Gay não é um adjetivo – Ensaio sobre o amor e o desamor

Amar. Posso dizer que – apesar de estar num momento de balanço, fechado para qualquer envolvimento afetivo mais sério, assunto que fica bastante explícito em boa parte dos últimos posts – vivenciei três formas de amar mais definidas que vou denominar de “amor paixão”, “amor à distância” e “amor construtivo”. E mesmo assim me sinto ainda bem longe de definir o amor somente com as experiências que tive. Aliás, me sinto ainda bastante inexperiente nesse assunto e imagino que tal desenvolvimento é para a vida toda.

Começo o ensaio sobre o amor dizendo que a busca pelo tão almejado sentimento corre junto à busca do autoconhecimento. O autoconhecimento alimenta o amor e vice-versa, em um ritmo íntimo como já citei por aqui: “amar é se tornar uma pessoa melhor junto a outra pessoa”. Em outras palavras, a relação que nos proporciona o desvendar de nós mesmos, o compartilhar nossas inseguranças, alegrias e tristezas reciprocamente, que nos serve como espelho e que nos ajuda no processo de amadurecimento individual – estando com alguém – nos aproxima de um sentido bastante construtivo.

Esse foi o viés mais nobre que alcancei até hoje e creio que o mais amadurecido também. Estar com alguém é crescer junto, lado-a-lado, sem submissão. O crescimento aqui está longe de ser o material, o que não o exclui. Mas me refiro a um crescimento emocional, intelectual e um reconhecimento mais nítido de nós mesmos. Me refiro também a uma natureza e a uma responsabilidade mais clara do respeito a individualidade e às diferenças de cada um. Da possibilidade de dois preservarem a integridade, desejos e características individuais e conseguirem permanecer juntos.

Para esse “tipo” denomino de amor construtivo.

O amor à distância, as vezes mesmo próximo, é aquele que começa “ao contrário”. Seja por limites físicos ou barreiras psicológicas para se deixar entregar à um relacionamento, vai começando de pouquinho em pouquinho, sem pressa, sem nomes nem definições imediatas. Para alguns (e provavelmente para a maioria que está vivendo a primeira relação ou ainda não viveu) a falta de intensidade soa quase como um ultraje, um desgosto ou uma impossibilidade. Até eu mesmo, agilizado que sou, as vezes queria colocar mais lenha na fogueira. Mas como uma “dança de reconhecimento em passos miúdos”, foi o ritmo que acabou se estabelecendo.

O ganho do amor à distância é que impossibilita o apego. Consequentemente, amores assim passam mais longe de “normas e políticas de casal” que nós, gays ou heterossexuais, estamos sempre cheios para manifestar consciente ou inconscientemente para construir o conjunto de seguranças. Por outro lado, como disse, a falta de intensidade pode dar um tom aguado, ou talvez, não seja suficiente para sustentar as intensidades quando nos sentimos envolvidos. As vezes, o amor a distância, poderia se chamar de “1/2 amor” dependendo do ponto de vista, dependendo da poesia que fazemos com a vida.

Por fim, mas não menos importante, existiu o amor paixão. É o Big Bang, é infanto-juvenil. É tudo intenso: as risadas, os choros, o ciúme, a vontade de estar junto, o sexo, as manhas e os mimos. É aquele tipo de amor que, quando você olha para a pessoa, você enxerga a perfeição e é muito difícil pensar diferente. Existe sim esse tipo de cegueira, mas a química da paixão que flui em nossas veias e explode em nossos cérebros nos anestesia e faz passar desapercebidos os defeitos, as falhas e as diferenças. É tudo lindo, intenso e maravilhoso. É amor que cola. É pueril. É a vontade de dois serem um.

Vivi todos esses amores com a mesma pessoa. Mas vivi cada um desses amores com cada pessoa. E essa mistura de essências, dentre outras como a fraternidade na relação, dá todo barato no envolvimento.

E só dá barato quando é mútuo.

Aqueles que não vivem amores correspondidos normalmente estão idealizando demais o outro. Desistam de entrar numa história assim o quanto antes. Ou vivam de migalhas, conscientes que se a pessoa joga o farelo e você come, eis a sua responsabilidade no processo. Esse é o exercício do desamor.

Nessa jornada que é a vida, na busca do autoconhecimento, experenciar o amor (que não entre pais, irmãos e amigos) é bastante rico. E não devemos ter a pretensão de achar que deve ser eterno. No plano real, achar que é para sempre não deixa de ser algo pretensioso. E hoje não falo isso pelo simples viés de estar solteiro atualmente, de um hipotético recalque, embora a desilusão possa fazer parte do processo do fim. Somos humanos, não é mesmo? Mas não é esse o caso. Ou pelo menos, dessa vez o recalque não bata tão forte como já aconteceu um dia.

O que vivo hoje é tipo um processo de cura. Cura das dores do fim. Hoje, falo isso porque se um amor acaba e o relacionamento se finda, levamos um tempo mas abrimos oportunidades de vivenciar outras essências de amor que são, talvez, infinitas.

Talvez essa maneira de pensar me traduza como um amante? Talvez.

Reconhecemos esse tipo de autonomia, de poder se dar a oportunidade humana de “sair para balanço”. Sentimos a energia de se reinventar. Olhamos para prazeres antigos que ganham luz, retomamos alguns hábitos e, o mais importante, descobrimos um “eu” novo de tempos em tempos. Isso é engrandecedor.

Reconhecemos que somos uma soma de experiências, mesmo daquelas que são mais indigestas. Se superamos as indigestas? Bem, isso depende do jeito de olhar a vida de cada um e não depende da idade.

O ritmo é esse: nos damos oportunidades de construir uma história e descobrir a essência de um amor. As vezes não dá certo, as vezes sofremos e sempre sentiremos a perda. Inevitável. Mas depois que vem a sensação de virar pó existe aí uma dádiva de renascimento, de novos ciclos, novas oportunidades e um outro olhar para aqueles mesmos objetos apresentados no cenário da vida.

Nesse contexto do amor, posso afirmar que “morri e nasci” algumas vezes na mesma vida. E notem que curioso: permaneço vivo.

“Se acabou é porque não foi amor”. Puxa, isso me soa muito a segunda escola romântica da literatura. Lembram do Lorde Byron? Não é bem assim.

1 comentário Adicione o seu

  1. Pedro disse:

    Ler suas últimas postagens é como fazer um mergulho dentro de mim mesmo. Santa maturidade! como ela é tão bem vinda nesse momento de “renascimento” pelo qual vc e eu estamos passando. O caminho do desconhecido à frente é assustador quando paramos para tentar enxergar aquilo que não pode ser visto (não somos videntes!). Então o que resta é viver pacientemente o momento proporcionado pela dor da perda do objeto amado, com o máximo de dignidade possível, um dia de cada vez, com a certeza de que as tempestades passam, e que elas podem fazer florescer um belo jardim aos que se dedicam a cuidar dos seus. Desejo muito sucesso no seu processo de cura, querido MVG. Cuide bem de seus jardins. Estou aqui, tentando cuidar dos meus…
    abs

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