Minha Vida Gay – Antes dos 23 anos

Assumir a própria homossexualidade ou ter um primeiro namorado costumam ser um divisor de águas na vida de um gay. Fatos que acontecem em períodos diferentes da vida de cada um. Os jovens hoje, por exemplo, estão aceitando sua sexualidade com muito mais naturalidade. Assim, adolescentes e pré-adolescentes entendem seus desejos com muito menos bloqueios e partem para suas primeiras experiências afetivas e sexuais com 15, 16 ou 17 anos. Tudo flui mais em “tempos certos” da vida, quando as necessidades, curiosidades e vontades batem.

Os jovens de ontem (e me incluo nesse pacote) passaram ou ainda passam por processos de aceitação, cobranças e paradigmas pois os contextos de vida realmente nos fazem diferentes. Em tempos mais antigos, uma ou duas décadas atrás, sexualidade e aceitação tinham um teor mais alto de rigor. Quem é jovem hoje, envolto das mídias (principalmente a Internet), não faz ideia da realidade de tempo e espaço do que era ser um jovem gay nas décadas de 70 e 80.

Mas assim caminha a humanidade. E funciona assim no geral, tirando aquela camada de exceções que deixa o universo das vivências humanas tão plural. Tiro também desse bolo os atuais g0ys, HxH, e derivados. Tiro, por além de serem minoria, não sei se é assunto que realmente cabe a nós, gays, ficarmos julgando ou massacrando. Se somos realmente resolvidos como gays, o diferente não tem que virar alvo de repúdio.

Vamos nos ater ao homossexual, gay, que pode ser gouine, versátil, ativo ou passivo.

Falamos muito da vida gay, aqui pelo Blog, depois do armário. Mas como é a vida para a maioria dos gays antes da assunção?

Alguns são os famosos “nerds” (ou geeks hoje, que é mais moderno), estudiosos. Outros são já saidinhos e extrovertidos. Alguns se reprimem tanto que são travados, com aquela postura cifótica (peito para dentro, costas arqueadas) típica e influente nas questões da autoestima. Femininos, masculinos e o vídeo que lancei no post anterior pincela um pouco de cada um, sem ter que necessariamente enquadrar o gay num perfil, antes ou depois do armário.

Fisicamente e a maneira que nos apresentamos para o mundo é bem diferente. Não há um padrão fechado, isolado, enquadrado. Mas por quais cantos andam nossos interesses da vida, antes de entendermos que a homossexualidade nos é tão influente?

Posso dizer por mim:

A minha adolescência foi excelente por um lado, mas reclusa por outro, principalmente na época da faculdade, quando os hormônios e os desejos estavam a um milhão. Para lidar com o “estigma” da homossexualidade, a gente simula. Alguns se fecham numa religião, outros nos estudos. Alguns definem um perfil físico pouco atraente, gordo, magrelo, de jeito “esquisito” ou “pegador heterossexual”. Cada um vai se “camuflando” para tentar se desviar do “problema”: ser gay.

A minha reclusão foi nas artes em geral. Aluno de comunicação da ESPM, optava por tocar muito piano. Treinava e treinava sozinho e com a banda.

Naquela época existia videolocadora de bairro que não somente era possível alugar filme original como pirata. O filme vinha no formato VHS e uma das minhas diversões era ir até a locadora, alugar uns seis filmes para poder devorar num sábado, madrugada a dentro. O Steven Spielberg que é um cara cult e idolatrado, naquela época não era tudo isso, mas já era a promessa que dividiria o status com Bernardo Bertolucci, Martin Scorcese, Stanley Kubrick, Francis Ford Coppola e assim por diante.

Passava também horas na frente do gravador de fita K-7, fazendo minhas dezenas de coletâneas de CD’s que comprava compulsivamente. Cheguei a ter 500 CD’s catalogados e organizados por gênero. Buscava ouvir de tudo que considerava bom. De Tom Jobim e Frank Sinatra à Janis Joplin e Hendrix. De Abba a Zappa.

Sobre videogames, pulei apenas a geração do Playstation One e do Nintendo 64 (época que ficou mais divertido tomar cachaça, fumar maconha e filosofar sobre a vida e o mundo com os amigos da faculdade). Os demais acompanhei/acompanho todos.

Se tenho alguma coisa boa de português e inglês não foi nos livros que aprendi. Foi vendo filmes e ouvindo música. Se sei alguma coisa de humanidade, se tenho uma sensibilidade desenvolvida, foi buscando essas referências primordiais no “caldo” dos diretores que considerava grandes e dos filmes que considerava memoráveis.

O “Poderoso Chefão”, por exemplo, devo ter assistido umas dez vezes cada um dos episódios. Brando, De Niro, Pacino. “Laranja Mecânica”, “2001” e “O Iluminado”, coisas do Kubrick, mais umas dezenas. E claro que tinha minha vertente trash, do tipo “A Hora do Pesadelo”, “A Mosca” e o incrível “Poltergeist” do iniciante Spielberg.

Passava também horas desenhando. Um bloco de Chamex acabava em 15 dias. Criava meus mundos e personagens imaginários inspirados no traço do Toriyama Akira, para quem sabe, desenhista incrível da saga Dragon Ball.

Naquele tempo a solidão era uma companhia agradável, embora o sentimento potencializado de querer alguém para um namoro, formar um par e descobrir a realidade gay fora do meu quarto era um tipo de esperança. E como a palavra já diz, “esperança”, aguardei, numa espera. Esperei bastante tudo aquilo da minha homossexualidade tomar forma. Tomar forma e ficar altamente desejada. Consciente. Querida.

Por outro lado, no mesmo contexto, como “bom japonês” era fã de tênis de mesa. O famoso “ping-pong”. Meu lado ariano, de precisar exercitar o corpo, me levava a tais práticas. Ganhei alguns campeonatos de tênis, algo que praticava bastante também com meu pai. Quando ele perdia, de um moleque de 17 anos (e na maioria das vezes perdia) ficava irado! (rs) Naquela época, tênis não tinha o status todo que se configura hoje, ou pelo menos eu não enxergava de tal maneira.

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Tempo.

O tempo, a mim, é digno de hierarquia divina. Antes de Jesus tomar o controle da história, existia o Deus Chronos e uma porrada de irmãos. Esse cara me fez chegar aos 37 anos. Os hormônios não são mais intensos como antigamente e nem por isso me sinto envelhecido. Só não acho mais incrível e entusiasmante ter que dar 5 bimbadas na mesma noite (rs).

Até meus 23 anos meu maior parceiro era a solidão, como narra essa historinha de hoje. Depois vivi 14 anos de uma vida gay cheia das intensidades e muitos namoros. Abominava qualquer possibilidade de estar só novamente. E agora, com 37, tenho olhado pelo vão da fechadura daquele quarto, onde ficaram guardadas essas memórias.

Aquele sonho da minha juventude de ter todos os videogames de uma mesma geração se resolve quando a gente trabalha, se é adulto e sabe destinar as verbas para tais investimentos.

Os 500 CD’s se digitalizaram. São eles e mais 8000 músicas armazenadas no meu iCloud, a nuvem da Apple.

O piano, que na verdade era um teclado da Yamaha (da linha PSR) foi-se faz tempo de tanto que martelei. Hoje tenho um verdadeiro piano digital, com aquele timbre e peso da tecla que eu gosto de ouvir e sentir, respectivamente. Para quem entende desses assuntos, é um Korg.

E os filmes. Ah, os filmes: se não tem no Netflix, tem no YouTube. Se não tem no YouTube tenho em Bluray. E, quando dá na telha, revejo um pouco mais do Brando, De Niro e Pacino, em suas vestes de mafiosos, para entender um pouco mais da sociedade, das relações, do poder e da humanidade. Mas hoje tem também Bublebee, Avatar e a promessa do Star Wars pela Disney. Cult hoje é o J. J. Abrams.

Continuo firme com exercícios físicos. Se for somar os anos, são 10 que faço academia. Pensei em “tirar as chuteiras” do armário para voltar a jogar tênis de novo. Quem sabe.

E a solidão daquela época? Não incomoda?

E a solidão, meus queridos leitores, volta a ser benvinda nesse contexto de tempo e espaço. Sei que tenho amigos aqui, outros acolá. Tem meus pais perto de casa e um irmão solícito para quando quiser curtir o Rio de Janeiro. A ideia de que “felicidade só faz sentido quando é compatilhada” é quase inquebrável.

Mas o mais importante, hoje, é resgatar parte de mim, olhando por tal fechadura e poder dizer assim: “Estava com saudades”.

 

 

2 comentários Adicione o seu

  1. lebeadle disse:

    Também tive uma adolescência assim, muito voltada para a solidão e reflexão, acreditando em uma missão religiosa para minha vida; quantos séculos até perceber que aqueles sentimentos eram algo que permaneceria e que eu me sentia atraído por homens! Se por um lado ainda não me assumi publica e notoriamente, por outro creio que todos esses anos de espera e análise me deram uma possibilidade de resiliência que de alguma forma me dão segurança pra seguir. Concordo que os jovens de hoje são mais desencanados; vivendo no interior da Paraíba naqueles anos 80 e 90 quando o gay era aquele ser estereotipado e só, não havia mais referência que isso. Ser gay era ser marginal, maldito pra sempre. Hoje se vê por toda parte referências, discussões. Agora, com quase 33, é que começo a ter contato com gays que são acima de tudo pessoas legais, bons cidadãos. Sem dúvida hoje se vive no Ocidente pelo menos a melhor época pra ser homossexual, as informações circularam e a demonização, patologização da vida gay já é algo racionalmente superado. Aqueles caras que se descobriram gays no passado podem ser comparados aos mártires do cristianismo primitivo, são heróis. Imagine se o sujeito que sentia um impulso homossexual nos anos 80 e 90 tinha alguma fonte de informação, uma época em que ainda era considerada doença, uma época em que os analistas queriam curar o “desvio”.

  2. Jorge disse:

    Ah, o que posso falar? a minha vida é assim, a maior parte do tempo estou no meu quarto, isso por que tenho 17 e não tenho coragem de me assumir pra minha família, é claro que hoje o jovem tem mais liberdade, e é muito mais fácil ser gay nos dias de hoje, por que a aceitação é maior, porém tem gente que ainda acha que ser gay é doença, como a enrustida do Marcos Feliciano. Mas mesmo tendo condições melhores, eu prefiro esperar, ter um pouco de independência financeira, por que eu não sei como minha família vai encarar, e sempre fico pensando no que as pessoas que eu conheço vão pensar, tenho um pouco de medo da reação deles. Acho que sou uma exceção, claro que deve ter muitas pessoas como eu por ai, mas hoje em dia, vejo tanto gay assumido na rua, e a maioria adolescente, minha idade ou as vezes menor que eu, que as vezes parece que são poucos os enrustidos. Não me prendi a nenhuma religião, até por que sou ateu, não consigo ter interesse nesse assunto, mas a maior parte do tempo estou vendo filmes de terror, ou vendo The Voice ou outros programas do gênero e escutando músicas R&B, minha paixão. De fato, viver em condições como essas provoca uma grande solidão, sempre quis conhecer alguém legal pra namorar, mas não sou lá um galã da vida. Hoje em dia, temos muito mais informações do que antes, mas mesmo tendo todos esses benefícios, acho que prefiro esperar mais um pouco, e criar coragem pra sair do armário =S

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