Diário de um gay


Ando numa fase bastante nova em minha vida gay e, quando me refiro a “vida gay”, digo a respeito de como tenho enxergado relacionamentos.

São pontos de vistas pessoais que não traduzem verdades generalizadas, que se aplicam a todos que passam por aqui.

Ontem mesmo estive algumas horas após o jantar conversando com a minha mãe. Com a sua vivência de mais de 60 anos, professora aposentada que lidou com gerações e gerações de jovens em épocas diferentes e sensível as questões das humanidades, cedeu um pouco de seu tempo para entender meu contexto atual.

Desde meus 23 anos, idade que comecei a assumir a minha homossexualidade, a natureza da minha personalidade somada às necessidades autoafirmativas do meu próprio ego me impulsionaram a seguir um modelo – modus operandi – de me relacionar. E fiquem certos disso: todos nós formamos modelos comportamentais.

Tal modelo teve validade por longos 14 anos, quando me deparo hoje – com 37 – consciente do padrão estabelecido e querendo modificar. E não é que todos nós entedemos nossos padrões (trazendo para a consciência) e vamos querer modificar. A bem da verdade é que a maioria de nós vive padrões em todos os aspectos da vida, pois há segurança nisso tudo.

Comentei a minha mãe que, por esses longos anos, sempre trilhei por um mesmo caminho no “modelo de relacionamento afetivo”. Mas muitas das minhas inseguranças que também me “empurravam” para tal modelo, justamente para encontrar segurança, foi perdendo a força com o passar dos anos. Olho para trás e me pergunto: “quando fui realmente galanteado?”, “quando alguém realmente investiu suas fichas em mim?”. Mas lembro de todas as vezes que galanteei, que investi meu tempo e meu carisma para conquistar pessoas.

Um de meus ex-namorados realmente se esforçou para me conquistar, num contexto de vida que fazia pouco tempo que eu terminava um “casamento” e queria mais era viver de descompromisso. E entendo apenas hoje que, naquela época, não tenha dado uma atenção devida aos seus gestos. E fico pensando quantas oportunidades perdi por não ter dado uma brecha (ou sintonizado) para que interessados se aproximassem com um tom de conquista.

Esse tipo de cegueira foi em certa medida um aliado para sustentar o meu perfil por esses anos. E se vivi tal padrão era porque realmente me assegurava de muitas coisas assim, como era.

Sempre do papel do namorado que daria o apoio para que o companheiro assumisse para os familiares e amigos. Do que se incluiria em tais famílias como “exemplo de conduta”, como “o cara” que faria pais e irmãos mudarem fortemente os valores que tinham sobre o homossexual, do companheiro fiel, solítico as demandas de meus namorados. Dos atributos físicos, psicológicos e financeiros que trariam a segurança para que os parceiros pudessem se confortar.

11 anos de relacionamentos somados cumprindo essas “funções”, queridos leitores. E tal modelo veio para a consciência e desgastou.

Assim, vivo hoje uma questão que bate em minha cabeça com frequência: qual caminho seguir a partir de agora, quando esse modus operandi não me estimula mais, não me contenta?

Uma árvore que cresce durante esse tempo cria raízes profundas. Mas para o caso, sei que não tenho que ceifar tal árvore porque simplesmente faz parte da minha história. A dúvida é: a partir de agora para amanhã, como fazer? Ou melhor: como ser?

Para um ariano como eu, que gosta de resolver as questões de maneira prática, esse estado de “não saber o que fazer” é um tanto angustiante. Queria logo enxergar o novo caminho e sair andando.

O meu bom senso, a terapia, a experiência e minha própria mãe respondem a mesma coisa: “não tenha pressa. Deixe acontecer porque naturalmente os novos caminhos vão se revelando”. Acredito bastante em tudo isso, embora precise escrever esse texto para compartilhar (e organizar) as minhas ideias.

A sensação é exatamente essa: enxergo plenamente, em cada detalhe, cada passo, cada curva e nuances do caminho que sempre segui, meu modelo padrão de relacionamento. Só que pulei para fora dessa estrada e lido com um horizonte sem fim, lindo, resplandecente como as terras de Minas Gerais (rs), mas sem caminho marcado.

Curiosamente e para quem acredita em astrologia (ou pelo menos entende alguma coisa que vá além da fragmentada folhinha de horóscopo), o signo de virgem que se manifestou em três ex-namorados e num punhado de ficantes nesse percurso de 14 anos, desapareceram da minha frente. O elemento “terra” que compõem tal signo está dando espaço para “ar” e “fogo”, como librianos, geminianos, sagitarianos e os próprios arianos tortos como eu (rs).

E essa tal vida é realmente uma história sem fim. Quando a gente acha que tem a certeza de tudo, a gente descobre que muito provavelmente vai passar por ela com muitas-poucas certezas.

Eis uma música que traduz bem minhas sensações do “aqui e a agora”, de uma capricorniana arretada, velhaca e que deixa um legado fodido com suas sonoridades:

 

4 comentários Adicione o seu

  1. Gabriel disse:

    Quem diria….

    Quem diria que, aos 37 anos, (e até aos 65, como é o caso da rita lee) as pessoas continuam convivendo com crises, dúvidas e as vezes até dependências. Quem diria que a vida dura até os 90 anos, e não é formada por estabilidade, tranqüilidade e monotonia a partir dos 30. Quem diria que sair da casa dos pais e ter um carro zero na garagem, relacionamentos e sexo na hora desejada e um trabalho e renda próprios (generosa ou n) não são o fim de todos os problemas, de todas as tribulações e desafios que fazem a vida valer.

    MVG, gostaria de agradecer a você por ter postado isso. Nesse instante, você se humanizou. Sempre imaginei em nossas conversas um processo unilateral, em que eu, o príncipe mimado, imaturo e infeliz lanço inseguranças eternas, que você resolve e conforta meu espírito em um passe de mágica. Afinal, você é O MVG, o símbolo do sucesso entre gays e heteros, que fundou uma empresa, namorou e transou com quem quis, conseguiu consertar a vida familiar e é rodeado de amigos. Tenho certeza que esta imagem de perfeição e’ compartilhada por vários leitores do blog, adolescentes como eu até adultos de 50. Você se tornou quase que como uma bússola, um Messias Salvador rs

    Até esse post. Agora, você se humanizou, desceu do trono de ídolo para se tornar meu amigo. Agora sei que você já foi jovem, que já passou pelo que passo agora, e mesmo tendo superado tudo, novos desafios surgiram. Uma vida sem dúvidas ou desafios não vale a pena: logo vem a depressão, pois não há mais pelo que lutar. E é por isso que, recentemente, resolvi encarar as batalhas mais e fugir delas menos. Assim como você fez para se tornar alguém na vida. Agora sei que esses desafios nunca vão parar de surgir, pra não dizer que não pioram quando a velhice se aproxima. Mas ainda sou jovem, tenho tudo pela frente e forças pra lutar por uma vida melhor, e não apenas para mim mesmo.

    Ah, e obrigado por ter falado de astrologia. Eu, capricorniano com ascendente em cancer, tenho mt a agradecer, e talvez até pedir conselhos por namorar um geminiano. Tenho dificuldades para lidar com esse signo, pois meu pai e meu irmão são dele, mas até agora tudo está dando certo ;-)

    Obrigado é até a próxima,

    Gabriel

    1. minhavidagay disse:

      Oi Gabriel!

      Muito legal seus comentários. E na realidade eu venho me humanizando faz um tempo, principalmente quando expressei por aqui um lado “politicamente incorreto” que, também, me tira desse altar imaginário.

      Como já lancei em posts anteriores, o processo de autoconhecimento é eterno, quiçá até a morte ou depois dela (quem vai saber?). Narrei aqui, talvez de uma maneira mais identificável, o meu atual processo. Carrego uma natureza positiva e “guerreira” e minha personalidade que, na maioria do tempo, faz sempre as coisas darem certo. Mas também tenho minhas questões, questões essas que expressei em partes nesse post.

      Também choro no chuveiro quando bate a necessidade. Me sinto triste deitado na cama, me comovo ouvindo alguma música. Mas como tal “guerreiro” na personalidade, tento sempre me equilibrar.

      É isso, amiguinho!

      Bjo,
      MVG

  2. lebeadle disse:

    Li esse post por causa da música da Rita Lee – minhas músicas dela atualmente são ‘Ovelha Negra’ e ‘Menino Bonito’. Se a música aponta pra algo te digo, como parte de minhas considerações geminianas (com ascendente em touro, lembra um amigo) vá ver o musical Rita Lee Mora ao Lado, quem sabe não rola alguma coisa entre o seu ser cantante e a Rainha do Rock?

  3. Wellington disse:

    Rita Lee <3
    Dizem q td gay tem sua diva acho q a Rita Lee é a minha. Kkkkkk
    Essa sua fase de auto analise esta incrível, e apesar de nunca ter entrado em um relacionamento amoroso também começo a me questionar sobre minha relação com familiares e amigos e apesar de ser um pouco cético com essa questão de signos acho q minha ascendência em Áries me deixou um pouco parecido com vc(to me achando)
    E boa sorte na nova fase de relacionamentos

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