A busca da identidade gay


Embora a ideia seja clichê, a vida é uma eterna e sucessiva sequência de desafios. Não importa a classe social a qual nos encontramos (embora alguns reforcem tanto esse conceito pela comparação entre classes, pela diferenciação), todos nós teremos acertos e erros, altos e baixos durante a vida toda. O sentido de ascendência ou elevação (seja a material, psicológica ou espiritual), independentemente da posição que cada um se encontra hoje, é cobrada para todos. Podemos escolher ser vítimas do modelo ou autores participativos, apenas.

Plenitude 100%? É inexistente pelo simples fato da composição orgânica que nos faz, seres humanos, e pelas infinitas correlações da personalidade individual com seus grupos sociais. Todos nós teremos nossos momentos de alegrias e tristezas.

Sair do armário nos entrega para um novo contexto de vida e é fato que as vivências, agora que assumidos, nos trarão os mais diferentes repertórios e percepções. Tudo, no final, para a infindável busca da maturidade, do crescimento pessoal e do autoconhecimento. De toda e qualquer experiência sempre é possível tirar uma lição positiva, mesmo das vivências que nos abalam, nos chateiam e que aparentemente só nos trazem amargura. Essa relatividade se dá no momento que trago sempre a afirmação: “o mundo, a vida e as pessoas são a maneira que queremos acreditar. Pense positivo ou negativo que as percepções externas virão na mesma medida”.

Entusiasmados ou simplesmente motivados pela própria aceitação, definir a personalidade e a maneira que passaremos a nos apresentar ao mundo (agora como gays) é um processo natural a todos. Benvindos à busca da identidade gay! :)

Há aqueles que já tem uma noção mais segura ou consciente de sua identidade gay antes mesmo de sair do armário; bem definida e que pouco mudará a partir do divisor de águas da autoaceitação. O sentido de ser masculino ou ser feminino, ser mais ativo ou passivo, dentre outras características comuns ao “ser gay” são conceitos, nomes ou propriedades definidas pela sociedade e que, em maior ou menor grau, cada um pega para si à medida que se sente mais confortável ou desconfortável. De fato ninguém escolhe ser mais “macho” ou mais afeminado.

Para exemplificar essa parágrafo anterior, eu, por exemplo, antes de começar a me assumir aos 23 anos, tinha um certo receio de me tornar feminino. No fundo era uma fantasia criada pela sociedade, quando dizia que ser gay era igual a ser afeminado. Fui desmitificando no momento que fui me deparando e formando a minha identidade gay, conhecendo pessoas, vivendo situações e o melhor: pude me relacionar com afeminados e ver que conviveria com naturalidade, incluindo um namoro e um casamento.

Lembro bem que, embora não me tornasse feminino, busquei criar alguma identidade com roupas novas, diferentes de tudo que havia no meu armário até então. E fui experimentando, arriscando, tentando e combinando. Algumas experiências no começo, claro, saiam exageradas, flamboiant. O mesmo fiz com meu cabelo: cheguei a usar um moicano gigante, durante anos, pois aquela imagem representava – particularmente a mim – uma maneira de me identificar e me apresentar como gay, como jovem, como dono de uma empresa “descolada” e, acima de tudo, como a maneira que gostaria de me afirmar esteticamente ao mundo. Queria acabar com a minha imagem de “japa CDF”.

A vaidade por roupas foi meio que herdada da minha mãe. Ela se veste simples até hoje, mas sabe fazer combinações elegantes – ou melhor – que expressem bem a sua personalidade. Segui tal gosto e hoje, embora não precise mais formar minha identidade gay a mim e para o mundo, continuo vaidoso (rs).

Nesse processo pessoal, algo bastante importante aconteceu: percebi que a sociedade machista coloca tal vaidade estética como coisa restrita à mulheres. Eis um ponto que ressoou forte dentro de mim na busca de minha identidade e da superação de tal “rigidez”: mulher = vaidade. Homem, macho que é macho, não tem vaidade. Lutei literalmente contra meu autopreconceito interior que acreditava que vaidade era realmente coisa de mulher.

Hoje, superado tal fase da vida, já não associo mais tal característica como algo exclusivamente feminino. Os anos passaram e incorporei em mim o valor de vaidade. Assim, tal caracterísitca é do próprio MVG e não mais da “caixinha” como eu acreditava antigamente, ou como comprava da sociedade.

Algumas pessoas associam tal característica, da vaidade por roupas, como “coisa de gay” ou “metrossexual” e tal comparação pode gerar algum incômodo/conflito ainda para muitos gays, gays enrustidos ou heterossexuais. Mais uma vez, estou protegido de tal enquadramento pois já é incorporado. Antes de ser “coisa de gay” ou “coisa de metrossexual”, é “coisa minha”. A caixinha vem depois, com importância suficiente para fazer cócegas apenas.

Assim como é “coisa minha” gostar muito de carros, suas marcas e modelos. Diz a caixinha que quem gosta de carro é heterossexual, um dos assuntos “top 3” entre héteros fora futebol, peitos e bundas. De novo: tal gostar, na atual conjuntura da minha vida, independe da caixinha pois, com 37 anos, tal apreciação já se consolidou como algo pessoal.

Gosto também de videogame. A caixinha diz que eu posso ser nerd. Pois bem: sou nerd (com certo orgulho – rs) mas, acima de tudo, tal gostar já faz parte de quem sou.

Gosto de ir na academia, se possível, de segunda a sexta. A caixinha pode sugerir que eu seja Barbie (aqueles que sabem que sou gay) ou que eu seja “maromba de academia” (aqueles que acham que sou heterossexual). Danem-se as duas caixinhas pois ir na academia já se estabeleceu como uma apreciação particular.

Buscar a identidade gay, ou agora, a identidade como um todo, durante uma fase da vida e principalmente a partir do momento que saimos do armário (ou vivemos a juventude) é, invariavelmente, uma necessidade real (que vai ebulir, explodir ou vir em conta gotas na medida de cada indivíduo). Alguns em maior ou menor intesidade aparente. Alguns passando por transformações gerais e outros passando por mudanças mais gradativas ou pouquíssimas mudanças. Vai depender de como cada um precisa ou quer formar sua identidade. Seja também de maneira consciente ou inconsciente. Não importa: todos nós passamos.

Contar com um namorado, nessa fase, não deixa (também) de fazer parte da busca da identidade gay. Um companheiro ao lado, do mesmo sexo, é uma representação legítima e transparente da nossa própria homossexualidade perante os mais diversos grupos. Chegar com uma pessoa do mesmo sexo, entre um grupo de amigos e apresentar como namorado é a manifestação dessa ideia. Mas claro que aí, os valores de afetividade, carinho e envolvimento estão em instâncias superiores, o que faz a autoafirmação gay, com um namorado, ser apenas recorrência. Isso quando o namoro é para va-ler! ;)

Todos nós deixamos latente por um tempo, reservado ou até mesmo restrito a nossa homossexualidade. Quando chega a nós o tempo da assunção, cada um vai buscar uma forma de estabelecer-se como gay perante a si e ao mundo.

Eu acho uma coisa, bem importante: não há um limite – propriamente – para a definição dessa identidade gay. Por mais que os “gays machões” se ofendam ou ridicularizem os gays que se afeiçoam pela figura feminina, machões e bibis estão em suas buscas, que são as mesmas. Particularmente, acho tão clichê e preguicento o outro excesso, dos gays marombados que só andam entre eles, com suas sungas ou cuecas aussieBum. No final, para tal formação da identidade, os estereótipos também se incluem.

“Free your mind”. Taí um videozinho pra gente liberar um pouco nossa mente e sermos felizes na busca de nossa indetidade, seja ela qual for, desde que respeite os limites de uma sociedade sã, sem estupros, sem abusos:

3 comentários Adicione o seu

  1. lebeadle disse:

    Olha como o povo tem mania colecionador, fica classificando e batizando tudo que passa ao redor. É barbie, nerd, g0y, urso e por aí vai, aprisionando as pessoas nesses conceitos e esquecendo que o essencial escapa a tudo isso: respeito, compaixão, caridade, que é o amor mais sublime.
    O amor entre iguais incomoda, especialmente em lugares conservadores que prezam a família patriarcal acima de tudo. Dia desses eu estava almoçando com um cara que não era gay,até onde eu saiba, mas tinha um estilo de roupa e cabelo alternativos, pois uma senhora ficou nos encarando um tempão na maior indiscrição.
    Outra história, vou chegando no meu hotel e a porteira que é sabidamente lésbica, estava recebendo um hóspede gay tipo transexual e quando fui chegando ele ia saindo, aí a recepcionista falou que ele era uma criatura estranha. Eu disse porquê,
    ele criou problema pra você; ela disse não, não e desconversou. Aí dei uma cutucada ” é bom trabalhar aqui não é? pois você tem a oportunidade de conhecer as mais diversas pessoas”. Ela ” é, é “.
    Tá vendo como são as coisas, o que o povo não fala por trás. Meu amigo, imagine o que essa aí não deve estar dizendo de mim pois um dia desses cheguei em casa com dois caras pela madrugada. Bem, só não devem ter me chamado de santo. Deus nos livre…

  2. Jorge disse:

    Mesmo não sendo assumido, acho que já comecei a definir minha identidade, porém tem algumas coisas que estão indefinidas ainda.
    Não sei se é vergonha ou se eu sou tímido ao extremo ou se é preconceito meu, mas eu fico imaginando se um dia alguém for me perguntar se eu sou passivo ou não, e eu responder que sim, qual vai ser a reação da pessoa ou o que ela vai pensar de mim (eu tenho esse probleminha < ), por que muita gente vê o gay passivo ou afeminado como: bixa louca ou algo assim =S. e por isso essa questão fica indecisa…
    Praticamente ouço muita zoação sobre gays, principalmente na minha família, sempre tem essas questões em uma roda de conversa, aí vem essas piadas, e a zoação vem pra mim, por que tenho 17 e eles nunca me viram com uma menina!
    Eu me "escondo" em um perfil nerd tímido(até por que eu sou!) pra dar menos pinta, e até por que eu gosto de jogos e talz… E acho que tenho essa vergonha da questão do ativo ou passivo por que sempre vejo fazerem zoações com isso…

  3. Rapaz, queria ver você na sua época do Moicano, Rs!

    No mais, é aquela velha história de querer esteriotipar, caracterizar, definir, etc, o que não é necessário.
    Além disso, o que posso comentar mais sobre o texto? Nada! E você não sabe o quanto fico incomodado em não ter nada para falar, pois já foi dito o necessário e só me resta concordar, Rs.

    De qualquer forma, é isso.

    Abraços do CR!!

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