Minha Vida Gay – Hora dos 37 e as coisas do amor

E no sábado fiz 37 anos. Quem diria que já vivi quase 4 décadas e que pessoas nascidas no final dos anos 70 já foram jovens um dia? Tudo bem que as gerações estão envelhecendo cada vez mais lentamente (de cabeça, de hábitos e de dinâmica de vida) e acho que isso nem é justificativa por ter chegado em tal marca, para ser desculpa que ainda estou novo. Parte é nova, parte é amadurecida e o amigo tempo tende a resolver bastante coisa.

Uma porção das questões de quando era mais moço, uma estabilidade de trabalho e financeira, uma autoconfiança para me apresentar ao mundo, o fato de ser gay e como lidar com pais, irmão e amigos, minha atenção as coisas da espiritualidade, a liberdade de ir e vir, todas essas e outras mais atingiram um nível satisfatório hoje, que me dão fôlego para focar energias em outras demandas. É importante dizer que também já tive 20 e poucos anos e o que sou agora, com 37, é um acúmulo de feitos ou desfeitos, encontros e desencontros, tentativas, acertos e erros, relacionamentos e rompimentos, conquistas e crises e tudo que a gente coloca no pacote da vida. Tirei de pensamentos e da teoria muita coisa e lancei para o campo da prática. Não foi num clique, num estalo ou pedindo para a Sininho jogar pó de Pirlimpimpim que o MVG, que teve 20 anos, se tornou no cara de 37. Foram 17 anos vividos e posso dizer que no decorrer desse tempo, todos nós, passamos por muitas mudanças.

A outra porção é da energia jovem, ou melhor, a maneira que a entendo em mim: jogar videogame, pegar estrada, partir para baladas (até mesmo a sauna), tomar uma cachaça com os amigos, tocar piano, conhecer pessoas novas, dançar, buscar por novos cursos, malhar, pular na cachoeira, fazer trilhas, andar de cavalo, cozinhar e conviver com pessoas de 20 e poucos anos fazem eu preservar esse sentimento de jovialidade, de que ainda tenho gás para muita coisa.

Por um lado, a minha terapeuta, profissional que acompanha a minha vida por praticamente uma década, considera a autosificiência adquirida um salto em meu desenvolvimento pessoal. Saber dividir o “joio do trigo” com uma consciência, sem enganar a mim mesmo, sem me confundir, acaba trazendo muitos benefícios.

Por outro, a minha “terapeuta espiritual”, amiga que busco consultas há um bom tempo também, revelou hoje a mim a sua percepção: disse que a minha essência não é fechada assim a ponto de buscar um sentido maior de amor sem um par. Os “conselheiros” sugeriram para eu não bloquear essa porta e dar vasão para as oportunidades.

Amor. Chego então aos 37 anos com essa incrível sensação: sou adulto, no sentido de ter um maior controle em minha vida, da autosuficiência e da maturidade. Sou jovem por ter uma energia vital que me permite brincar, dar gargalhadas e curtir. Mas o amor, ah, esse tal de amor: continua sendo um das grandes charadas.

Sensibilizado pelas palavras da minha “terapeuta espiritual”, tenho que confessar algo nesse meu diário aberto: não posso negar que já conheci rapazotes interessantes nesses 4 meses (ou 5 já) de solteirice. E não me refiro a jovens mais complicados, como o bissexual que fiz menção algumas vezes por aqui, mas jovens gays (e talvez minha pegada seja eternamente me envolvendo por pessoas mais novas) com dezenas de virtudes e qualidades e com um profundo desejo de formar par, namorar, ser feliz em casal e coisas do tipo. Confesso que as vezes me pego em devaneios pensando em algumas situações, não numa suruba ou em confrontos sexuais – mesmo porque os devaneios são individuais – mas na simples vontade de estar junto, de querer saber se está tudo bem, de fazer as vezes do cara que se preocupa pelo ser potencialmente amado.

Tem horas que dá aquela vontade de mandar uma simples mensagem, de galantear, de despejar um pouco do erotismo, da graça, do bom humor, para fazer o papel de quem gosta de conquistar (porque se a coisa é entregue não tem muita graça). Mas vem um tipo de freio, que é exatamente o outro lado: a intuição me dizendo para ter calma pois esse inédito e feliz convívio com a solitude é novo e que estou vivendo/respeitando o meu tempo.

Tudo isso não chega a ser um grande conflito que me tira o sono. Mas as vezes, quando vejo vazio o meu lado na cama, minha mente traz algumas fantasias. Bem as vezes ainda. E quando for todas as semanas?

E no final, minha terapeuta espiritual pediu apenas para que eu prestasse atenção nesses devaneios, mesmo que breves. Porque o cara que gosta de formar par vive dentro de mim, está descansando, mas é uma realidade.

Acho que para as coisas do amor, tudo tem um tempo certo. A maturidade me dá uma certa clareza e estabilidade para que eu não substitua meu ex-namorado, prática de troca tão comum por aí. A jovialidade diz para eu curtir, como tenho feito, hora sobrevoando a carniça, hora me divertindo com passatempos, amigos e situações que não envolvam físico e sexo.

A maturidade diz para que eu não crie expectativas naqueles que pensam em algo sério, nessa fase que não poderei oferecer muito além de uma amizade colorida. A jovialidade diz para não deixar de zoar e brincar com aqueles que sabem que meu limite, por hora, é a zoação, que também tende a ser o limite daqueles que bagunçam comigo.

O quanto esse padrão vai se sustentar eu ainda não sei. Mas não tenho dúvidas de que, se o espaço de solitude for invadido pelo desejo de despejar todo erotismo, alegria, desenvoltura, prazer e vontade em um (novo) cara, naturalmente o modelo é rompido. Temos autonomia para isso? Não é nem questão de autonomia nesse caso. Mas se opta por estar aberto ou fechado sim.

Esse é o primeiro momento aqui no MVG, depois do término, que dou espaço para esses pensamentos e os exponho por aqui. E acho que as melhores coisas acontecem assim, compassadas e sem substitutos.

Quando é que realmente estamos preparados para o amor? Quase nunca, mesmo depois de ter amado algumas vezes.

Boa semana a todos,

MVG

 

7 comentários Adicione o seu

  1. Gustavo disse:

    Pois é meu querido….
    uns de (recém chegados) 37 questionando a abertura para viver o amor frente à maturidade e jovialidade que esta idade combina; outros de 36 questionando a amor por não querer abrir mão dele frente à essa mesma jovialidade, e à sensação “de que ainda tenho gás para muita coisa.”
    Esse tal de amor é bom, mas é complicado, né? :-P

    1. minhavidagay disse:

      Fala Gustavo!

      Maneiro aí?

      Acho que complicado somos nós que criamos barreiras e questões para os sentimentos…rs.

  2. Gustavo disse:

    E aí queridão,
    desculpa aê, mas vou comentar de novo… pq, por acaso esse seu post veio no momento em que li um texto (de um psicanalista, sobre o amor) que acho que se encaixa bem no seu texto e nos nossos comentários acima. Destaco um trecho:

    “O amor só é possível se duas pessoas se comunicam mutuamente a partir do centro de suas existências, e portanto, se cada uma experimenta a partir do centro de sua própria existência…. Assim, experimentado, o amor é um desafio constante; não é um lugar de repouso, mas é mover-se, crescer, trabalhar juntamente; haja harmonia ou conflito, alegria ou tristeza, isso é secundário em relação ao fato fundamental de que duas pessoas se experimentam mutuamente a partir da essência da existência, que são uma com a outra por serem consigo mesmas, em vez de fugir de si mesmas.”

    Ou seja, o amor demanda muito o querer: querer estar e continuar junto, querer resolver os problemas, querer ser feliz e fazer feliz. E pra saber se a gente quer, tem que questionar, e pra isso, tem que se conhecer.
    E aí entram as “barreiras” e “questões” que vc citou:
    Primeiro, o amor dá trabalho!
    Além disso, hj nós somos estimulados a querer tanta coisa, tudo ao mesmo tempo, que fica difícil reconhecer o quanto o amor ainda tem valor nesse mundo de coisas, e o quanto o querer “alimentar o amor” se sobressai a todos os outros “quereres”.
    E como vc bem disse, nós somos complicados, e colocamos nesse bolo mais um monte de neuras e questionamentos que só dificultam a coisa!

    É por isso que “o amor” parece ser tão complicado… (e tão difícil de se viver, e se ver por aí)!!

    Concorda?

    1. minhavidagay disse:

      Oi amigo Gustavo!
      Tudo bom?

      Concordo que o amor seja uma devoção, uma prática que exige resiliência. Além dos quereres, temos que realizar, praticar, aprender a conceder e, acima de tudo, abusar dos relacionamentos amorosos para reconhecer a nós mesmos.

      Vejo o relacionamento como um dos melhores lugares para nos deparar com espelhos. Não no sentido de que a outra é reflexo da gente. Mas que ao se vivenciar de uma maneira efetiva um namoro, um amor, um relacionamento além do casual, a intimidade acaba nos desvendando a nós mesmos.

      Em outras palavras, a prática do amor (muito menos romântica e muito mais executiva) é também um exercício de autoconhecimento.

      Quando a gente diz que o amor transforma, faz um tremendo sentido para mim. Nos pegamos num estado imaturo e despreparado em alguns aspectos e, quando nos botamos a relacionar, temos a oportunidade da imaturidade tornar-se maturidade, do despreparo tornar-se preparo, e assim por diante.

      Se temos alguém que a gente gosta muito – ama – a gente mexe em diversos nós, tentamos desatar, para se sobressair.

      Posso afirmar que sou uma pessoa melhor hoje por alguns motivos: por ter me atirado na própria empresa desde meus 23 anos, mas – principalmente – por ter me permitido relacionar e amar algumas pessoas, de histórias de vidas diferentes e em contextos de tempos distintos. Que hora eram referências positivas, hora negativas e que contribuíram diretamente para a minha autoconsciência. Para entender melhor quem sou. Assim: amor é espelho.

  3. lebeadle disse:

    Parabéns atrasados, MVG. A ambivalência das coisas parece que é algo que só na vida prática conhecemos. No mundo das teorias tudo é sempre didático, perfeito. No caos da vida é que encontramos alguma trilha. Penso que quando os “às vezes” forem semanas então estará terminada essa fase e você estará pronto para o amor. Curta essa fase de solidão, que no dizer de Auden, é o momento de mais pura e autêntica liberdade; curta essa maravilhosa companhia que você faz a você mesmo, por hora.
    Abraços, beijos, saúde e tudo de bom na sua vida.
    São os desejos desse seu amigo.

    1. minhavidagay disse:

      Obrigado pelas palavras, Lebeadle! Sem problemas pelo atraso rs. Até agora tou recebendo mensagens do Facebook! Essa vida virtual é assim mesmo :)

      Um beijo,
      MVG

  4. Wellington disse:

    Como li nos comentários q vc não tem problemas com parabéns atrasado, então segue o meu:
    Parabéns!
    Felicidades, q todos os seus desejos se realizem
    Qto a fase da vida, tbm vivo um momento de indagações não sei se quero desbravar todo este mundo e viver a solteirice ou esse lado jovial como vc disse, ou se quero me apegar a alguem e viver um relacionamento a dois. Por enquanto estou me deixando levar, mas me sinto mais confortavel com um rumo definido, por enquanto vago por ai.
    Um grande abraço

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