Minha Vida Gay – Qual o sabor da traição?


Vou retomar novamente o assunto sobre a traição – ato tão frequente entre as pessoas, gays ou heterossexuais – e já deixo claro aqui: isso não é uma direta para nenhum dos leitores, pelamordedeus! rs

Tampouco é um excercício de moralismo. De qualquer forma, tal ato é uma grande questão a mim. Voltar pra rua e ver que as pessoas estão envoltas disso me deixa reflexivo (rs).

A grande maioria de vocês, exceto aqueles que já me conheceram pessoalmente, sabem que eu não gosto de doce. Bolo, torta, bomba, brigadeiro. As vezes, muito menos agora que estou seguindo a risca uma dieta com uma nutricionista, tomo um sorvete ou como um chocolate (amargo). E só. Costumo até brincar que sou tão “doce” que comer um seria overdose – rs.

Fico imaginando o desejo que a grande maioria das pessoas tem ao se deparar com o mostruário de uma padaria. Tantas vezes vi amigos em desejos profundos por um doce. A mim, curiosamente, não desperta tentação nenhuma.

Venho entendendo a traição como um desejo. E a mim, assim como doce, não traz sentimento algum. Não salivo, não cobiço.

Conversando com meu sócio, que já traiu algumas vezes suas meninas, fiz tal pergunta que até parece ter um tom ingênuo: “O que leva uma pessoa a trair?”. Ele me lançou uma série de conceitos que me fizeram muito sentido:

– Trair é sim um tipo de prazer. De ser mais desejado do que o próprio parceiro(a) fixo(a);

– Do tesão de ser preferido em alguns aspectos, aspectos que suprem a baixa autoestima ou a carência;

– Daquele eterno pensamento: “a outra parte vai trair mais cedo ou mais tarde. Assim, prefiro trair antes para não me sentir por baixo”.

Os raciocínios fazem bastante sentido a mim. Mas confesso que soam como lógicas bizarras. Tão bizarras quanto ao ato de darmos uma freadinha para ver a cena de atropelamento na pista ao lado.

Fazendo um apanhado de minhas lembranças, dos momentos que estive em meus namoros, o desejo de ficar ou transar com outra pessoa que despertasse a minha libido ou fantasias se manifestaram certamente. Lembro de algumas vezes, quando veio esse desejo. Mas entre o fantasiar e o praticar deve existir um fosso do tamanho de nossas fraquezas ou forças. Entre fantasiar e praticar existe outra coisa boa e isenta: punheta.

Cito “fraquezas” e “forças” porque o desejo de traição – advindo de fantasias – nunca foi suficientemente grande, forte ou incontrolável a ponto d’eu “descuidar” e realizar.

Dizem que é coisa de caráter. Mas a mim tem mais cheiro mesmo de fraqueza.

Outro ponto que meu sócio comentou foi até interessante: “Você nunca traiu, MVG? Então parabéns e continue assim. Não entre nessa porque depois que você experimentar, já era. Já se corrompeu, vai começar a achar a traição algo natural e a chance de trair mais de uma vez é grande”.

As vezes, esse troço que é trair, parece até um feito de masculinidade ou potência (seja para um homem gay ou para um heterossexual). De inclusão social. É como se nos tornássemos “mais homens” vivendo esse ritual.

Não parece ter um tom de tirar vantagem?

Juro que para mim, eu comigo mesmo, da minha essência, de meus valores, essa coisa de botar chifre no outro é muito, mas muito esquisito. Mas reforço: não deixo de ter amizade e convívio com quem faça. Basta ver meu sócio.

Por exemplo: o último ano de meu namoro já estava desgastado. Entre pensar em trair, pensei mais em abrir a relação de maneira consensual. Não rolou. Mas não trai.

Daí que tanto eu como ele (meu ex) resolvemos terminar e tocamos nossa vida separados. Como solteiro, fiz algumas putarias como vocês puderam ler por aqui. Tenho feito. Mas, solteiro, fico com aquela extrema sensação de isenção, que deixa os sentimentos possíveis de culpa, remorso ou arrependimento abaixo de zero. Zero negativo eu diria. Solteiro, na minha cabeça, não tem impendimento algum para aprontar lá e cá. Tem coisa mais honesta e gostosa do que putiar na solteirice quando se tem vontade e de ficar tranquilo na mesma medida? Sem rabo preso? Sem aflições, intrigas ou inseguranças?

Nesse mundo tão acessível de pessoas permissivas – e particularmente no microcosmo que é o meio gay – onde transar e ficar não são os atos mais difíceis de se alcançar, por que afinal trair, Jesus Cristo?!

Quem convive com as coisas de espiritualidade sabe que traição é foda. Foda grande. Nunca precisei prestar essa conta.

Tenho 37 anos e posso dizer com certo orgulho que nunca trai nenhum de meus ex-namorados. Mas também não gosto de doce. Doce, maçã, vai saber…

6 comentários Adicione o seu

  1. Gabriel disse:

    Que post MVG!

    No final de semana passado, praticamente vivenciei o que você descreveu aqui. Fui a uma festa da faculdade na casa de um colega rico, com muitas bebidas e música tão alta que me perguntei como eles agüentavam ouvir.

    Cheguei antes de todos, inclusive os anfitriões. Foi um saco, mas assim que avistei os donos da festa, me esqueci completamente da irresponsabilidade deles. Eram dois garotos altos, fortes, bonitos e atléticos, que nada deixavam a dever ao meu namorado, que apesar de ser baixinho é’ também moreno, troncudo e musculoso (aliás estou malhando bem mais do que antes por causa dele). Podemos até certo ponto controlar nossos sentimentos, mas não nossas atrações corporais. Resultado: em poucos minutos já estava sentindo desejo por aqueles dois, de cair na piscina com eles e fazer de tudo um pouco. Confessei isso virtualmente para um ex-professor do colégio, e ele me disse pra ir em frente e n reprimir meus desejos em nome de um relacionamento ainda não consolidado. (sim, isso é’ um conselho de professor aluno) Mas não o fiz, porque sabia ser um suicídio, pois eles eram todos heteros. De certa forma, a festa foi crescendo, novos garotos chegaram, um mais belo que o outro e meu amante a quilômetros de distância. Tiraram a camisa e caíram na piscina, e eu bebi e cai também. Felizmente, consegui reunir auto controle para conversar com eles sem me envolver ou dar “piscadinhas”, e no final da festa, não comi doce nenhum, o que já estou tentando evitar na vida real rs.

    Enfim, não tenho independência financeira e n moro junto dele, então não podemos ficar e transar a qualquer dia. Por isso, fica aquele vazio que fomenta a traição, pois quanto mais vezes se faz algo bom, mas vezes se quer fazê-lo. E no fundo, esses meus impulsos são, mais do que nunca, vontades externas da minha auto afirmação.

    Você deve ter notado, meu amigo, que não há um só comentário recente meu que não mencione meu namoro. Isso acontece porque é’ o primeiro, uma novidade, e a prova de que conquistei algo. Outros homens podem desejá-lo, mas eu estarei ao lado dele dizendo “ele é meu”, e ponto final. Se ele me traísse, me sentiria atrasado. Mas como agora confio mais na minha capacidade de provocar o desejo, quero provocar mais e mais, e basta não haver uma válvula de escape (sexo com ele), que já fico louco pra despertar o desejo de outro. Não quero ter um único parceiro sexual a vida toda, mas reconheço o peso moral da traição e o quanto ela destrói relacionamentos, dos 19 anos aos 37. Graças a deus existe o “milagre dos 5 contra 1”, para minha salvar e aplacar minha vontade rs. Por mais que ser solteiro e’ ótimo pra piranhagem, não trocaria o afeto e a vida sexual que tenho agora pela incerteza de arranjar ou n um parceiro. Este e’ um doce muito mais amargo, que não estou disposto a comer

    1. minhavidagay disse:

      Oi Gabriel!

      Espero que continue assim. Sabemos muito bem que a incidência à traição, no contexto brasileiro pelo menos (o que me faz pensar se é uma fraqueza humana ou cultural) é bastante alta!

      Existe um outro ponto que deixei de falar no texto: seja eu com 19 ou com 37, com 40 ou 60, existe algo na minha personalidade que é uma natureza de buscar certa diferenciação. Nem que seja invisível (moral), porque a gente não costuma sair a quatro ventos dizendo se já chiframos ou se já tomamos chifres, se essa moral reside dentro da gente ou não.

      Me sinto bem feliz de ter carregado essa “cabacice da traição”. Pretendo continuar cabaço nesse sentido rs.

      Mas acredite, amigo Gabriel: agora que você está descobrindo o “mundo lá fora” vai ter uma penca de gente te induzindo a esse comportamento, inclusive um professor. Essa permissividade de “não reprima seus desejos” é muito gay. Muito gay, daquele discurso de que a gente passa “a vida toda” reprimindo vontades para “ficar com frescuras”.

      Eu não acho que funciona assim. Mas a maioria (massa) acha. Veja em quais correntezas você vai querer ir contra e em quais você vai entrar a favor. Tudo pode, a bem da verdade, hoje em dia. Mas o sentido de limites, que você está aprendendo a desenvolver é algo muito particular.

      Bjo,
      MVG

  2. Signalman disse:

    Olá, como vai?

    Então… Eu realmente não faço ideia de como cheguei neste blog(mentira, eu devo ter pesquisado alguma coisa sobre asiáticos e gays), mas até que gostei do que li. Não posso falar muito sobre traição pois nunca tive um relacionamento(sou o famoso “BV”), mas a maneira que você descreveu este “processo” me despertou a curiosidade.

    Porém, neste comentário quero comentar sobre o seu blog mesmo, é uma página bem atraente, durante a semana irei dar uma aprofundada nos posts. Falando neles, você tem alguma sugestão de post para visitar?

    Desculpe por estar sendo tão breve, eu sou um pouco tímido(até mesmo na internet), principalmente quando trata-se de relacionamentos. Agradeço de qualquer maneira, tenha um bom final de semana :)

    1. minhavidagay disse:

      Obrigado Signalman!
      Seja benvindo ao MVG :)

      Abs!

  3. Migrannte disse:

    Boa tarde!

    Não me considero sectário ou moralista, mas devo dizer que meu ponto de vista sobre a traição (ou sobre a infidelidade em geral) é radical. Me parece um erro, uma forma última de desrespeito. Isso porque existe outra pessoa envolvida (o ser amado) que não tem ciência do que está acontecendo com seu parceiro/companheiro. Por isso, exercitar a alteridade e se colocar no lugar do Outro para mim é a chave para uma visão holística da situação.
    Se fosse eu a pessoa traída, enganada por aquele que amo, me sentiria bem? Acredito que no momento em que duas pessoas decidem tacitamente manter uma relação fechada (monogâmica), esse voto deve ser mantido já que é consensual. Caso não seja possível, por que não revelar a verdade? Talvez re-pensar a relação, tomar novos rumos, seja mais sincero, justo, e verdadeiro. A traição está colocada à mentira, à omissão, à dissimulação, então seriam esses o sentimentos que quero cultivar com aquele(a) que amo?
    Posso até parecer ingênuo ou retrógrado, mas aceito a pecha quando se trata de cuidar de si e daquele que amo. Prefiro ser claro para não ferir ou ser ferido, e até mesmo sentir o sabor amargo de uma separação do que carregar o julgo da culpa.Se não trair é utopia (no sentido grego de u-topos, aquilo que ainda não se encontra em nenhum lugar), escolho viver a utopia e fazê-la minha canção e meu caminhar.

    Abraços afetuosos,
    Migrannte.

  4. Wellington disse:

    Primeiramente, q estranho não gostar de doce
    Acho q é a primeira vez q ouço isso, entretanto infelizmente já ouvi milhares de casos de pessoas q traíram seus parceiros.
    Tenho um amigo q faz disso quase um hábito, acho q ele arranja primeiro a amante pra depois arranjar a namorada.
    Não consigo compreender a lógica da traição. Afinal ninguém foi forçado a ingressar no relacionamento, se não há mais interesse ou se o interesse por outra pessoa é maior, tenha a mínima decência de terminar o namoro.
    Acho q traição é um ato de desrespeito com o parceiro. Não aceitaria uma traição, talvez não por conta dela propriamente dita, mas pela quebra de confiança provocada.
    Talvez seja fácil pra eu dizer tudo isso já que nunca estive em um relacionamento, mas pretendo manter esse valor comigo até o final da minha vida.

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