uma de orgulhoso possivelmente e aí quem vai ficar mal será você. E vai correr atrás. O que estou te falando diz respeito a amor próprio, meu amigo. Exercite seu amor próprio. E não adianta ‘vingança’, buscar fazê-lo correr atrás de você. Você o colocou no pedestal e acho bastante difícil tirá-lo”.

Amigos do Minha Vida Gay, já recebi dezenas ou centenas de e-mails com teor parecido, daqueles leitores que sofrem por idealizações sobre o outro. Um tipo de necessidade de cavocar algo de bom no ser alheio para justificar tamanha contemplação, mesmo que, para quem está de fora, fique tão evidente que o outro (consciente ou inconscientemente) se aproveita dos sentimentos. É algo de ingenuidade, falta de experiência e idealização. Algo de nossa cultura. É uma vontade quase que única que querer achar que o outro é perfeito. É a paixão que, dentre seus vieses quando não em harmonia e sintonia, tem a cegueira.

Mas quando entramos nesses contextos, não adianta querer dizer que o outro é o “monstro”, o corrupto, o que traz a miséria para a nossa vida. Nesse jogo da latinidade quase novelesca, somos também autores dessa submissão, do “eu” inferior em detrimento ao “príncipe”. Está aí na cara que existe um abuso, mas quem é que deve acreditar? Eu ou meu amigo?

Temos que saber muito bem até onde levamos a ilusão, um sentimento de que somos capazes de transformar a pessoa, para que situações como essas não nos fragmentem tanto a ponto de nos tornar desiludidos, sem luz, frustrados, rancorosos, amargos ou com um passado que gera incômodo; falta de resolução. Traumatizados, vítimas ou reféns do tal mau caratismo do outro que, de forma ampla, ajudamos a alimentar.

Sim, meus amigos, ajudamos a alimentar quando entramos no joguete! Ou seja, a responsabilidade é também nossa. Wake up, Wendy. Again.

Temos que saber a nos valorizar. Não nos deixar corromper ou expor demasiadamente por ideais sobre outras pessoas. Não existem pessoas ideais, embora tendeciemos a acreditar que sim.

Meus amigos, la garantia soy yo. E nada mais. Enquanto não vier outro que, lado-a-lado, construa, ficar refém de um ideal é terrível e pode sim nos estragar. E a culpa é de quem? A culpa é de quem?

Homens ou mulheres, meninos ou meninas, gays ou heterossexuais, vivemos as mesmas mazelas advindas do coração. As vezes.

Apesar de meu momento ser de Cazuza, está aí o Renato Russo para “confundir” esse post.

2 comentários Adicione o seu

  1. Guardian disse:

    Ao amigo do blogueiro, bem como a todos que se encontram nesta situação, sugiro assistir ao vídeo do link abaixo. É um texto do Pe. Fábio de Melo, que diz, em linhas gerais, que o quando uma relação começa a trazer mal estar, é sinal que ela trará muito sofrimento caso não seja tratada a tempo. Vale a pena uma conferida!
    Forte abraço a todos!

  2. Caio disse:

    Fico me perguntando do por que este cara com beleza acima da média fica fazendo corpo mole e só usando o seu amigo. Não deu a entender que ele é um cara largado na vida que precisa se bancar. Desse modo, se ele supostamente não tem interesse em manter uma relação de compromisso da forma como o seu amigo deseja, ele está com o último apenas pelo prazer de vê-lo sofrer um amor não correspondido. Se mesmo for isso, esse cara é mesmo mais do que problemático.

    Outro ponto que questiono é a relação beleza física e possibilidade de se relacionar. Será que todos os bonitões são egoístas, só se importam com seu ego, só querem chamar a atenção da maioria para se auto afirmarem e depois descartá-los como bagaço quando terminam de usar? Espero definitivamente que não e da mesma forma que não podemos generalizar em nada (exceto para pequenos grupos de coisas ou pessoas em há conhecimento sobre todos deste grupo, para poder julgar), eu creio que há exceções.

    No fim das contas, ainda bem que gosto de me tornar atraente para mim mesmo. Afinal caso não possa ter um modelo de homem a qual julgo especial e ideal para mim, seja ele como for, então pelo menos terei eu mesmo rs.

    bjo meu caro.

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