Minha Vida Gay – Meu pequeno castelo de cristal

Ontem reencontrei depois de alguns meses uma das primas de meu ex-namorado. Quase 4 anos de convívio e, como expressei por aqui, de encontros constantes com os primos e tios, fez com que com alguns deles eu criasse a natural afinidade.

Sem ressentimentos nem questões do “por que não encontrar?”, a “viagem” foi longa até o Tucuruvi, mas valeu a pena. Com a “Cíntia”, pude colocar diversos papos em dia, inclusive aqueles que ensaiávamos fazer algumas vezes, longe das vistas da parentada toda que, na medida do modelo comportamental, nos cercava sempre que buscávamos algum momento mais intimista.

Dessa vez deu certo e, dessa vez, não mais como “parente” mas como amigo, isento de qualquer vínculo familiar necessitado de seguir as velhas normas.

Pudemos falar de diversos assuntos e pouco comentamos de seu primo, meu ex. Mas foi inevitável falar da cultura familiar, das manias, opressões e regras os quais me submeti direta e indiretamente enquanto namorado e que a ela ressoa com tanto sentido. Como bem classifiquei, o modelo tradicional brasileiro de família é sonho de vivência para muitos gays que buscam a tal “normalidade e aceitação”. Por outro lado, tem lá um punhado de características, como o sentido exclusivista, egóico, preconceituoso e “quadradinho”, por assim dizer, que coloca em conteste esse “mar de rosas”.

A Cíntia é mãe e perdeu seu marido há aproximadamente 5 anos de morte súbita, um ano antes d’eu entrar na família. Assim como a maioria dos 40 primos e primas foi educada do modelo tradicional e conservador. Assim como as suas primas, na maioria, e por todo esse contexto do conservadorismo em pleno século XXI, foi educada para casar. Tornou-se viúva e por um tempo (senão ainda) paira uma necessidade de manter-se nesse estado perante a própria família.

Vive um grande conflito, fruto dessa educação: o mundo hoje, lá fora, nas ruas, apresenta pessoas mais soltas, de falta de compromissos. Convenhamos que as vezes líquidas até demais. E isso fica bastante óbvio quando a realidade do ficar e do sexo casual é uma prática comum hoje em dia, seja no plano heterossexual ou gay. Ela é representante legítima de uma educação que segurou a maioria das “ondas” e tendências sociais para preservar aquele conceito ideal de “homens cavalheiros” e “mulheres princesas”. E fazendo intersecções com meus pensamentos, sua família cria filhos homens “bonzinhos” e “princesas” que deverão, na medida do possível, serem a “alfa” nas relações.

A exceção de uma das primas que rompeu com a “caixinha” (curioso quando da própria Cíntia veio essa expressão que utilizo com frequência por aqui) e tornou-se a “despojada”, “ovelha negra” por um tempo, as demais sofrem – em níveis diferentes – desse modelo conservador implantado, incutido e materlado desde quando crianças.

Os papos foram bastante descontraídos e, no nível alcançado de abertura e amizade, ela me questionou sobre a minha vida hoje, solteiro e como tenho lidado com esse “mundo lá fora”. Contei-lhe sobre minhas aventuras e sobre minhas desventuras também, não muito diferentemente do que faço por aqui. Numa mistura de insegurança e vontade, Cíntia repetiu algumas vezes que as coisas deveriam ser mais assim a ela, que existiam bloqueios e diversos receios de que qualquer descompromisso acabasse num desejo de compromisso. O que acaba assustando.

Falei a ela sobre a importância do exercitar, da tentativa de sair desse “mundo quase encantado”, das obrigações do conservadorismo em detrimento ao simples prazer de se relacionar, beijar e até mesmo transar. Falei sobre as tentativas de romper tal caixinha familiar (a qual convivi de perto durante tantos anos, então de caso sabido) para enxergar outras maneiras das pessoas se relacionarem para, quiçá, nesse mar de pessoas nas ruas, em suas buscas, encontrar tal cara que consiga sintonizar com o modelito.

O interessante é que o mundo mudou e uma penca de jovens no passado, mulheres principalmente, batalharam para que a sociedade conservadora caísse. Não fosse tais mulheres e outros homens com mentalidades mais libertárias, talvez a emancipação gay que notamos hoje nem tivesse chegado nesse patamar que desfrutamos, nas grandes capitais. Mas, ao mesmo tempo, existem ainda essas bolhas familiares de expressão do conservadorismo (mais rígida e rigorosa até que a minha própria família de japoneses) que ainda são referências e ideais, inclusive, para os gays que buscam uma “vida normal”.

Os primos são meninos e meninas que vivem um ou dois romances, que duram anos e que possivelmente transformem-se em casamentos “para toda vida”. Quando solteir@s não conseguem criar uma identificação com o mundo lá fora, sentem-se insegur@s, conduzem toda a aproximação ao pretendente de maneira conservadora e acabam até espantando porque a vida social hoje funciona diferente.

Não posso negar que tenho um pé nessa caixinha familiar, afinal, foram quase 4 anos me incluindo como primo e mais 7 em outras relações que me levavam ao modelo mais normativo. Mas foi vivendo nesse cume da tradição e conservadorismo que desisti. É como se durante anos eu estivesse subindo uma grande montanha, um dos objetivos da minha vida de superação de barreiras sociais e autoafirmação como gay e, ao chegar no pico (convivendo com essa grande família) a missão estivesse cumprida. Desfrutei da posição, mas estaria pronto para descer morro abaixo estafado por um certo peso da tradição familiar quem nem era a minha.

O que eu pude avistar dessa parte mais alta é exatamente o contexto na qual a Cíntia está inserida: uma grande família sempre muito reunida (preservando a imagem) mas cujas pessoas são vítimas de um tipo de rigidez que fazem jovens mais inseguros para enfrentar o “mundo lá fora”. Não é à toa que um planejar as vezes excessivo para qualquer feito, dos mais simples como ir a um restaurante novo ou fazer uma viagem, sempre foi necessidade incontestável (a meu namorado, por exemplo). Ao nascer, crescer e se formar num ambiente familiar assim, criamos pessoas inseguras e apegadas que, quando fora do recepitáculo da família, tudo é para se desconfiar. O mundo será sempre desconfiável (a não ser a família).

Falei que um dos meus pés está nessa caixinha e isso é um fato, descrito em diversos posts pelo MVG. Mas o outro pé não está e dá passos fora do que é tradicional e conservador. Aliás, se for parar para pensar, não saberia dizer se sou mais conservador ou mais libertário. Em algumas situações, preso a regras e políticas necessárias como em minha empresa, ou até mesmo como namorado, me sinto um tanto “pratiarca conservador”. Em outras medidas, quando me jogo aos experimentalismos, ao inustidado, sem precisar de benção de nenhuma autoridade, me sinto outra coisa bem longe do conservadorismo.

Foi assim até agora e, pela primeira vez, quero fazer diferente.

Acho bastante importante esse compreendimento geral em minhas buscas. O “Mundo Brasil” (e não conheço a fundo outro mundo) é feito dessas bolhas.

E vou dizer: para quem não nasce nesse contexto, diferente do meu ex, da Cíntia e de todos os primos, o ar do conservadorismo é morno, denso e sufoca e não acho que seja algo para se conformar por ser assim. Ser conservador não significa ter juízo ou maturidade. Que tenhamos esses conceitos bem claros em nossas mentes ou, pelo menos, é assim que tenho avaliado tudo do que foi, tudo do que é, para fazer diferente no que será.

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