Gay não é um adjetivo – Ensaio sobre a vaidade

Em reunião na semana passada com meu sócio e a nossa assistente levantamos assunto sobre um problema bastante comum nas empresas (e as vezes espalhadas nas relações entre as pessoas): a vaidade.

Quem trabalha, já deve ter passado ou tido ciência de algum caso do famoso “jogo da vaidade”. Então, antes de mais nada, acho importante a gente entender bem qual o significado dessa palavra.

O sentido óbvio e claro da vaidade, para a maioria, está no apreço estético físico, na beleza, nas roupas e tudo que envolve uma imagem. Mas essa é apenas a ponta visível para todos.

Vaidade vai além disso: é um capricho, uma necessidade de chamar atenção e de alcançar alguma diferenciação perante o outro ou o grupo.

Falávamos em reunião de almoço sobre alguns cases, de gerentes responsáveis por equipes e projetos que – por causa da vaidade – acabam deturpando valores estabelecidos entre eles e os integrantes da própria equipe. Quantos desses administradores não evitam que os profissionais abaixo deles cresçam, negando cursos de aprimoramento, bons projetos e boas ideias por pura vaidade?

No âmbito corporativo e profissional, tal sentimento deveria passar longe para se garantir a retidão no trabalho. Mas nem todos conseguem vislumbrar o senso de – se é gerente escolhido por superiores – já se está no comando da equipe. Como “comandante” deveria pensar na reputação geral e coletiva para o melhor desempenho. Mas não: coloca em primeira instância sua vaidade, os desejos do ego (pessoal), que torna duvidosa sua condição de um bom líder que, no fim, quer garantir o seu status (particular) e não a reputação geral para o crescimento da empresa (coletivo). Ainda que a vaidade entrasse no contexto de crescimento coletivo, de um sentimento que se manifestasse incluindo o senso de equipe.

Falávamos isso porque a nossa assistente, apesar de muito competente e já ter o “cargo” principal depois dos sócios, tem um Q de vaidade que as vezes deixa turvo o real sentido de algumas de suas atitudes. Outro dia, e não faz tanto tempo assim, a jornalista de redes sociais atendeu o telefone e fez muito bem frente as demandas do cliente naquele instante. Dias depois, minha assistente veio com um argumento que não a deixaria fazer um atendimento novamente porque aquilo era uma de suas funções. Atento a essas sutis movimentações no cotidiano de minha empresa, a questionei porque não delegar as vezes, sabendo que ela fazia bem.

Ela foi ligeiramente intransigente, dizendo que não era a função dela.

Naquele momento percebi a vaidade. E vaidade normalmente é acompanhada de uma postura autoritária e centralizadora (o que não quer dizer que todos que são autoritários são vaidosos, mas no caso sim). Minha assistente definiu um sentido de poder quando o assunto é o atendimento à clientes. O “risco” de dividir tal função soaria como tirá-la um “porto muito seguro”. Porque sim, vaidade é também um sintoma de insegurança.

E no campo da vida pessoal, quando é que a vaidade se expressa?

Todos os dias esperamos curtidas em nossos posts nas redes sociais. Queremos, normalmente, contabilizar curtidas como interação básica e feliz. Se alguém fizer algum comentário, supre ainda mais nosso “tanque” de vaidade. E, no final, se alguém compartilha, é a glória!

O exemplo do mecanismo das redes sociais funciona pois é de conhecimento geral. Por lá exercemos a nossa vaidade e raramente testamos ou desafiamos nossos amigos lançando posts mais polêmicos ou “desatraentes” para não correr o risco da curtida zero, mesmo que inconscientemente. Experimentem fazer ao contrário de querer curtidas. Bate uma insegurança, não bate? A vaidade é porporcional a necessidade de se tornar popular. As vezes é um “grito” por “olhem por mim! Eu estou aqui!”, o que também e as vezes subentende a carência.

O selfie é a pura manifestação da vaidade. É tiro certo e praticamente vai garantir mais de uma dezena de curtidas. Mas por ser tiro certo é banal. O Mark negou abrir gifs animados para o Facebook Brasileiro pois a gente não tem medida. Ia ter gif animado gritando as nossas vaidades, sem critério, por todos os lados. A timeline, certamente, viraria uma árvore de Natal de mal gosto.

O Orkut morreu assim: piscando.

A vaidade pode aguar relacionamentos sem a gente se dar conta. Como namorar alguém tão vaidoso, que coloca o ego em patamares superiores em relação ao parceiro? Diferente do amor próprio que não inibe as trocas, a vaidade desconecta.

Mas, ao mesmo tempo, vaidade é uma das características humanas, mesmo que não aquelas voltadas à estética e à moda. Todo mundo, gente, tem os seus caprichos e são eles, inclusive, que ajudam a dar o tom de nossas respectivas personalidades. Se um senhor aposentado resolve sair da metrópole, viver na beira da praia numa casa simples e pescar todos os dias, podem ter certeza que na “arte da pesca”, de preparar uma linha, acertar os nós, o peso do chumbo, o tipo de anzol e lançar a isca certa ao mar com o conhecimento da maré pela Lua, também está manifestando o seus caprichos, caprichos da vaidade e caprichos de ser caprichoso e zeloso com aquilo que sabe fazer.

No final, dessa tal vaidade que está sim dentro de cada um de nós, o importante é ter controle ou equilíbrio. E claro que o amigo tempo e as cagadas advindas da vaidade nos ajudam a rever as medidas.

 

 

1 comentário Adicione o seu

  1. Wellington disse:

    Caro MVG,
    Bom dia!
    Estava de ferias e morrendo de saudades dos seus posts e da sua incrível coerência.
    Qto ao assunto segue minha opinião: acho q td na vida tem seu lado positivo e o seu lado negativo. Sendo algumas coisas mais propensas para um ou para o outro.
    A vaidade quando bem dosada é importante e benéfica para as relações sociais, o problema acontece quando há excesso(afinal nada em excesso faz bem).
    Aproveito a oportunidade para deixar minha experiência pessoal. Tive contato com um rapaz q era assumidamente vaidoso. Ao ponto de dizer q os outros deveriam servi-lo e q TDs sempre atendiam suas vontades, tanto parentes quanto ex namorados(preciso dizer: q criação os pais desse menino deram pra ele? Entregar td q se deseja como se o mundo fosse um mar de rosas, achei q os pais foram os grandes responsáveis por esse comportamento dele e agora quem vai pagar o preço é ele. Ops to fugindo do assunto)
    Enfim, voltando ao assunto concluo que a sociedade super valorizou a vaidade(qdo na verdade queria dizer amor próprio) e hj luta para combater seus males
    Um grande beijo

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