Relato Gay – Um lugar ao Sol

O relato de hoje é dedicado principalmente para aqueles que relutam a deixar o passado, ou que vivem de migalhas, querem mudar, mas não conseguem fazer diferente.

Todos nós desejamos um lugar ao Sol.

Alguns gays priorizam uma boa posição profissional. Outros almejam uma aceitação recíproca, “normal” à própria sexualidade perante seus pais. Tem gente que quer mudar a timidez ou a vergonha explícitas na personalidade, objetivando se tornar mais comunicativo. Outros querem ser os “reis da night“, contabilizando o número de pessoas que ficaram, transas e possibilidades fragmentadas. E uma grande maioria, dos leitores calados ou expositivos, pelo menos aqui no Blog Minha Vida Gay, buscam por um desdobramento afetivo, um relacionamento.

Quem está acompanhando meus últimos posts sabe que meu final de semana foi um tipo de marco. Foi tudo meio incrível, quando pude ser leve, “criança” e eu mesmo numa parte do final de semana e pude concluir uma história passada de maneira íntegra e verdadeira no domingo. Sem querer, enquanto voltava a reconhecer uma parte de mim num dia, estaria colocando os definitivos e justos pingos nos “i’s” no outro.

It’s a kind of magic.

E o que justifica tamanho entusiasmo não foram somente as sensações do final de semana, mas o que tem reverberado dentro de mim desde então: a emoção de me sentir pleno novamente. “As cores voltaram”, brega mas lindo. Brega para quem acha, mas para quem não acha também. E foda-se (rs).

Os três primeiros meses depois do término foram do cair a ficha e de aceitar o luto. Tudo meio junto, bagunçado, com sentimentos conflituosos. Foram 4 anos, vejam só, não é pouca coisa. Nesse período dos três primeiros tempos, tanto eu quanto o Bing transitamos entre altos e baixos e nos falávamos as vezes parecendo namorados, as vezes determinados à posição de ex um para o outro.

Os quatro meses que se seguiram foram de viver o luto. Aquele inconformismo da relação de não ter avançado mais. Um ar com uma certa neblina, uma frustração latente batendo todos os dias com um tipo de sentimento de fracasso.

Eu: “Não era para ser para sempre? Poxa, Renato Russo! O pra sempre, sempre acaba, porra?”.

Vozinha da cabeça: “Sim, mas é eterno enquanto dura. E quem se envolve intensamente ao sentido dessas palavras costuma não ter medo de tentar de novo e ir fundo. Se dê um tempo. Não se apresse”.

Vi no final o consolo, de que os 4 anos valeram à pena, até a luz brilhar nessa afirmação e notar que essa verdade não é um mero consolo.

Segunda-feira, terça-feira e hoje é quarta. Meu ex pipocou no Gtalk anteontem e ontem, em seus entusiamos pelos encontros, para confidenciar alguns medos e inseguranças. Lidei com a naturalidade incrível que precisava, como amigo, e já sai rasgando e brincando: “Ai, Bing! Vai dividir essas suas chatices eternas com seu namorado, vai! Ahahahahahaha”.

Foi uma delícia ter essa autonomia e liberdade de não sentí-lo como “o ex”, mas como o Bing que namora o “Cláudio”. Podem imaginar essa diferença?

E faz uma baita!

Segunda-feira, terça-feira e hoje é quarta. Entrei na semana com uma disposição incrível ao trabalho que, por “coincidência” me brindou com três projetos novos (e bons) em menos de 48 horas. Andava meio desanimado em ter que vestir a “máscara” profissional de provedor das boas ideias, do combustível primordial de minha empresa todos os dias. Graças a Deus e muito suor, consigo hoje levar a empresa nesse estado “morno” nas minhas baixas energéticas.

Tudo que se passou nesses três dias foi coincidência? Pode ser, mas eu acredito em algo além. E quando digo isso, vale a afirmação que já expus aqui algumas vezes: “a vida é a maneira que a gente acredita. Vibre positivo que virá. Vibre ‘mao-meno’ que virá. Vibre negativo que será a mesma coisa”.

O mais incrível de tudo, não desmerecendo essa clareza da minha relação fraterna com o Bing que se estabelece, nem essa energia positiva trazendo frutos – de novo – no trabalho, é saber que um tipo de calor volta a preencher meu peito. Brincando, me sinto um X-Men! É como se alguns superpoderes estivessem enfraquecidos pela “kriptonita” da frustração e da desilusão e que, mesmo sem o sentimento de traição ou de mágoa pelo outro, acaba acontecendo a tristeza quando se finda uma relação que você gostaria que fosse para sempre.

A kriptonita se esfarelou e não sei bem quando e como. O luto findou e o vivi de ponta a ponta sem ruídos no meio do caminho. Se há resquícios? Sempre há pois nunca seremos 100% em tudo.

Brincando, me sinto como o Magneto agora, algo de ressurreição. Me sinto com o ego elevado sem ter me apropriado de aplausos, sem precisar – na prática – ostentar. Veio de dentro para fora e pode ficar guardado dentro de mim (exponho no Blog com a exclusiva intenção de elucidar meus processos).

Já não estou mais “fechado para a balança” e nem sei bem em que momento a porta se destrancou. Mas estou aqui, de novo, depois de 7 meses de “luto”, de umas putarias aqui e ali, de questões existenciais, crises e desilusões expostas no MVG, pronto para fazer, de novo, uma história para ser pra sempre.

Mas não tenho pressa. Dessas energias boas a gente se alimenta devagarinho. Justo.

3 comentários Adicione o seu

  1. Bruno disse:

    Que bonitinho! A sensação de que superamos algo, e de maneira positiva, é inexorável. Acho super legal quando eu passo por isso ou quando algum amigo meu mostra sinais de superação.

    Uma coisa que eu vejo muito por aí, entre as pessoas que querem ter seu alguém, é uma determinada urgência. Uma certa, sei lá…”sede” por poder ter alguém e chamar de “namorado”. Não sei se eu poderia teorizar isso, mas quase to-dos os casos de relacionamentos bacanas que eu vejo, são entre pessoas que não urgiam por isso, que deixaram a naturalidade tomar conta.

    Mas sem sair do foco, parabéns pela caverna superada no rpg de tua vida. ;)

  2. minhavidagay disse:

    Ehehe, gostei do “RPG do minha vida”.

    Obrigado, Bruno! :)

  3. Luiz Leão disse:

    Esperar é o segredo. Somos ansiosos e isso atrapalha o percurso. “Eu me apaixonei pela pessoa errada”, funciona bastante e às vezes nós somos as pessoas erradas para a paixão. O amor só se reconhece em quem o tem.

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