Gay não é um adjetivo – Ensaio sobre a paixão

Prometi um ensaio sobre a paixão aqui no Minha Vida Gay. Acho que agora é um momento oportuno:

Já falei do amor num dos ensaios no Blog e hoje reservo um tempo para falar sobre a paixão.

A paixão é um tipo de calor no peito que preenche, que nos tira de uma certa sombra. Normal sentir que os cenários insentisificam suas cores, o sorriso é expressado com mais frequência e a gente se sente muito, mas muito mais bonito do que o normal.

Paixão nos traz um sentido novo de felicidade.

As vezes a paixão confunde ou é uma mistura: não se sabe bem se nos encantamos pelas situações que vivemos com determinada pessoa ou se é a própria pessoa que nos traz tal encantamento. Muito mais provável que sejam as duas coisas pois esse é um dos segredos da paixão: o intraduzível.

O curioso da paixão é que ela vem e nos anestesia independentemente até mesmo da outra pessoa saber. Diferente do amor que necessariamente carecerá das duas pessoas porque tende a ser construtiva, paupável.

Amor é de realização. Paixão é de encanto.

Quando seguros e amadurecidos, o despertar dessa paixão – mesmo que o outro não saiba ou não perceba com tanta clareza ou não sinalize à favor – as vezes nos parece bastante suficiente, principalmente quando a gente já pôde sentir tal energia por outra pessoa no passado e acreditava que não seria possível sentir esse sentimento de novo no presente. E atenção: se está difícil de se apaixonar de novo é porque tem grandes chances de haver porta(s) antiga(s) aberta(s).

O duro é quando vivemos tal intensidade pelas primeiras vezes e não somos correspondidos! Aí essa coisa da paixão pode ficar dolorida.

É duro também quando perdura por muito tempo, passam-se meses e o outro mal sequer desconfia. Daí vira platonismo e entramos naquela escola romântica hábil em extravasar o sofrimento!

A paixão, para quem já viveu dela algumas vezes, desperta um tipo de criança interior. Nos enche de disposição, algo da tal energia vital e faz até os problemas difíceis ficarem mais fáceis.

Por vezes, depois que a paixão é definida como real e correspondida, as vezes nos abestalha; daquele sentimento de querer estar mais tempo com o ser que se é apaixonado. É a reação físico-química (e quiçá espiritual) que fazem os planetas colidirem. E até orbitarem-se numa frequência íntima leva-se um tempo. Enquanto esse tempo não vem, vivemos abestalhados (rs).

Parece que todo esse romantismo, conceito meio perdido na sociedade moderna, anda mais difícil ainda entre gays. Explicar porque hoje é assim é até simples: nos tempos modernos morremos de medo de nos tornar vulneráveis e expostos. Quando a correspondência não vem na medida suficiente que nos preencha, acaba atrapalhando em outros aspectos da vida, como o trabalho, os estudos, os projetos pessoais. E ninguém hoje parece querer abrir mão do que é pessoal. Não parece haver tempo para se abalar e perder o ritmo de nossas vidas!

E será que somos um pouco covardes as vezes? Talvez.

Mas sempre há aqueles que se superam e perseveram. Que se dão a oportunidade de preencher o peito com tal calor anestésico e conseguem ainda lidar com as mais diversas demandas da vida moderna. Porque de fato, para dar conta cada vez mais é questão de prática e faz parte da própria vida à medida que nos desenvolvemos. À medida que adultificamos.

Essa coisa de se dar oportunidade de preencher o peito com a energia da paixão tem também de característica e personalidade. Ninguém sente igual a ninguém e se existisse um termômetro para medir o quanto o outro sente realmente por nós não haveria o encantamento, que é um dos “princípios ativos” da própria paixão. Para a paixão a gente precisa sim “entregar um pouco para Deus” e deixa rolar.

Estou me sentindo um pouco assim de novo e, à favor da minha sanidade e maturidade (rs), vem acontecendo devagarinho, bastante percebido e sentido, cada evolução. Mesmo para um ariano, que é fogo, e já sentiu desse calor da alma algumas vezes na vida, a volta dessa “criança” é representada por uma palavra: incrível.

Paixão é o oposto do preto e branco. Na minha tela, no meu olhar, posso ver de novo tudo muito colorido. Consigo me projetar em meus devaneios dando pulos (rs).

Paixão nos leva a um sentimento de contemplação por si sem precisar de muito. Se paixão é uma qualidade feminina, hoje me sinto uma das mais deliciosas do mundo!

É muito bom poder se apaixonar, embora a sociedade hoje insista tanto em nos manter racionais e focados. Porque paixão tem disso, nos leva à contradição. Mas é aí que depois entra o amor, para dar um jeito.

3 comentários Adicione o seu

  1. CPM disse:

    Excelente post, acho o seu jeito de escrever incrível, com um vocabulário tão grande que quase não se repetem palavras no texto hahaha, mas indo para o assunto da paixão…
    Já faz quase um ano que essa tortura está me assolando, não só espiritualmente mas também fisicamente, faço de tudo para ser notado por este cara, para mostrar que eu estou ali e que gostaria de ter algo mais com ele, e ele não nota, e se nota, não dá uma mínima atenção. Eu já fui “apaixonado” por ele já sim, há uns dois anos, mas depois de muitos acessos aqui no blog e muitos conselhos aprendi a esquecê-lo, o que me fez muito bem, mas agora aqui está ele de novo, no fundo do meu coração, quando menos percebo já estou pensando nele, não importa o lugar ou a situação onde estou, na hora de comer algo, na hora de estudar, num telefonema, numa acessada no Facebook… Eu não tenho mais paz. Agora ele acabou com a namorada e está mais próximo de mim do que nunca, conversamos quase todo dia e a cada diálogo é uma tortura, eu sei que ele é hétero e eu não tenho quase nenhuma chance com um hétero, mas na hora que começo a pensar de mais nisso o meu coração (ou seja lá o que for que me faz agir assim) corta meus pensamentos e já me faz imaginar nós juntos. Nós somos amigos faz 5 anos, e quando percebi que a coisa era séria eu fui em seu post de “Me apaixonei pelo meu amigo hétero” o que me fez cair na real, mas agora acho que não tem salvação, terei que fazer alguma coisa porque não dá mais.
    Bom é isso, perdoe o texto mas aqui (por enquanto) é o único lugar em que posso me abrir e acho que ser entendido. Um abraço :)

    1. minhavidagay disse:

      Oi amigo CPM!

      O que posso te dizer é semelhante ao o que escrevi há alguns anos atrás no post “Me apaixonei pelo meu amigo hétero”. O sentimento da paixão é boa, nos alimenta, mas se a gente deixa assim, meio platônica, acaba nos consumindo. Paixão nos inspira e muitos dos românticos criavam as suas melhores obras nesse estado de anestesia (ou do sofrimento do platonismo).

      Mas a paixão correspondida é libertadora. Nos permite conhecer o “mundo” que é a outra pessoa, concebemos as trocas verdadeiras e a inquietação que se tem quando não temos correspondência é trocada por uma alegria importante de ser vivida.

      Minha sugestão é que, ao invés de fazer ele “perceber de todas as formas” é que você seja direto. Provavelmente haverá a recusa/rejeição, mas esse “gelo” será suficiente para você alçar novos vôos. É necessário coragem, mas é fundamental viver a libertação.

      Um abraço e se tiver novidades venha compartilhar aqui! ;)

      1. jorge disse:

        Sempre ouço falar que a melhor “solução” é contar pro cara, mas na minha opinião, fazer isso é meio que crucial pra própria vida, por que hoje em dia tem cada pessoa insensível que %@%$. Mês passado teve um caso desses na minha escola, estudo na rede sesi, e eles tem uma parceria com o senai, e algumas pessoas da minha sala estudam lá, e uma amiga minha tem um amigo gay não assumido, o mesmo mandou uma mensagem para um garoto que ele gosta falando que ele ta apaixonado pelo menino, qual era a reação dele e essas coisas, no mesmo dia todo mundo do senai e da minha sala sabia! por que o garoto que recebeu a mensagem mostrou pra tudo que é estudante! além do fato de ficar rindo do outro garoto ¬¬
        Então eu não acho que se abrir para a pessoa seja a melhor forma de lidar com isso, por que a gente não sabe qual vai ser a reação dela, e se for um caso de um gay não assumido é muito pior, sem falar que tem sempre aqueles fofoqueiros que vão tornar isso o assunto da semana!
        Mas cada caso é um caso, vai depender da reação da pessoa amada!

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