Gays na adolescência: Hoje eu quero voltar sozinho


Antes de mais nada, esse post não é um spoiler do filme! ;)

Voltei do cinema com uma sensação digna de um dia de Páscoa. Longe de seguir as tradições cristãs da não-carne, as boas sensações da data me representam. Assistir “Hoje eu quero voltar sozinho”, filme que carrega um estado pueril, jovem e até mesmo encantador me remeteu aos meus “Anos Incríveis”, vividos no passado e hoje impressos em meu DNA.

A mim, as emoções do filme são verossímeis e legítimas, trazendo memórias e as melhores sensações da minha adolescêcia. Sensações e emoções que nunca ficaram fadadas a um tipo de peso da homossexualidade mesmo nos idos de 1996. A ingenuidade, a falta de contato com os aspectos sexuais da vida (tão acessíveis nos tempos atuais) era a maior e a melhor proteção para aquela geração.

Tive essa pré-adolescência feliz, quando os primeiros sinais de desejos e sentimentalidades se manifestavam. E foi a isso que a produção de Daniel Ribeiro (acho interessante guardar esse nome) me remeteu. Somente a isso e nada mais além disso. O que é grande e intenso o suficiente.

Em meio a uma trilha no mato eu estava com o “Danilo”. Dia chuvoso, poças de lama, blusa e calça de moletom. Ele ia a minha frente se equilibrando em pranchas de madeira da construção ao lado. Até que em algum momento ele escorregou e veio de encontro a mim. Nos abraçamos e sutilmente encostamos nossos rostos. Enquanto recuava lentamente, nossos olhos se fixavam um pelo outro com pequenos sorrisos nos lábios. Seu cheiro (ou o cheiro da situação) é lembrança até hoje. Sentia aquela emoção inédita do carinho e do aconchego, com as pitadas definitivas da ingenuidade e da inconsciência que tornavam aquele momento mágico. Eu tinha 16 ou 17 anos.

A falta de malícia abraçou a minha juventude. Não existia claramente uma sexualidade. Muito menos essa tal da homossexualidade que, depois que nos conscientizamos, é a vilã e a salvadora. Está aí o toque da inocência, do apenas sentir sem noiar sobre o mundo, as variantes e os pilares sociais que, quando nos adultificamos, tendemos a deixar predominar dentro da gente.

Depois que, em outros contextos nessa minha mesma pré-adolescência, o grupelho rival sempre se manifestava. Tínhamos uma turma pequena e boa, entre meninos e meninas. Descobríamos os segredos do vinho “Sangue de Boi” juntos e do cigarro LM, naquela época que dividir um maço de Gudang Garan era o mais exclusivo e divertido. Era o gostinho de cravo na boca.

Como podem notar, a “subversão” já era algo que se manifestava em minha adolescência. Ou não.

Em alguma medida, tais moleques rivais e levados gostavam de nos perturbar. Nas férias de julho, no inverno, tinha sempre a promessa das fogueiras durante a madrugada, com noites estreladas e batatas envoltas no papel alumínio para assar na brasa. As vezes os pais agregavam. Mas na maioria das vezes o “Deus de Fogo” subindo aos céus, em meio aos nossos rituais fantasiosos, se fazia exclusivo. Paixão hipnótica.

Passávamos a tarde entre bikes coletando madeira que era resto das obras. A felicidade era aguardar um dia de Sol de inverno para a garantia da noite estrelada e do frio acolhedor. Noite que sempre nos brindava com – no mínimo – uma estrela cadente.

Escolhíamos um lugar estratégico para tal empreitada. Montávamos de maneira zelosa tal fogueira antes de escurecer e, vez ou outra, o grupelho rival ia com suas outras bikes para desconstruir todo nosso trabalho.

Frustante. Odioso.

Até o dia que resolvemos contra-atacar. Ficamos à espreita, escondidos entre arbustos com sacos de coquinhos que dão em Chapéu de Sol, árvore típica do litoral norte paulista e – quem conhece – sabe que se atirar contra com força faz estrago. Notamos de longe a molecada maldita chegando e não pensamos duas vezes: deixamos a bagunça começar de leve, estávamos em maior quantidade de pessoas e logo os líderes da nossa turma (no caso o “Filipe” e eu – rs) davam o sinal para o ataque em massa.

Foi literalmente e inesquecivelmente lin-do! Era coquinho para todo lado e foi bonito de ver os xingos, “filha da puta”, “vai tomar no cú” ecoando a medida que os inimigos iam se afastando com suas bicicletas.

Está em meu DNA esse jovem, gay, mas que na época dava pouca importância para a própria sexualidade.

“Hoje eu quero voltar sozinho” é uma maneira sensível de contar uma história sobre a afetividade cristalina entre pessoas. Que não quer dizer para sempre, mas sim, para o aqui e o agora de ontem e de hoje.

 

4 comentários Adicione o seu

  1. The Beadle disse:

    Essa sensibilidade, a compreensão da necessidade de ter um ideal, um valor para orientar a vida parece que não é a tônica no mundo gay, onde o que se percebe é um hedonismo extremado, transformando gays em inocentes úteis nas mãos do mercado e impedindo assim sua libertação como pessoas; a pureza dos sentimentos evocados pela sua análise me faz perceber isso. Perde-se a compreensão de que mesmo uma aventura pode ser romântica, “infinita enquanto dure”.

  2. Gabriel disse:

    Infelizmente ainda não consegui assistir ao filme, vou fazer o possível para vê-lo com meu namorado. Mas adorei o post e o que você escreveu sobre a inocência da pre adolescência, e a sexualidade sendo descoberta aos poucos e sem pressa. Receio que, infelizmente, isso não mais exista hoje em dia. Com a informação se sai do armário cada vez mais cedo, o que obviamente n e’ ruim rs. Mas isso também significa que, em lugares conservadores, pre adolescentes de 12 anos sofrem por serem gays antes do tempo, sem mtas vzs já terem uma definição clara da própria sexualidade, quando deveriam estar brincando e vivendo essas aventuras juvenis. Em uma conversa informal com pessoas mais novas durante a páscoa, percebi que nelas não resta um pingo de inocência. Tudo é bravado, exaltação do ego e fofocas sobre a vida amorosa e sexual alheia. Dessa forma da pra entender porque existem tantos amigos virtuais e tão poucos amigos reais.

    Não posso dizer que vivi o mesmo que você viveu. Até os catorze anos não fazia a menor ideia de que era gay, e acreditava piamente ser hetero, pois já me relacionava com uma menina que eu gostava, mas não tinha desejo sexual. Foi uma época feliz e despreocupada, na qual fiz bons amigos que até hoje me acompanham. Mas quando era hora de viver mais intensamente esta fase da vida, fui levado pra outro pais sem permissão, e iniciei uma fase (de 2010 a meados de 2012) que considero um período perdido.

    Língua conhecida mas mesmo assim difícil de entender, cultura diferente, falta de habilidade social. Isso me levou a um período bastante negro da minha vida. Não era chamado pra festas, ficava sozinho em casa nos fins de semana. Ficava com a família o tempo todo, que além de me pressionar e mt para me enturmar, vivia constantemente estressada e infeliz pela mesma mudança. Graças a deus meu pai largou o emprego e voltou para o rio, pois já não sei mais quanto tempo suportaria lá. Foi uma época solitária e triste, na qual não tive aventuras como a sua.

    E foi nesse mesmo período que descobri minha sexualidade. As olhadas, os desejos , logo acompanhadas por sites de internet que me explicavam pelo que eu passava. Afinal minha geração nada desvenda sozinha, apenas recorre a internet e já recebe as respostas prontas. Logo, não houve uma descoberta sutil, mas uma conscientização abrupta, que, de certa forma, contribuiu para me isolar mais. Felizmente, haviam associações GLS na escola, mas as procurei já bastante tarde. Só comecei a realmente viver a adolescência gay depois de voltar para o Brasil.

    Não adianta chorar sobre o leite derramado. O tempo passou e o Gabriel que lá vivia não é’ o mesmo Gabriel de hoje. As vezes comparo minha adolescência com as dos outros e lamento não ter vivido experiências como beijos, festas e namoros mais cedo. Mas os melhores anos da vida, por mais incrível que pareça, são aqueles que estão sendo vividos no presente. Minha vida não daria um filme como hoje eu quero voltar sozinho, mas quem sabe, se todo meu período dos últimos anos fosse retratado, seria interessante o suficiente para também levar prêmios e elogios das críticas.

  3. Sem Bolso disse:

    Bacana, vou ver se acho o filme para assistir na internet.
    Dan
    http://www.sembolso.wordpress.com

  4. Wellington disse:

    Sdds da inocência tão tipica do período pré adolescente.
    Posso dizer com orgulho q tive uma ótima pré adolescência, talvez minha adolescência não tenha sido tão tipica já que fazia mais o papel do assexuado enquanto todos desbravavam a sexualidade, mas ainda assim foi incrível
    Ainda não vi o filme, espero q não tenha saído de cartaz

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