O que é gayismo

Gayismo, antes de mais nada, é um neologismo. É o nome que tenho dado ao comportamento exagerado e/ou radical de homossexuais (gays e lésbicas exclusivamente) para com aqueles que se diferem sexualmente ou saiam de determinadas “normas” que tiram a segurança hipotética da integridade estética ou comportamental de um gay.

Gayismo, assim como o machismo ou o feminismo, tende a ser um padrão institucionalizado envolto de preconceito, repúdio ou fobias daqueles que são diferentes na maneira de se apresentar ao mundo ou na maneira de se comportar. Como disse no post anterior, quando tais movimentos viram doutrinas e perdem o caráter libertador, destróem o próprio sentido de existência pois passam a ser tão autocráticos quanto aqueles que o provocaram.

A mim, a manifestação do gayismo já é uma realidade social, inclusive, entre os próprios gays (o que é mais intrincado e complicado, já que heterossexuais não se fragmentam necessariamente por intermédio de posturas machistas).

Estou sugerindo que essa cisão histórica entre gays masculinizados VS. gays afeminados é um comportamento gayista. Existem milhares de gays afeminados com sérias limitações para desenvolver um relacionamento com um gay masculinizado e vice-versa. Essa é a postura gayista mais evidente, nítida e preconceituosa (aquela que vai julgar apenas pela forma/casca/estética/maneira que as pessoas se expressam e não darão oportunidade para o conteúdo/personalidade) pelo exclusivo limitador do indivíduo gay, por ser mais masculino ou mais feminino.

Outra postura gayista acontece mediante a um contexto: vivemos um momento pró-gay tão intenso ultimamente que, a exemplo do ano passado, qualquer negativa de um heterossexual perante um gay já pode sugerir homofobia. É o exemplo do gayismo levando à alienação: lembram do caso do Kaique? A perícia mal tinha concluído as investigações e um grupo de manifestantes já estavam nas ruas “brigando” contra a homofobia. No final, sob declaração inclusive da própria mãe, o menino havia se suicidado por crises amorosas. Nada de homofobia.

A natureza do gayismo é tão radical como a do machismo e a do feminismo, no sentido de projetar uma culpa no que é externo. Por ser também radical, nos tira o senso crítico e criterioso, nos torna míopes, possibilitando perceber apenas o viés que privilegie a classe.

Considero uma postura gayista também o afastamento ou aversão aos demais segmentos (da diversidade sexual) no momento que se generaliza:

– “todo g0y é escroto, mal resolvido”;

– “todo bissexual será gay um dia”;

– “todo gouine é limitado”;

– “todo transgênero se prostitui”;

– “todo transexual é um sofredor”;

– “toda sapa é caminhoreira e todo gay é pão com ovo”.

No sentido de que se não for como um gay – seguidor das normas e condutas conservadoras, institucionalizadas e esperadas – vira generalização. No sentido de não se atentar que a sexualidade vai muito além de duas faces da mesma moeda.

E por fim, e não menos importante, o gay é um ser curioso: reclama dos rótulos e das frações que estão pipocando por aí, mas ao mesmo tempo vivem dessas frações: são os bears barbados e emotivos, são as barbies narcisísticas, são as bichinhas, os “machões”, os “bonitos” dentre outras frações. Nós mesmos nos subcategorizamos, meus queridos leitores! E nos agrupamos altamente apegados pela superficialidade estética!

Dá pra acordar? Ou na hora do vamos ver a gente vai se fracionar?

Tudo, tudo gayista, impondo limites restritivos a si e aos outros. Seremos capazes um dia de abraçar o ser humano?

Sou gay mas não suficientemente alienado ou fanático ou mal resolvido para não trazer à discussão as cegueiras e repetições de modelos da “nossa classe”.

4 comentários Adicione o seu

  1. Bruno disse:

    Adorei o texto, e não tem nada escrito neste que não seja, de fato, MUITO recorrente.

    gayistas são muito semelhantes às origens machistas. Eu poderia dizer que as feministas também, mas eu acho que estas muitas vezes buscam mais um quê de igualdade, mesmo que de maneira agressiva, às vezes. Gayismo/Machismo caminham mais numa linha generalizadora, seletiva e exclusiva. É muito triste ver pessoas alterando agressivamente seu jeito natural de ser para se adaptar a um padrão que cla-ra-men-te as mesmas não pertencem. Um exemplo clássico é um gay que tende a ter uma voz mais feminina, mas engrossa sempre que pode, para não ser taxado como feminino. Isso dói bastante, e é feio.
    Acho que todo mundo tem o direito de agir como bem entender, em termos comportamentais, e a naturalidade disso faz a pessoa ser autêntica, mais legal e mais “gostável”.

  2. Lucas disse:

    Só gostaria de esclarecer, o feminismo prega a liberdade e a libertação dessa obrigatoriedade de seguir um padrão, o movimento que tenta deixar a mulher acima do homem é o femismo, que convenhamos sua existência é praticamente nula.

    1. minhavidagay disse:

      Oi Lucas,
      tudo bem?

      Creio que no feminismo ideológico exista essa pregação. E vejo também que o feminismo colaborou em muitos aspectos para a emancipação da mulher. Não acho que seja nulo, pelo menos aqui em São Paulo, quando noto mulheres se despontando em cargos executivos por exemplo. Temos uma presidente também e assim por diante.

      Em contrapartida, muitas mulheres ditas “feministas” são tão radicais que acabam por ser machistas. Em alguns núcleos familiares o matriarcalismo é o novo patriarcalismo. A ideologia do feminismo, em essência, é linda, libertadora. Mas na prática, tal conceito se polui em meio a mentalidades, culturas, grupos, famílias e educações diferentes. Assim é também com o machismo, com o gayismo e qualquer outro “ismo” (rótulo) que possa vir a surgir daqui em diante.

  3. Kevin disse:

    Ola MVG,

    Tenho um link interessante, que apesar de não estar diretamente ligado ao assunto do post, demonstra um fato interessante:http://www.pragmatismopolitico.com.br/2014/04/familia-adota-jovem-homossexual-que-sofria-preconceito-na-casa-dos-pais.html.
    São noticias assim que invalidam o “exagerismo” tais como machismo, feminismo e o gayismo em questão. Digo isso, pois, todos são um aglomerado de opiniões pré-definidas e generalismos que incapacitam e diminuem o entender da sociedade, do ser humano em questão. Resumidamente, é como se para todas as perguntas no mundo houvesse somente como resposta o sim e não, é o que a sociedade está acostumada atualmente, e o gayismo e os outros três é um reflexo deste fato. Assim como nem todo gay é afeminado, nem todo heterossexual é preconceituoso, mas é muito mas fácil cobrir o buraco com papel do que ter que tampa-lo.

    Parabéns pelo blog e um abraço :)

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