Quero me entender. Quero me encontrar.

Vejo que um dos grandes motivos dos leitores passarem por aqui é o fato de buscarem um compreendimento mais consciente do ser gay, de como essa clareza pode trazer uma paz, um conforto e, as vezes, até uma esperança a aqueles que se reprimem tanto pela própria homossexualidade.

Uma compreensão de si mesmo ou o autoconhecimento é um processo que tende a levar toda a vida. Claro que alguns, depois de adquirirem algumas respostas primordiais, preferem sossegar suas cabeças e resolvem desencanar. Outros, tais como os filósofos, pensadores ou até mesmo os tais intelectuais buscarão exercitar seus neurônios por longos anos – sem aquele sentido de sofrimento ou preguiça – mas por uma certa inquietação inerente à própria personalidade. Por fim, alguns, não vão nunca ou quase nunca entrar em processos do tipo “o sentido da existência”.

Não quero ser arrogante de achar que sou uma dessas pessoas pensantes pois, ser comparado a um filósofo, me soaria como uma grande elogio. Mas os quase 10 anos de terapia me ensinou algo bastante importante: elaborar.

Quem procura um terapeuta/psicólogo e consegue se expor vai desenvolver a prática da elaboração. Em outras palavras, a grande maioria dos sentimentos que são tidos como negativos tais como a tristeza, a angústia, a ansiedade, o nervosismo, o medo, dentre outras que nos “atrapalham” a ponto de nos bloquear, ou dificultar o convívio social, ou lidar com desafios (no âmbito familiar, entre amigos, escola, trabalho, relacionamento, etc.) são desvendados. Em outras palavras, em bons processos terapêuticos com bons profissionais (subentendendo que um bom profissional só conseguirá atuar quando o paciente estiver aberto para ser ajudado) as causas, motivos e raízes dos tais “sentimentos negativos” são compreendidos, elaborados e – assim – controlados. Tristeza tende a se dissipar e dar espaço para alegria. A paz assume a posição da angústia. A ansiedade se dissipa e vem a calma. No lugar do nervosismo vem a tranquilidade e, em contraposição ao medo vem a coragem. Terapia, acima de tudo, nos ajuda a encontrar um equilíbrio e não um conforto pleno. É bom não se confundir. E é bom reforçar: depende mais do paciente do que do terapeuta.

Minha psicóloga perguntou essa semana a mim: “ficou ainda alguma frustração em relação ao seu namoro que acabou?”. Poderia dar uma de arrogante, bem resolvido e – consequentemente – me deixar fechado a aquela pergunta. Mas no ato de sua questão me veio um sentimento esquisito que apontava para a tal frustração levantada.

Pensei um pouco e em segundos veio a resposta: “ficou sim. Ficou uma sensação de que ‘briguei’ para tirar meu ex do conservadorismo, de uma dependência mental das tradições e normas ‘quadradinhas’, de uma certa falta de liberdade intelectual. Mas não consegui”.

Daí ela: “mas MVG, já parou para pensar que essa função não era sua?”.

Daí que entramos novamente em uma grande questão na minha vida que, na maioria das situações é um diferencial. Mas quando o assunto é relacionamento “dá tilt uma hora”.

Já é claro pra mim que tenho uma “personalidade altamente funcional”. Em outras palavras e exemplificando, noto as demandas das diversas pessoas em grupos diferentes e busco suprir tais necessidades. No trabalho, desenvolvi a percepção de entender qualidades e defeitos de cada integrante da equipe para que os conduza a prosperar. O mesmo acontece quando estou em reunião com clientes: nos primeiros 15 minutos – e durante os 14 anos como profissional atuante na área comercial – tento desvendar suas personalidades, seus “modos de ser” para poder lançar ideias de formas compreensíveis, que lhes assegurem.

Não obstante, sempre tive um papel de conselheiro e confidente de meus amigos. Durante dois anos após término de namoro, um amigo heterossexual vinha todas as semanas em casa – quase que num processo terapêutico – para que eu o ajudasse a entrar em seu eixo novamente.

Meu pai, que sempre foi alguém indecifrável a mim, passou a ser um desafio, para que o compreendesse, o tirasse do “altar” de pai idealizado e conseguíssemos estabelecer a harmonia conquistada que prospera há três anos.

E até mesmo o Blog MVG é fruto dessa minha inquietação funcional, para que de alguma maneira (ou de muitas maneiras e formas) eu ofereça experiências vivenciais ou casos alheios numa tentativa de trazer um pouco mais de conforto, segurança e referência para quem passa por aqui.

Em todos esses vértices, enquanto asseguro os outros, também me asseguro.

Porém, como a vida não é um eterno mar de rosas (rs), no campo de relacionamentos afetivos/sexuais tal modelo tem tempo de duração. Explico: durante esses 11 anos de namoros somados, sempre entrei nas relações querendo ser funcional, como uma forma d’eu mesmo me assegurar e buscar uma garantia de que, sendo assim, as pessoas não me largariam. É como assumisse o papel de “príncipe encantado”, do herói capaz de entender sensivelmente as carências do outro. Convenhamos que, a grande maioria de nós – gays – temos uma certa carência, mesmo que velada, por todo contexto social que conhecemos. Prato cheio.

Mas concebendo relacionamentos com esse perfil funcional, as pessoas se acostumam com o modelo e me entendem como tal. Por sorte, nunca tive ninguém ao meu lado que abusasse maliciosamente de tal característica. Porém, e quando o ser funcional – que pode até ser 90% de minha personalidade – precisa viver os 10% que também tem suas demandas e necessidades? Que fraqueja? Que precisa dizer não? Que é imperfeito? Que é frágil ou que falha?

A própria reação contrária aqui no Blog MVG, quando mostrei meu “Lado B” da sauna, da subversão com drogas mais pesadas, foi decorrente da “decepção” perante o autor (MVG) funcional, que sempre mostrou lucidez, ideias íntegras e conduta retilínea.

Eu também, MVG, nesses 10% dos 365 dias do ano também tenho minhas questões. Eu também tenho a necessidade humana de precisar me entender.

As vezes a função “MVG” na vida real, fora dessa telinha, cansa.

Minhas fugas às cachoeiras, as vivências na solitude, as investidas na sauna, os encontros com os amigos, tudo, não deixam de ser uma necessidade de reciclagem, de revisão, de me socializar, nesse eterno processo da pessoa que sou, também querendo me encontrar.

Eis o clichê que serve para todos nós, ou para pelo menos os pensantes que passam por aqui: a vida é sim aquela eterna busca!

 

5 comentários Adicione o seu

  1. Renan Ferrari disse:

    Até parece que fui eu quem escrevi. Essa eterna busca pela funcionalidade dentro de um relacionamento é realmente uma característica que pode levar a algumas decepções, se bem que em meus 18 anos de vida eu ainda colecione poucas experiências desse tipo. Acontece que quando se almeja algo desse tipo, e se porta, nem que for inicialmente, como o tal príncipe encantado, o parceiro acaba adquirindo falsas crenças referentes a nós, crenças de que somos deuses ou algo parecido, e a relação acaba por ficar unilateral. Tentar esconder as fraquezas é, ao meu ver, uma fraqueza imensa, e é por isso que fico tão decepcionado comigo mesmo. Não sei… mas parece que só conseguiria me sentir verdadeiramente amado se conseguisse suprir todas essas ‘necessidade’ do outro. Luto contra isso, mas nem sempre consigo fazer com que os caras com quem me relaciono não criem essas expectativas e que a relação não caia na unilateralidade.

  2. Caio disse:

    MVG, mas como assim tentar fazer o seu ex-namorado deixar de ser conservador, de fazê-lo sair das caixinhas? Ora, não seria adequado saber lidar com os diferentes tipos de pensamentos ou mesmo de pessoas, visto que este é o ideal que sempre pregamos quanto humanos? Claro, ele não era uma pessoa qualquer, ou só um amigo, ele era muito íntimo seu. Mas será que é errado, por exemplo, deixar que uma pessoa fique com sua convicção de que os relacionamentos são monogâmicos, ou que tenham alguma característica peculiar que as vezes não esteja consoante com a do parceiro (no caso você)? Acho que ao passo que se combate a existência de um único padrão de relacionamento (para este exemplo), quer dizer que se combate a imposição de qualquer outro modelo que volte a formar outro padrão único. E além do mais, não é este ex que vez ou outra dava um tapa na macaca rsrs, se for, ele não pode ser coxinha por isso rs.

    E quanto ao finalzinho, acho que em partes foi uma indireta para mim, que na época critiquei sua atitude e não você. Quando você diz que em 10% do tempo precisa parar para se entender e para isso dá uma mudança na rotina, não acho que para conseguir esse objetivo precise recorrer a extremos (drogas). Acho que é bem possível filosofar sobre si mesmo e sobre tudo o que está a sua volta de outras formas. Do mais concordo contigo.

    bjo.

    1. minhavidagay disse:

      Oi Caio!
      Bom ter você de novo comentando os posts. Já estava com saudades de suas reflexões.

      Resumidamente, tudo andou em conformidade por quase 4 anos. Até um momento que a gente se depara que as próprias pessoas mudam durante um relacionamento e, assim, o que chamamos de diferenças começam a pegar.

      Enquanto fui buscando uma emancipação mental, notei ao meu lado alguém muito dependente. E essa foi apenas uma das diferenças constatadas. Quando se está relacionando e se persevera para manter a própria relação, tentamos sempre superar as diferenças. Mas quem disse que no “mundo real”, fora da utopia, conseguir tolerar as diferenças é realmente fácil? E quem disse que sempre que a gente muda, os caminhos seguem pela mesma direção?

      Mas para falar a verdade, quase quatro anos de relacionamento foi “vitorioso”. Não dá para dizer que não deu certo. Mas também não dá para dizer que era possível continuar. Eu, particularmente, fui até o meu limite.

      Sobre drogas, de novo (rs), o sentido de “extremos” também é bastante relativo. A mim, extremo é aquilo que até então não experimentado nos parece radical. Depois que se experimenta e se nota que existe todo um mito ou um excesso imposto para – no caso – proteção, passa a se incluir em momentos da vida e não se considera mais extremo.

      Bjo e não suma! :)

    2. minhavidagay disse:

      Outro ponto, Caio, que acho legal expressar aqui: percebe que com o MVG eu quero de alguma maneira contribuir para mudanças emancipadoras nas vidas das pessoas? Como dono de empresa, esse senso de mudaça se aplica com os profissionais que compõem a equipe (crescimento) e os próprios clientes (expansão)?

      Não menos importante, chegar na harmonia de relação com meu pai, conseguindo “enxergar meu próprio pai nele mesmo” foi também fruto dessa mesma energia de querer transformar?

      Isso faz parte de mim. Não seria diferente de alguém que se relacione comigo. Difícil? Fácil? Complexo? Simples? Respeitoso? Desrespeitoso? Não sei em que nível de adjetivo se encontra esse jeito de ser. Mas sei que essa característica faz também parte do “meu encanto”.

      Bjo!

      1. Caio disse:

        Pois é amigo eu entendo o seu lado. Quando vamos até certo ponto e vemos que não é possível ir mais a frente, temos mesmo que mudar (no seu caso desistir da relação).
        Andei sumido mesmo porque estava passando mais tempo estudando aqui, mas assim que der eu apareço para dar uns pitacos rs. E que bom saber que você sentiu a minha falta, até eleva o ânimo saber disso :)
        bom fim de semana.

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