Minha Vida Gay – As influências dos relacionamentos

Nossa vida toda é influenciada pelo contexto social o qual nascemos, a partir de nossa família e parentes. As pessoas hoje fazem filhos de maneiras tão diferentes: são os pais (mãe e pai) seguindo o modelo mais comum, sejam de uma educação mais tradicional ou conservadora, seja por meio de um casal de pensamento mais libertário. Há filhos que nascem num núcleo que só existe o pai. Outros, só a mãe. Há filhos que já nascem hoje num contexto familiar de um casal gay, seja de dois homens ou duas mulheres. E há ainda os filhos que podem nascer em qualquer um desses contextos, mas pelo fato da vida moderna “obrigar” pais e mães focarem grande parte de seu tempo no trabalho, vivem mais tempo com babás, empregadas ou até mesmo sozinho.

E cada um vai encarar suas próprias realidades a sua maneira porque a nossa reação mediante a esses diversos contextos é pessoal e intransferível. Mas há de ser mutável.

O broto que somos quando nascemos no núcleo familiar vai crescendo e tomando forma. Passamos a identificar nossa sexualidade, nosso gênero e passamos a definir a maneira/forma de se expressar ao mundo. Reconhecemos tal mundo e as pessoas que estão nele. Mas, de qualquer forma, definimos a grande parte de nossas características e impressões ainda dentro de casa, na maioria dos casos.

O Blog MVG é meu exercício pessoal para tentar reforçar um conceito: de ressaltar as semelhanças e não as diferenças porque, na prática, nas ruas e em nosso contexto social brasileiro tendemos (fortemente) a comparar ou nos sentirmos comparáveis pelo diferente. Em outras palavras, deveríamos dar mais atenção as semelhanças que temos uns aos outros e não o que nos parece diferente. E quem acompanha o MVG sabe que quando me refiro as tais diferenças, não me posiciono apenas nas questões umbilicais de nossa homossexualidade. Falo das questões raciais (que ainda existem sim no Brasil), das cisões que existem em nossa própria comunidade, tais como os gays masculinizados e gays afeminados que vivem se alfinetando por aí, das subfrações “moderninhas” como os gouines ou g0ys, que o gay tem que meter o bedelho para julgar e assim por diante.

O ser humano, ou o ser brasileiro (não saberia precisar) tem essa coisa de querer se sentir melhor/pior ou mais potente/enfraquecido ou mais privilegiado/desfavorecido em detrimento ao outro. É uma cultura eterna de comparação focada no ter e não no ser. Assim, tenho falado bastante sobre o nosso modelo classista brasileiro, que é autenticamente nosso, nesse contexto de diferenças de classe. E acho que tenho tratado bastante desse assunto pois estou atento a um ano eleitoral, que representa a definição da presidência para os próximos quatro anos.

A gente, enquanto broto, aprende pequenino sobre as diferenças de classes e, sem querer, as pessoas mais conscientes acabam nos transmitindo o valor da desigualdade social. Invariavelmente, tal questão, vai influenciar nossas escolhas. Tenho dois relatos pessoais que ilustram bem, na prática, minha posição sobre a influência de classes na minha escolha para um relacionamento. Lá vou eu:

Em 2005 conheci o cara que se tornaria meu marido. Marido, no sentido de dividir o mesmo teto por dois anos e 11 meses (ou três anos). Ele vinha de Vargem Grande Paulista, cidade que se constituiu basicamente por ser passagem entre outras cidades com pólos industriais e da agricultura. Assim, as pessoas de “Vargran” são operários ou trabalham nos pequenos comércios locais. Meu ex não tinha faculdade, estava desempregado na situação e seu melhor emprego chegou a pagar no máximo R$ 700,00.

Naquela época minha empresa não tinha a estabilidade que tem hoje e eu certamente não tinha a maturidade que tenho hoje! (rs). Mas minha cabeça progressista sempre foi a mesma.

No mesmo contexto, meu ex-sócio se desligaria para ir embora do Brasil com sua esposa e eu queria de todas as formas sair da casa dos meus pais para tocar os negócios no mesmo local. Independência era a palavra. Meu pai, na época, foi terminantemente contra: não achava que eu seria capaz de levar a empresa sozinho, assumir um aluguel e (ainda) casar com um cara. O último ponto, na realidade, ele tratava como um problema meu, nem desenvolvia muito a questão. Mas saber que assumiria um aluguel e uma vida longe de suas “asas” gerou-lhe um incômodo tão grande que ficamos um ano sem falar (rs). Negou-se a ser meu fiador e eu tive que me virar.

Meu ex entrou nesse contexto todo e até meus amigos que acompanhavam minha trajetória na época diziam que, vendo toda aquela situação, não botavam fé que iria virar. Mas deu tudo certo no final, com aquele toque de fé, sorte e minha força de vontade.

Os anos foram melhorando incrivelmente. Brinquei mentalmente algumas vezes que meu ex-sócio havia saído da empresa na hora errada pois a maré tinha virado finalmente. E mesmo com o caixa ainda baixo eu tinha adquirido alguns contatos importantes que garantiam ao meu ex-marido um primeiro emprego em São Paulo, na área administrativa, acima dos módicos R$ 700,00 de sua realidade em Vargem Grande.

Mas meu ex-marido tinha uma cabeça complicada (cultura? educação?): ele não aguentava lidar com seu chefe e com o modelo do trabalho. Tudo sempre começava bem, mas não passavam 3 meses e suas crises de relacionamento se estabeleciam. Saiu. Daí que depois de um tempo consegui um segundo emprego a ele, num escritório de arquitetura de famosidades da área (Triptyque), na Vila Madalena, para que atuasse também com administração. Conseguiria ganhar R$ 2.000,00, poderia começar uma faculdade e ajudar em casa. Ficou lá menos de seis meses e, alegando não suportar o trânsito dentro do busão, desistiu. Não saberia dizer se o problema era o busão ou o fato de ter que ficar longe de mim a semana inteira, ou qualquer outra crise. Meu ex-marido era a manifestação do cúmulo do ciúme (rs). Acho que só hoje estou preparado para uma pessoa mais ciumentinha (rs), mas que seja claro: “inha”!

Começou a fazer faculdade de psicologia, mas como desistiu do emprego e eu sentindo um desperdício muito grande, resolvi colocá-lo para trabalhar comigo. A empresa passou a pagar sua faculdade e lhe sobrava ainda uma grana para a gente viver. Bom também que poderíamos dividir as responsabilidades de casa, tal qual lavar o quintal toda manhã por causa da sujeira dos dogs, cozinhar, lavar a louça, etc.

Bem, daí que a rotina começou a incomodar. Sentia-se algo de humilhado de ter que lavar quintal ou lavar a louça. Pois bem, botei uma empregada, mesmo sabendo que não estávamos ainda lá essas coisas para investir numa ajudante para a casa.

Eis que não durou muito tempo que parecia que a mulher não atendia às expectativas do meu ex para a limpeza. Deixamos de ter empregada.

Entre indas e vindas de sua “cultura fácil”, a relação se manteve entre paixões e ódios eternos, a tal intensidade na real, pra cima e pra baixo! Nesse fluxo ele se manteve na minha empresa e seguiu com sua faculdade por dois anos.

Quando terminamos, ele voltou para casa de seus pais e lembro até hoje da última frase de sua mãe antes de partir: “você sabe como é meu filho. Não sei se vou aguentar. Tem certeza que vocês estão certos disso?”.

Que fique bem claro como a moral dessa primeira história: meu problema com meu ex nunca foi a diferença de classes, mas era um problema a ele. Era mais um que não conseguia entrar no Shopping Morumbi, achando que o mundo daquele quadrado o percebia como alguém menos privilegiado. E isso é um fato: milhões de brasileiros não entram em “shoppings chiques” porque se sentem inferiorizados pela classe, por sentir que é mesmo chique. Mas não fui eu quem instituiu isso em suas mentes e acho até um absurdo se sentir assim. Vivi isso na pele, com meu ex-marido há 9 anos atrás. E pelo visto, hoje, não mudou nada.

O problema com meu ex-marido foi sempre da comparação: eu tinha carro e ele tinha que andar de busão. Eu tinha empresa própria e ele tinha que lidar com chefe. O problema foi de diferenças de valores culturais e educacionais. Aprendi que a gente só consegue dar a mão, definitivamente, para quem quer e para quem fará jus. Enquanto eu me preocupava em subir degraus, labutar, fazer a coisa render e levá-lo comigo nessa jornada que não é fácil mas tem suas recompensas, me parecia que ele ficava preso na supervalorização das diferenças (reafirmando sempre sua condição inferior) e se nutrindo dessa cultura vitimista.

Gente, a minha mãe andava 20Km de bike em estrada de terra todos os dias para ir e voltar da escola! Em Pindamonhangaba, há décadas atrás!

Por tudo isso vieram essas minhas teorias que rebato com todas as forças: valorizar as diferenças e alimentar esse estado vitimista são problemas culturais que devem ser trabalhados nesse país de uma maneira muito esperta e estratégica. Qual presidente terá tal sensibilidade? Quais cidadãos decodificam tais questões em seu cotidiano?

Os problemas não são os ricos, não são os pobres. O problema é da mentalidade!

O outro caso eu esqueci (rs). Entrei tanto nas memórias e sensações de 9 anos atrás que acho que tal relato já é suficiente (rs). Cansei! (rs).

Valeu!

7 comentários Adicione o seu

  1. Gabriel disse:

    Nossa, esse post resonou bastante comigo. Me identifico bastante, diga-se de passagem, com sua situação com o ex-marido. Estou namorando a pouco mais de um mês, e mesmo assim as temidas e quase inevitáveis “diferenças de classe” começam a se manifestar. Meu homem mora em Jacarepagua, um subúrbio do Rio de Janeiro, dividido entre regiões mais ricas e outras muito pobres. Ainda não fui a casa dele pra ver como ele mora, mas ja percebi q n estamos exatamente no mesmo nível social. Ai invés de ir a restaurantes, ele traz marmitas para a faculdade, e mesmo com 20 anos de idade, ainda nem começou o processo para tirar carteira de motorista, indo de ônibus para tds os lugares todos os dias. Mesmo assim, existem alguns aspectos da vida dele que eu invejo, sobretudo a liberdade: eu vejo que ele se sente mais livre do que eu, e vive apenas com a mae, com quem se da muito bem. Vai para onde quer, dando poucas satisfações de onde esta e quando voltar. Para mim, e’ um absurdo como a elite brasileira cria os filhos em geral, na chamada “prisão domiciliar”. Sempre controlando onde se vai, como e com quem, alimentada por medos irracionais e sensacionalistas. Tirando a infância e adolescência dos filhos,e produzindo infelicidade mais tarde.

    Mesmo assim, eu não vejo sinais de inveja nele por namorar alguém em melhor posição social. Pelo menos por enquanto, não senti tristeza quando ele foi na minha casa, não senti hesitação quando conversava com ele sobre viagens que ja tinha feito (ele saiu do Brasil apenas uma vez), ou uma mentalidade de inferioridade nele em relação a mim. Eu espero q esteja correto nas minhas perspectivas, mas realmente não parece que namora-lo esta fadado a terminar em inveja. Como você disse, seu ex marido escolheu pensar desta forma, não foi a classe social que escolheu isso para ele.

    Nos últimos tempos, tenho ouvido muito a frase “procure seus iguais” dos meus pais, como forma de me orientar a procurar pessoas do mesmo nível social que eu, que vivem em lugares próximos e passaram por experiências parecidas. Mas se e’ assim, porque estaria eu na faculdade? Seria apenas a continuação do ensino médio em uma escola privada. E o amplamente da visão de mundo, a conscientizacao dos problemas dos outros, a expansão da linha do horizonte? Pra mim, isso no fundo e’ só preocupação com meu futuro, de que eu não tenha “contatos” suficientes (AKA pais e amigos de gente rica) que me garantam sucesso profissional. Mas contatos surgem de todos os lugares, e eu procuro não excluir ninguém, rico ou pobre. E se eu estou fazendo a escolha errada, ainda terei mt tempo pra melhorar e aprender. Nos meus próprios termos.

    1. minhavidagay disse:

      Oi Gabriel!
      Quanto tempo. :)

      Olha, muito legal você ter deixado seu relato. Você que vem de uma família com maior poder aquisitivo e que está se deixando levar deve perceber muito bem as “bolhas sociais” e o sentido de preconceito que existe.

      Obrigado pelo seu relato e continue a se permitir a enxergar o mundo com olhos abertos, percebendo as diferenças mas enaltecendo as semelhanças.

      Um abraço!

  2. lebeadle disse:

    Cada vez mais me parece que ninguém consegue ajudar uma pessoa se ela própria já não tiver se determinado a isso; basta observar a coisa pela consequência, quando você resolve um problema na sua vida, as coisas no seu entorno se resolvem. Estou procurando me afastar um pouco do idealismo, da preocupação com a perfeição dos princípios, algo um tanto quanto ideal e pensar mais pelo lado empírico, da consequência/resultado, como faziam os utilitaristas, a exemplo dos vídeos da série Justice, indicada aqui por um leitor, onde se abordam alguns problemas pelo viés do resultado.

  3. Wicked disse:

    Me identifiquei demais com o seu ex-marido, MVG, em um aspecto dessa insatisfação. Eu adoraria ter um dia encontrado ele, sabendo dessa história, e perguntar “Então, como você se resolveu nisso?”. (espero que ele tenha resolvido mesmo ou a vida dele tá muito difícil)

    Atualmente esse tem sido meu problema, e como você bem mostrou exemplificando seu ex, é algo que reflete em tudo que ele toca: trabalho, a empregada, faculdade…
    Não precisa necessariamente estar num relacionamento para isso acontecer, num comparativo social, financeiro ou cultural… é uma tal insatisfação que surge de algo que te satisfazia e se enjoa de repente. Nem é por maldade uma coisa dessas, não. É bem natural e já quer o fim daquilo imediatamente, um impulso.


    Sobre diferenças $$$$ eu sinto a dizer que devo ter tal mentalidade comparativa. De uma forma ou de outra somos excluídos de certos programas ou assuntos. Por mais que a pessoa com maiores recursos possa lhe dar a mão, mas ninguém quer passar pela impressão de estar sugando a pessoa. Muitas vezes recusei certas ajudas por isso. Algo que tenho que trabalhar sobre mim sem dúvidas.

    1. minhavidagay disse:

      Oi Wicked!

      Obrigado por deixar seu relato. Bastante válido para o MVG, do ponto de vista social e dessa cultura de classes que nos fraciona tanto.

      Acho que é bastante importante que você “lute contra” esse estigma de desistência, da falta de ânimo. Sem ânimo e confiança em si não chegamos em lugar algum. As questões comparativas, inclusive, pesam bastante também para que você se mantenha motivado a vencer, a crescer e ir além de sua realidade atual. Sei que é difícil pois presenciei meu ex-marido vivendo suas “tormentas existenciais”.

      O conceito de superação deve ser apreendido e aprendido e que, pelo menos no MVG, eu possa te dar essas dicas, como dicas certas para que você desenvolva sua própria vida. Existem também livros, vídeos no Youtube, filmes que tem o teor motivacional para o crescimento, o autoconhecimento e a superação.

      Infelizmente não aprendemos esses valores na escola e nem sempre temos uma base educacional no sentido se ensinar sobre perseverar, da resiliência, de superar obstáculos e ir além. Veja o exemplo do Jean Wyllys que também veio de classes menos favorecidas. O intelecto/inteligência representam poder. Não te conheço pessoalmente, mas suas colocações no MVG sempre mostraram que existe um intelecto importante aí que vai te ajudar a superar suas questões. Acredite nisso.

      Sobre as pessoas que possam dar a mão a você, aceite desde que você não entenda como um assistencialismo. Aceite, retribua, faça jus a ajuda no sentido de superar seus obstáculos sociais.

      Não sei se é a situação, mas outro exemplo que conheço é de um amigo gay, o primeiro que fiz um tipo de amizade quando sai do armário. Ele, durante a infância, chegou a passar fome e ajudava a família a pegar papelão na rua para vender. Com muito esforço, resiliência e força de vontade conseguiu fazer uma faculdade, atua na área e hoje, de maneira até meio autoafirmativa demais (mas justa) vive expondo suas fotos de viagens ao exterior. Venceu.

      Esses exemplos hão de servir como referência para aqueles que querem superar as barreiras de classes e, acima de tudo, as barreiras psicológicas que fazem parecer um sonho de prosperidade ser tão distante.

      Confie, acima de tudo Wicked, no poder de sua inteligência.

      Bjo,
      MVG

      1. Wicked disse:

        MUITO obrigado pelas palavras, MVG.

      2. minhavidagay disse:

        Só mais uma coisinha Wicked, querido: busque por essa consciência, das suas qualidades como a inteligência, não porque eu estou dizendo – que sou alguma referência, do “caldo” de uma classe hipoteticamente superior e que estimula e te incentiva por isso.

        Busque isso pela consciência própria. Busque suas virtudes, agarre-se a elas, tenha-as como seu poder e vá atrás de seus sonhos.

        Tente dar continuidade a tudo que você faz. Crie um estilo de vida construtivista. Não se deixe abalar pelo primeiro cansaço ou tédio que aparecer na sua frente.

        Sei que é difícil mudar modelos, padrões e impressões. Mas somos todos capazes de praticar a superação. Não importa nossas classes. Mesmo.

        É isso.

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