Afetividade VS. Tesão. São coisas diferentes.


Afetividade e tesão são dois sentimentos normalmente bem distintos para o homem gay ou heterossexual. Transamos sem muitas dificuldades independentemente de se cultivar afeto e nos afeiçoamos por um par sem necessariamente priorizar o sexo. Creio que esses valores sejam claros para a grande maioria dos leitores.

Muitos gays iniciam suas “carreiras” como homossexuais obtendo uma primeira transa sem ter uma afetividade desenvolvida pelo par. Costumamos ter uma necessidade quase visceral de nos desvendar, nos compreender e sentir se o sexo com outro homem realmente é envolvente, forte e prazeroso como idealizamos. E normalmente é. Nos sentimos agradecidos pelo desconhecido ajudar a desvendar nossos desejos, mas nem sempre desenvolvemos a afetividade.

Como essas características masculinas impactam o convívio social entre os gays?

Seria ideal que o gay que estivesse a procura de um relacionamento com envolvimento afetivo encontrasse um outro com os mesmos interesses. E, ao mesmo tempo, ideal também que o gay interessado apenas em sexo encontrasse opções no “mercado” de pessoas apenas com tesão. Não seria bom se existisse um tipo de pulseira indicando essas duas possibilidades?

Posso dizer que a maturidade é a tal pulseira. Mas enquanto amadurecemos, raramente temos clareza dos reais interesses dos outros. As vezes, mal reconhecemos nossos próprios interesses. E não existe pulseira!

Assim, nesse fluxo constante dos jogos de sedução entre as pessoas, das carências particulares e de uma sociedade um pouco confusa – cujos indivíduos nem sempre sabem bem o que querem de maneira consciente – muitas vezes, pessoas usam pessoas numa troca desleal. Desleal no sentido literal da palavra: da falta de lealdade e da emancipação que esse sentimento nos confere.

Posso afirmar que, quando era mais jovem e durante as minhas fases de solteirice, cheguei a acumular algumas “marmitas”. Não tinha consciência naquela época e, sem querer, um dos rapazes tinha um interesse forte em desenvolver uma relação afetiva. Eu estava em outra sintonia, numa necessidade autoafirmativa e infantil de poder ter opções para quando justamente batesse a carência, o fosso do sentimento de solidão e etc.

Esse rapaz, quando se deu conta que a minha pegada era a putaria, se indignou e lançou algumas verdades em um de nossos últimos encontros. Foi um tipo de gelo e mesmo assim levei algum tempo para entender que sua insatisfação era por não estar entrando numa história mais séria com ele. Na minha cabeça, namorar era uma palavra fora do meu dicionário naquele momento e não tive a sensibilidade de perceber seus reais interesses. Por um lado eu persuadi e investi em meus desejos. Por outro, ele topou os encontros embora não estivesse nem claro pra mim nem pra ele o que um representava ao outro, até o dia do gelo.

A vida acabou me dando alguns trocos e a sensação de me sentir descartável, um produto ou um objeto por uma pessoa que desenvolvi afetividade se manifestou uma única (e suficiente) vez. Mas quero reforçar que essa consciência, d’eu ter “usado” inadivertidamente uma menino que queria algo sério não é uma despertar de todos. A bem da verdade é que, a maioria dos solteiros “usam” pessoas em caráter egóico ou egoísta sem se atentar aos sentimentos do outro.

A lição que aprendi com tudo isso, hoje que estou novamente solteiro, é de ter desenvolvido essa sensibilidade, de notar as tais pulseiras invisíveis. Posso afirmar que tenho negado ficar ou transar com alguns rapazes que pintam em meu caminho nesse momento pelo simples fato de perceber que não poderei oferecer agora o que eles realmente querem: a afetividade para um relacionamento em par.

Por outro lado, seja na sauna ou transando pessoas numa mesma sintonia que a minha, tenho realizado meus desejos suprindo também as vontades imediatas daqueles que tenho me envolvido. Envolvimento passageiro e rápido: o sexo pelo sexo.

Penso o seguinte: o mundo está povoado de bilhões de pessoas. Que diga São Paulo que está cada vez mais abarrotada. Porque eu teria que seduzir, ficar ou transar com rapazes cujos interesses são diferentes de mim? É muito complicado brincar nessa relação de afetividade VERSUS sexo.

Por que teria que catar qualquer um que desse sopa? Apenas para resolver minha baixo autoestima? Minhas carências? Para explodir com meu senso masculino de potência? Para garantir que meu domingo seja mais feliz? Para ter pessoas me procurando, chamando no Whatsapp ou no SMS e sentir que sou cobiçado?

Não. A mim se despertou essa conscência de que não preciso explorar. Uma consciência de que não quero mais, com 37 anos, usar pessoas para tudo isso exposto acima. Conheço até onde vai meu poder de persuasão. Enxergo em que nível está o meu sentido de autosuficiência. Olho para dentro, tenho consciência de mim e, na atual passagem da minha vida, não preciso confundir ninguém para gerar falsas esperanças, pelo exclusivo descontrole para resolver meus “buracos emocionais”.

Mas volto a reforçar: a esmagadora maioria de nós não pensa sobre esses conceitos. Não adquire essa consciência. Quantas são as pessoas que se sentem usadas, num tipo de roleta-russa do outro que está aguardando sempre uma melhor oportunidade? Nos usam como estepe e não se permitem nem virar a página dois de uma história numa esperança ilusória de encontrar alguém “perfeito”. Queremos o outro perfeito, mas não olhamos para nós mesmos com medo de nos reconhecermos falíveis.

As pessoas andam muitos descartáveis. Se permitem ser assim e fazem o mesmo com os outros. Nesses descartes afirmo: é por isso também que namorar sério está ficando cada vez mais difícil. Porque você mesmo, que é descartado agora, já deve ter descartado alguém. Como cartas de baralho. Como peças de um jogo.

Se a fila tem que andar assim, aceite sua própria condição de objeto. Se quer algo sério, adquira essa consciência e segure a onda de suas próprias carências e da falta de autoestima. Para amar o outro, há de se amar primeiro.

5 comentários Adicione o seu

  1. Gabriel disse:

    Em primeiro lugar, eu gostaria de discordar da ultima frase do post. Por décadas, martelaram isso na cabeça de milhões de crianças, especialmente nos Estados Unidos. Ideias como “e’ preciso amar a si mesmo antes dos outros”, “voce precisa acreditar em si mesmo”, e etc, erraram ao se focar no “eu mesmo” constantemente. O resultado foi uma geração de narcisistas, que acreditam que amar a si próprio e’ mais importante que amar os outros. Excessivamente preocupados com imagem e popularidade, exibicionistas nas redes sociais mas capazes de contar nos dedos o numero de amigos em quem podem confiar. Nunca vou negar que ter uma alto estiva elevada faz bem, e que minha própria baixa auto estima atrapalhou e muito a minha vida. Mas critico abertamente as estratégias modernas para “promover” a auto estima das pessoas.

    Enfim, depois desse desabafo, gostaria de me incluir no grupo da “maioria que não sabe o que quer”. Meu namoro, por enquanto bem recente, esta indo de vento em popa, mas como ja falei no ultimo comentário, ja sinto a falta das liberdades e trocas de parceiros que tinha quando solteiro. Ontem a noite, troquei fotos eroticas com um amigo paulista gay que conheci em Paris, em uma competição boba de quem conseguia excitar mais o outro (ele venceu rs). Em nenhum momento me senti como se cometesse uma traição, pois estacamos a um oceano de distancia e, se nos encontrássemos, sei que não rolaria nada, pois não desperto nele o mesmo desejo que ele desperta em mim. Esse meu amigo tem 23 anos, e, naturalmente, muito mais experiência sexual do que eu, e ja transou com vários caras bonitos e diferentes esse ano. Mesmo assim, ainda não ouvi ele dizendo que estava em um relacionamento fixo e afetuoso. Tanto que ja ouvi a frase “faltou alguma coisa” saindo da boca dele algumas vezes. No fundo, não vou negar que tenho a vontade infantil de “competir” com esse amigo, ver quem consegue mais sexo e ser mais sedutor. Coisa que eu não deveria ter mais, afinal ja não sou mais um adolescente e estou namorando agora, e pelo que dizem o primeiro namoro e’ sempre o mais complicado. Sinto que meu namorado genuinamente tem afeto por mim, e a reciproca e’ verdadeira. Apenas tenho desejo por outros peitos, pernas e paus entre os bilhões que existem no mundo, e acredito que ele tambem. Eu não ligo pros outros caras desde que não saiam da punheta, embora eu ache que ele e’ mais ciumento do que eu. Sempre tem alguma parte mais possessiva do que a outra.

    As vezes, penso comigo mesmo que deveria ter permanecido solteiro por um pouco mais de tempo, para curtir mais a galinhagem e “aproveitar” os muitos caras que beijei no carnaval. Marcar encontros com eles e transar em moteis, pois não houve um só que não me despertasse pelo menos um pouco de vontade de levar pra cama. Me senti muito desejado nos primeiros dias de marco de 2014. Mas o desejo era efêmero, a satisfação durava apenas enquanto os beijos rolavam. Agora penso melhor e entendo que estar namorando alguém que conheço e confio, com contato regular, e’ muito melhor pra mim do que aquela solidão perpetua, iluminada ocasionalmente por pontos de prazer as escondidas. Estou muito mais confiante em sair do armário para meus pais agora, e, quem sabe, com uma auto estima maior tambem (não que a academia não ajude rs).

    Beijos (infelizmente não poderei ir para São Paulo em um futuro próximo),

    Gabriel

    1. minhavidagay disse:

      Oi Gabriel!
      Tudo bom?

      Existe uma grande diferença entre amor próprio e narcisismo. O primeiro vai de encontro a estabelecer uma autoconfiança, uma autoestima e um autoconhecimento. O segundo, os narcisistas, raramente assumem uma percepção de que “se acham demais”. O excesso de se acharem “fodas” implica no posto: a falta de confiança, a baixa autoestima e uma negação a uma consciência de si.

      O problema não está no discurso “ame-se a si antes do que os outros”. O problema é como cada um cria o viés para essa ideia.

      Você, com apenas 19 anos, é natural não saber ainda o que quer. Está dando os primeiros passos para desvendar sua sexualidade, o convívio social com outros gays e, enfim, está se formando. Natural passar por dúvidas, desejos e fantasias. Não há nada de errado nisso. Faz parte do processo de seu amadurecimento.

      O complicado é que muitos “homens maduros” que passam dos 30 vivem ainda situações semelhantes a sua, confundindo jovialidade com falta de maturidade. Amadurecer exige mais transpiração e esforço do que qualquer outra coisa. E tem muita gente que quer permanecer em estados “jovens” e vivem meio perdidos por aí, tentando escapar da solidão, da baixa autoestima e da falta de autoconfiança. Vivem projetando num terceiro a esperança de felicidade. Mas, a realidade, é que feliciade vem de dentro para fora. Isso sim, tem a ver com o amor próprio. No mais, são narcisos, egocêntricos e bota terapia ou vivências (para quebrar a cara) para se aprender algo (ou não).

      Para a sua idade, está tudo certo. Continue a desvendar sua vida. E tenha certeza: vai aprender mais com seus tombos do que com seus acertos. ;)

      Abs,
      MVG

  2. Gabriel disse:

    Pois é, MVG. Ainda tenho muito tempo e experiência pela frente, mas mesmo assim, não acho que deveria ser mais aceitável, no meu caso, se eu usar outra pessoa, que quer se relacionar comigo, apenas como objeto sexual. Digo isso porque já aconteceu, e sei que não sou nenhum santo. Em fins do ano passado, conheci um garoto por um aplicativo de relacionamento que morava em uma cidade vizinha ao rio, bonito e que tocava muito bem o violino. Gostei muito de sua personalidade guerreira e trabalhadeira, por pertencer a uma classe social bem mais baixa que a minha e ter que ralar para sobreviver. Em pouco tempo a atração cresceu e as mensagens passaram as ligações, até que ele confessou gostar muito, mas muito mesmo, de mim, e não ver a hora de me encontrar.

    Infelizmente, tudo isso acabou nesse carnaval, quando eu, que havia marcado de me encontrar em pessoa com ele, o ignorei, preferindo sair com amigos, beijar homens desconhecidos e chegar em casa tão exausto que nem me passava pela cabeça ligar pra ele. Mas enquanto eu o via como uma diversão prazerosa, ele já havia se afeiçoado comigo. Quando ele me ligou, triste e pedindo explicações, resolvi não fazer rodeios e contar a verdade: havia transado com um colega da faculdade, e afora estava numa “amizade colorida” (que depois passou pra namoro) com ele. O garoto ficou arrasado, confessou-se ferido, e disse que eu não fazia ideia do quão boa minha vida (da qual eu ainda vivo reclamando) era, e o quanto ele a desejava para si. Perdemos contato desde então, e como ainda foi um momento recente, espero que ele tenha se recuperado, embora duvide muito. Estou namorando e virei a páscoa, mas perdi o afeto dele. Ganhei uma coisa para perder outra, foi o meu primeiro erro causado por não saber namorar. Espero que ele não se repita, e felizmente completaremos um mês juntos em breve.

    Mas como dizem por aí, pra tudo tem um começo. E o começo da minha “vida gay” não foi tão perfeito assim.

  3. Caio disse:

    Bom quando eu estou afim de um cara querendo fazer sexo com ele e ele corresponde, não vejo que isso represente à apenas um usar o outro. Afinal foi algo de comum acordo. Mas concordo com você que em vários casos as pessoas nem sequer param para pensar que a partir dali pode ser que role algo a mais e acabam impedindo que isso se manifeste sem nem mesmo tentar ver se o parceiro também sente o mesmo.
    E no cotidiano, eu bem sei das diferentes direções que os homens tomam. Você pode estar procurando por um bom sexo, para ser bem aproveitado e os caras que você gostou querem um namoro e geralmente até conseguirem achar o que procuram descartam relações casuais criando radicalismos. Isso é um porre. Pois muitas vezes estão perdendo momentos ótimos de prazer por besteira. Afinal nada impede que durante a caminhada pela busca de um amor, que se possa curtir na boa rs.
    Aliás tem uns nos aplicativos da net que escrevem: “quer só sexo, passa para o próximo perfil”, mas seus perfis já estão ativos há mais de 3 anos com a mesma mensagem, será que eles estão aguentando ficar tanto tempo na secura, ou traem sua própria convicção e se aliviam vez ou outra rs?
    É só mais um impasse para nós gays, mais um entre tantos. No meu caso, agora não tenho muito interesse em namoro e está difícil achar quem queira só curtir na boa. Mas e depois, sei lá, dos 30 anos, quando eu quiser uma companhia full time, vai ser difícil também? Oremos que não rs.

  4. Wellington disse:

    Como já comentei em posts anteriores, faço parte do grupo que não sabe qual pulseira está usando (provavelmente as duas).
    Entro então na questão se não consigo ver a minha própria pulseira que dira a pulseira alheia.
    Mas msm qdo a pulseira do desejo exclusivo por sexo esta mais evidente, eu não quero algo do tipo sexo sauna(acho muito frio, sem um mínimo de contato), gosto de um sexo com uma conversa antes e depois, algumas risadas e depois cd um segue seu rumo. Talvez algo parecido com um P.A.
    E ai fica mais difícil ainda achar alguem com interesses semelhantes, pois talvez eu passe a falsa impressão do apenas sexo, talvez passe a falsa impressão do relacionamento sério(q na vdd acho q é isso q eu quero, mas ao msm tempo não sei se estou pronto para abrir mão da liberdade advinda da solteirice), correndo o risco de frustar a todos e a mim msm.
    Acho q no meio gay temos uma vantagem maior de poder expor com clareza as reais intenções(quando estamos cientes delas) em detrimento das relações heterossexuais, onde a mulher não pode dizer q quer apenas sexo sob pena de ser mal vista(a sociedade ainda é muito machista, conforme pesquisas recentes demonstraram), e o homem também não pode sob pena de não ter nenhuma pretendente pq msm aquela que quer só sexo não pode dizer isso.
    Então acho extremamente valida sua colocação para que possamos evitar sofrimento alheio e assim contribuir para o objetivo maior de td mundo que é ser feliz.
    Portanto pessoas q só querem sexo evitem caras que querem relacionamentos sérios, e vice versa para evitar sofrimento alheio ou próprio, respectivamente.
    Acho q o ponto central é basicamente o de ser honesto com o outro.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s