Arthur – Transexual e gay

As vezes, alguns colegas ou amigos heterossexuais são mais “ativistas” do que eu mesmo (rs). Deu na minha timeline hoje a reportagem do Arthur, menino de 13 anos que mora em Ribeirão Preto. Nasceu menina, mas desde a infância sempre teve a identificação de gênero com outros meninos.

Para tornar o assunto mais interessante, além de transexual ele é gay, ou seja, namora um outro menino.

Arthur - 13 anos, transexual e gay
Arthur – 13 anos, transexual e gay

O raciocínio comum do “pragmatismo cultural” traduziria assim: “bom, a menina prefere ser menino. Vai se envolver com menina”. Até aí tudo bem hoje em dia, dá para entender seguindo uma lógica. Mas além disso, mesmo como menino, ele tem um relacionamento com outro menino, ou seja, é gay.

Assim como a tribo aborígene na Austrália que citei por aqui, cujos pais elegem o sexo do filho antes de nascer, ou as mulheres da Albânia que definem por ser homens para uma representação social, o caso do menino Arthur é mais um exemplo (e agora nacional, porque vemos muitos desses relatos nas gringas) de quão fracionada e abstrata é a sexualidade humana e o quanto passamos por reciprocidade ou entraves sociais mediante a essa pluralidade.

A sexualidade humana é composta por alguns vértices, extraídos do site www.itspronouncedmetrosexual.com:

1 – Identidade de gênero;

2 – Expressão de gênero;

3 – Sexo biológico;

4 – Orientação sexual.

Todos sobre influências frequentes do grupo social de cada um + qualidade de personalidade de cada indivíduo (obrigado Fernando Lima por ter me enviado essa referência!). O infográfico abaixo é bem legal e didático e pode ter certeza que a maioria da gente consegue se enquadrar em alguma gradação nessa história:

Pluralidade Sexual
Pluralidade Sexual

Com os quase três anos de Blog Minha Vida Gay, por intermédio de contatos com centenas de leitores e pela aquisição de um olhar mais sensível a esse universo que é a sexualidade, tenho reforçado – com tom altamente opinativo – o quanto os paradigmas sociais e culturais quanto a nossa própria sexualidade (e a sexualidade alheia) são muralhas ou refrescos para a emancipação intelectual.

Não tenho incluído nesse “pacotão permissivo” gostos ou fetiches que fragilizam uma sociedade sã, que só se resguarda como uma sociedade organizada quando criminaliza e pune algumas categorias tal qual a pedofilia. Acho até desnecessário entrar nesses méritos mas é bom alertar que quando uma das partes é inocente e/ou inconsciente recaímos num “caldo” bastante perigoso e que a mim deve sofrer punição sim.

Existe um certo engajamento pessoal em querer trazer essas abstrações para o MVG e tentar mostrar como somos, muitas vezes, conservadores e até mesmo cópias gays de modelos heterossexuais tradicionais. Tendenciamos a querer nos restringir às duas faces de uma mesma moeda (heterossexuais X gays), algo de “politicamente correto” e as vezes nos sentimentos autores suficientes para poder julgar (ou condenar) qualquer outro extrato, fração ou segmento que nos tirem um certo conforto e integridade, de uma causa que hoje é dogmática/doutrinária. A minha defesa não se sustenta apenas em consciência ou contato com integrantes desses outros “fragmentos” como os g0ys, os HxH, gouines, bissexuais e etc., mas na simples emancipação mental quando compreendo que a realidade sexual é altamente plural e abstrata.

Em outras palavras, cabe a nós, gays, julgar ou qualificar as demais frações que andam pintando por aí?

A mim fica cada vez mais nítido que não. Eis um ponto.

O outro ponto que levanto é que, ao julgar, criticar ou até mesmo condenar uma fração hoje demominada como “g0y” – por exemplo – estamos nada mais, nada menos que assumindo a nossa falta de segurança com a própria sexualidade. Estamos falando de fobia e preconceito, de novo. O raciocínio a mim (e nesse caso é pragmático) é que, quando bem resolvidos, não é uma variação alheia que pode causar algum sentimento de incômodo ou aversão. No máximo uma estranheza a princípio, estranheza pelo que nos parece diferente.

Não tenho energia para entrar em causas partidárias, principalmente num contexto que fica tão claro que o Movimento LGBT tornou-se uma espécie de doutrina, uma instituição carregada de dogmas. Movimentos, a mim, fazem sentido até o momento que deixam de ser libertários.

Feito esse breve discurso, quero reforçar também que para atingir esse nível de abstração sobre os pensamentos que permeiam a sexualidade, os valores morais escritos, ditados, impostos e sedimentados pela nossa sociedade (no caso a brasileira) são criações. Existe uma óbvia maioria de heterossexuais no mundo, dissidentes da natureza primal da procriação e da história evolutiva. Existe a influência das ciências humanas, da filosofia, da psicologia, da sociologia, da antropologia entre outras escolas que ajudaram a criar a tal sociedade organizada. E, do ponto de vista da influência na criação dos modos e modelos, não poderia deixar de citar a maciça influência do Cristianismo no solo brasileiro.

Mas, repetindo, são criações para estabelecer ordem numa sociedade.

A minha defesa está exatamente nesse ponto: muito do que se cria é fundamental para a preservação da própria sociedade como sociedade. Ótimo. Porém, alguns dos pilares estão em conteste atualmente. Os gays durante décadas batalharam para atingir um status de respeito e inclusão social. Se a vida é mais fácil hoje para todos nós é porque lá atrás tivemos nossos tipos de mártires, simpatizantes e expoentes atuando em diversas frentes para tornar o cenário mais favorável.

Mas continuo achando que o fluxo que demos início, da liberdade sexual, implica invariavelmente numa sequência de libertações e novas exposições que nem sempre é da nossa alçada. Esses segmentos precisarão de mártires para que, nós gays e heterossexuais, os aceitemos?

Laerte Coutinho, por exemplo, foi durante 60 anos de sua vida alguém que influenciou positivamente o que se tem de valioso na cultura, artes e política. Durante esse tempo foi bissexual, formando relacionamentos heteronormativos, casamentos, filhos e tudo que o pilar sustenta. Em passagens da sua vida constituía namoros gays e hoje, depois dos 60 anos vividos, se apresenta socialmente como um transgênero e, até onde sei, é casado com uma mulher.

Tudo permanecerá confuso e até mesmo inaceitável se não partirmos para um pensamento abstrato quando o assunto é a sexualidade. E se mantemos nosso raciocínio pragmático, conservador, doutrinário ou institucionalizado o conflito interno é inevitável (quando se quer refletir a respeito porque uma opção de atalho é não pensar sobre essas coisas). Quando me refiro ao exercício da abstração, sugiro que existam alguns rompimentos entre as intersecções dos valores éticos com a sexualidade, subentendendo que valores são criações para preservação/conservação e a sexualidade, no contexto orgânico, casual, natural e humano – quando não de abuso da inocência alheia, quando não doentio – é altamente diverso e praticável.

Basta ter desejo e um punhado de coragem.

Estamos a fundo falando de inclusão, o que colocamos ao centro e o que tratamos como periferia. Estamos falando de tolerância de segmentos e frações que conflitam com nossos pilares seguros e confortáveis. Estamos falando exatamente do que os gays viveram há décadas e das repercussões positivas, negativas, pensadas e nem sequer imaginadas que todo esse fluxo de liberdade sexual tem provocado.

O sentido a mim me parece de evolução. Abrimos uma porta que acho bastante difícil de fechar. Conservadorismo e retrocesso são praticamente sinônimos nesse caso e quem for assim tende a sofrer com tendências incontroláveis.

De que lado você está? Tenho deixado bem claro aqui o meu posicionamento.

1 comentário Adicione o seu

  1. O que aprendi no meu primeiro ano como assumido foi o fato de não voltar a me alienar em algo.
    Digo, por conta da “influência”, presença, de uma pessoa que hoje tem grande importância em minha vida (que é uma amiga minha), aprendi que as pessoas tem uma certa necessidade de esteriotipar, classificar e normatizar.
    Fugimos um pouco do modelo hétero, mas aos poucos criamos um modelo gay! É no entanto que é fácil encontrar um gay que acredite fielmente que não existe, por exemplo, bissexualidade por motivos diversos, mas que se repetem na maioria das opiniões.
    O mais interessante é que a mesma “desculpa” que usam para afirma tal algo, é a mesma que usam para os “g0ys”, por exemplo.
    Qual o problema de aceitar bissexuais, transsexuais, transgêneros, g0ys, etc, em “nossa comunidade”? Vale lembrar que foram alguns desses que nos ajudaram na caminhada para nos incluirmos na sociedade. Agora iremos os deixar de fora? Isso aparenta-me discriminação!
    O fato de que ser gay acabou tornando-se algo tão normal, que os próprios acabam por discriminar outros que não fazem parte do antigo e do novo modelo, e isso é muita hipocrisia!

    Sinceramente, sempre acreditei que o fato de uma pessoa ser gay fosse motivo suficiente para esta ter uma mente aberta para aceitar, e talvez até experimentar, o que é novo, mas percebo que alguns ainda tentam voltar a alienar-se, só que dessa vez pela nova ideologia.

    Poxa! Ter uma mente liberal é a melhor coisa que uma pessoa pode ter, e, em minha opinião, acho que todos deveriam esforçar-se só um pouquinho para isso.

    Abraços do CR!!

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