A arte de se relacionar

Faz um tempo que a mim o Facebook estava qualquer coisa assim de chato. E no último mês, nessa onda de “No que você está pensando”, frase emblemática e as vezes invisível que antecede o campo no qual publicamos nossos posts no FB, resolvi dar um pouco de MVG no meu próprio perfil. Resolvi ser um pouco mais ousado diante dessa avalanche de selfies, humor raso e falta de assunto substancioso.

Daí, entre tentativas, acertos e erros, saiu um texto que achei que ficou legalzinho e replico aqui, no MVG:

“Se relacionar é algo que a gente aprende com a vida, ato que se intensifica se há a própria empresa, que nos coloca numa condição irreversível de se relacionar para dentro e para fora.

Se a ideia é sobreviver, relacionar-se é uma condição. Ou se transforma em eremita ou mendigo.

A aparência vira um mero detalhe, a minha e a dos outros: não tem gordo, magro, maduro, moleque, homem, careca, grisalho, barbudo, barbada, mulher, loira, morena, baixinha, alta, popozuda, magrela, gay, sapa, heterossexual ou transexual. Branco, amarelo, azul ou verde.

Citadino ou interiorano, depois de um tempo, a gente aprende a transpor a imagem. Claro que essa tal de imagem tem lá a sua importância da primeira impressão. Mas é ela que intensifica ou esconde o conteúdo (normalmente as duas coisas!).

O “tipo” da pessoa, que vai do “estilo” dos amplos discursos aos ouvidos atentos, do zen à carne de pescoço, é tão vasto e diverso que a gente descobre que essa mania humana de se enquadrar em caixinhas – em grupos por afinidades – é a pura necessidade de segurança e proteção. Porque, em níveis diferentes, a gente tem medo de gente.

E temos um baita receio do diferente.

Se alguém me perguntar hoje qual o perfil de pessoa o qual me relaciono não saberia responder. São vários, das mais diversas culturas familiares, para as mais diferentes situações. Se alguém me questionar se tenho “os melhores amigos”, eu arriscaria a dizer que isso é uma limitação da caixinha. Não consigo prosperar apenas com os semelhantes. Compartilhar as mesmas opiniões para os aplausos, que são um tapa no ego, não é desafiador.

Vai lá pedir aplauso do diferente, vai…

Gosto do zen, do policamente correto, mas não deixo de aprender bastante com o subversivo (se é que hoje nesse mundo a gente possa dizer que algo é subversivo!). Gosto do jovem de hoje que faz uma rede de quereres mentais, que esbanja uma ansiedade incrível e uma vontade de conquistar o mundo em uma semana. Gosto do maduro que já trilhou seus caminhos, definiu sua certa cartilha e tem diversas histórias para contar.

Só não gosto muito daquele que está infeliz consigo e, em alguma medida, vai cobiçar alguma coisa que vem da gente. Seria muito mais evoluído pedir um pouco de luz do que querer a própria.

Mas gosto, acima de tudo, de entrar nas diversas caixinhas por aí, assumir que tenho a minha também, mas poder transitar sem medo, ir e vir, colhendo vivências e escolhas de vida tão diversas, das pessoas que vivem espalhadas. Dos vinte aos entas, porque a partir dos quarenta é para sempre enta. E quem atingir o 100 vira semideus!

Não consigo me prender e embora isso possa me trazer problemas, hoje tem me trazido mais esclarecimentos. Como esse texto, por exemplo.

PS: quando tinha 20 e poucos anos e embora já fosse assim, não tinha a emancipação mental e a clareza de ideias dos 37. Hoje tenho as duas coisas”.

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