Relacionamento gay: substituindo namorados

Estou mudando um pouco o jeitão do Facebook do Minha Vida Gay e, ao invés de ser apenas um chamariz para o Blog, passarei a lançar por lá situações, casos corriqueiros e curiosos do meu cotidiano dentro e fora do meio. E foi nessa toada que já lancei um primeiro post:

“Curiosidade da vida moderna: sai da academia e fui direto ao Pão de Açúcar fazer umas compras pra casa. Estava subindo a esteira rolante, quando avisto alguém me “secando” do outro lado. Enquanto eu subia, ele descia. E me olhava. E olhava. Daquela situação de ficar sem graça mais por estar despreparado, pingando de suor da academia e cansado, numa esteira de supermercado!

Não era nem bonito, nem atraente a mim, nem nada. Se destacava do outro lado apenas por ser alto.

De repente ouço: “Oi, querido!”. Quando noto, logo a frente do tal rapaz estava o “Misoshiro”, amigo dos velhos tempos.

Minha mente me levou a sua timeline do Facebook e logo lembrei: o varão era seu namorado. Bafônico”.

Uma primeira verdade: mesmo namorando, raramente os gays desligam suas antenas para reparar em outros caras. Talvez o radar se amenize nos primeiros meses de paixão tórrida. Mas depois as coisas a nossa volta, principalmente os homens, costumam a despertar a atenção novamente. Eita lasqueira! rs

O post de hoje aqui no Blog é dedicado a um padrão comportamental muito comum: a substituição de namorados. Dos cinco ex-namorados que tive, dois deles praticaram tal ato. Com um deles eu simplesmente surtei quando soube, gota d’água para adentrar com todas as forças na minha fase de “céus e infernos”. E outro foi incomparavelmente mais tranquilo. Contextos de tempo, pessoas e vivências bastante diferentes.

O grande desafio da maioria dos leitores já é conquistar o primeiro namorado, estabelecer uma relação fixa, fiel e duradoura. Imaginem então, depois que uma relação termina, você acabar descobrindo que seu ex – em semanas ou meses – já está namorando outra pessoa? Não é interessante tal postura? Pois bem, seja no meio hétero ou gay, esse tipo de troca é bastante comum.

Manter a “rigidez” da fidelidade, as vezes, parece ser tarefa heróica. No caso, da fidelidade a si mesmo. E parece que as tormentas emocionais são tão grandes que não conseguimos controlar a nós mesmos. Há todo um jogo fantasioso (fantasioso mesmo) e inconsciente nessas atitudes de substituição: de provação que se é capaz de se envolver rapidamente por outra pessoa (como se o relacionamento anterior fosse descartável), do medo que se gera – da falta de chão – quando se termina e da necessidade de fazer um “novo chão” rapidamente, da carência e da insegurança de viver o luto ou o sentimento de solidão.

Nos sustentamos demasiadamente nos valores das “fragilidades humanas”, da falibilidade, o que nos garante também uma segurança frágil.

Seis meses depois de um dos meu ex-namorados estar com o novo fulano, com quem havia iniciado uma relação umas três semanas depois de nosso término, voltava até a mim – solteiro – para almoçar num restaurante italiano perto de casa que era emblemático em nosso namoro. Vinha com certo tom de arrependimeto (sem nunca verbalizar claramente tal sentimento). Na época, confesso não ter entendido tal atitude. Mas hoje ficou tão nítido e transparente que ainda reservava sentimentos por mim.

Então levanto a questão: pessoas que substituem namorados podem ainda reservar sentimentos pelo ex? Na maioria das vezes sim e o raciocínio é muito simples: tentamos esquecer o anterior com um novo amor e tal “fórmula mágica” nem sempre dá certo! Na prática, no pragmatismo da vida, os sentimentos não se substituem.

Embora tais pensamentos sejam reflexos da condição humana, ser mais honesto consigo, com as próprias emoções, com as emoções reservadas pelo ex e com respeito ao terceiro (o novo namorado) também é humano. Daquele que se denomina mais ajuizado, maduro e honesto, principalmente a si mesmo. Não menos influente, entramos num jogo social de reputação, de querer provar que damos a volta por cima rapidamente, do senso de que “todo mundo faz assim” e, normalmente (e de boa), tendemos a nos fuder mais (rs) porque acumulamos “camadas” de frustração que cedo ou tarde tendem a amargurar.

Diria ainda que tais pessoas são um pouco atrapalhadas, bagunçadas. E embora deixe claro aqui uma posição de julgamento, se a gente quer organizar a vida, a virtude está quando se respeita os sentimentos próprios e do outro, não se usa terceiros para curar feridas e se emancipa vivendo o luto.

Humano também (ou cultural) é buscar pelo que é mais rápido e confortável. E claro que tudo isso faz parte das experiências individuais, dos aprendizados, de quebrar a cara e não mais repetir. Mas sabendo que a maioria substitui, tem muita gente tornando a substituição um padrão de conduta, do medo de ficar só, da baixa autoestima, da carência.

“Nada como um novo amor para curar as feridas”, ou: “o cúmulo do comodismo quando o assunto é o amor”. Não existe agente terceiro que nos salve de nossas próprias dores, do pavor de nos sentirmos sós, meus amigos. Mas a gente tende a se enganar assim mais de uma vez.

O legal é poder entrar num novo relacionamento sem ter que comparar demasiadamente. Tão incrível conhecer alguém novo, livre, purificado das memórias e dos sentimentos do passado.

Se cultural ou humano, nos substituimos com uma facilidade muito grande.

 

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