Virada Cultural – Reflexo transparente de nossa crise social

Hoje vou transcrever um post que lancei na minha timeline. Volto a falar novamente de um senso político, mas acima de tudo, de um refletir sobre o nosso critério de sociedade, essa mesma que tem acolhido mais e mais, nós, gays:

“Momento cabeção voltou porque convenhamos: na administração do prefeito anterior, duas vezes que fui na Virada Cultural, a problemática da segurança era questão mas não se manifestou a ponto de criar alarde, ou melhor, de fazer a ‘água bater na nossa bunda’ classe-mediana e virar crítica na timeline. O Kassab era coxinha? Gay enrustido? Ok, mas zelou por tal manifestação cultural no tempo que teve seu mandato.

Caminhamos para um contexto de diferenças sociais cada vez mais despidas. A crise entre e inter classes é um fenômeno real.

O ex-presidente Lula parece mais um ET debochado tratando o evento da Copa de maneira ufanista, contrariando um mal estar coletivo e social diante tal festividade e, essa coisa da Petrobrás patrocinar a própria Virada 2014, teve (e ainda tem) um cheiro fétido de mais uma ação populista.

O Brasil está se repartindo, as classes estão se fragmentando e, na minha opinião, acho que tal situação é um mal necessário. É resultado de uma sociedade que sempre depositou o mínimo de esforço para uma consciência de bem estar coletivo. A gente, salve raras exceções, vai cuidar do que é nosso apenas. É o egocentrismo de um lado e vitimismo de outro. E assim se partilha.

Os valores de respeito do que é público e privado estão uma verdadeira bagunça nesse país e tal mal necessário – dessa crise e insatisfações sociais evidentes – é de responsabilidade amplamente nossa, cidadãos ou tentativas de, porque a bem da verdade é que pouco sabemos qual é essa de ser cidadão.

Costumo ser otimista pois o ganha-ganha (material e intelectual) na minha bolha é uma realidade ainda, que mais cedo ou mais tarde pode ser afetada por tanta desordem. Mas a minha bolha é apenas um micro fragmento, é do tamanho que meus braços, conscientes, podem alcançar.

Parecemos ser filhos sem pais, órfãos largados. A ‘mãe’ que está no poder mostra uma falta de tato tremenda para liderança, mal sabe se expressar, quando é que se expressa sem os esforços de seus marketeiros. Movimenta um feminismo tão excessivo que parece machismo e ela mesmo nem sabe de nada. O ‘pai’ está lá ganhando seus títulos e medalhas, se sentindo alguma coisa mais por se nivelar ao FHC. Curioso… FHC, seu maior rival daquela coisa antiga dos partidos.

Batalhou tanto para se fazer igual sendo que sábio seria se buscasse se fazer diferente.

Nos falta mesmo a tal da educação libertadora. Estamos num funil. No mais é trabalhar, trabalhar e aproveitar pelo esforço. Me encontro numa posição que faz jus ao meu serviço, mas não é por causa disso que me sinto contente.

Esse meu “status” deveria ser de muito mais gente”.

Educação Libertadora

Tal conceito criado por Paulo Freire, educador, filósofo e petista que hoje deve estar se contorcendo em seu recôndito caixão, é uma das práticas exercidas no MVG. É a tomada de consciência de que toda (ou a maioria) das doutrinas, instituições, partidos, comunidades, escolas, famílias e movimentos tem lá seu viés opressor e, diante dessa opressão – traduzida em verdades tidas como absolutas e radicalismos acalorados – cada indivíduo adquire um espírito crítico, um senso de autoria da própria vida, que transcende tais regras e normas dos grupos e, assim, conseguem se inserir no contexto social sem culpas, livres, libertos.

Doutrinas, instituições, partidos, comunidades, escolas, famílias e movimentos – no contexto brasileiro – têm uma tendência a educar pela dependência. Uma grande maioria em território nacional quer se sentir dependente, quer criar dependentes e esse é o nosso desvio vicioso na cultura. Na esfera familiar, os termos “patriarcalismo” e “matriarcalismo” que elevam o pai ou a mãe a um tipo de altar é a tradução perfeita desse tipo de valor (deturpado).

Do Bolsa Família à situações corriqueiras dentro de nosso próprio lar, estamos constantemente criando essa cultura da dependência, gerando essa falsa expectativa de que o outro é o nosso conforto. A nossa cultura de dependência cria pessoas carentes, complexadas, com sentimentos de inferioridade, quando inferioridade vai depositar expectativas em algo ou alguém de superioridade. Essa relação é totalmente frágil.

A educação libertadora diz ao contrário: a busca do conforto ou da segurança está em nós mesmos. Família não é tudo. Tudo, de fato, é você.

Não considero essa tal de educação libertadora uma utopia. Humildemente, posso dizer que vivo já há alguns anos tal educação. Nasci num contexto familiar altamente patriarcal, quando meu pai usava de seu discurso super protetor para que eu traçasse o caminho de vida que ele sugeria. Em sua cartilha, se eu seguisse o caminho quase imposto, eu seria funcionário público, solteiro assexuado e possivelmente moraria ainda debaixo de suas asas. Fiz tudo ao contrário: resolvi ser microempresário, namorador e sai de casa contra a sua vontade.

As centenas de embates que tivemos tinha sua parcela de confronto ideológico e de geração, da necessidade de tirá-lo do altar que cobrava a mim, ao meu irmão e a minha mãe o venerarem. Mas tinha, acima de tudo, a minha própria vontade pessoal libertadora de descobrir o mundo sem assumir os medos e inseguranças do meu próprio pai. Tinha o desejo de formar o meu próprio olhar enfrentando as minhas barreiras raciais, culturais e dogmáticas. Tinha a vontade de ver além dos contextos de classes, privilégios e hierarquias.

Na educação libertadora temos disso: adquirimos uma consciência de nossos próprios medos e do que nos traz felicidade sem ter que se referenciar sob valores alheios, de pais, irmãos ou amigos.

Educação libertadora é emancipação. Deixamos de “comprar” as vivências dos outros, das doutrinas, das instituições, das famílias, dos grupos e passamos a construir as nossas próprias sob o crivo de normas e leis adotadas para uma sanidade coletiva.

Rompemos com o sentido de opressores VS. oprimidos pois tal sentimento deixa de fazer sentido.

E acredito que isso não tenha a ver propriamente e exclusivamente com maturidade, mas com processos de formação, processos mentais e um senso de autoconfiança que deve ser adquirido. Nesse processo devemos tomar muito cuidado para não nos tornarmos novas doutrinas, ou “um Lula querendo ser espelho do FHC”.

Na educação libertária o reflexo tem de ser de nós mesmos e grandes, superiores, intelectualmente emancipados.

1 comentário Adicione o seu

  1. Adônis disse:

    Eu estou tomado por uma sensação de puro asco nas últimas semanas. O partido da situação( coloco dessa maneira para não jogar a culpa só no PT) já começou o uso abusivo da máquina estatal para fazer propaganda (provavelmente o FHC também o fez, não sei) , liderado pelo Lula distribuindo impropérios aos seus blogueiros militantes( porque o “todo-poderoso” não fala com a “imprensa golpista”) e com aquele discurso revisionista raso, de que ‘mudar’ é voltar ao passado(pintado como o próprio inferno). O Lula dizendo que o Brasil é a sétima economia e mais outros festivais de números maravilhosos que nunca se atreve a mencionar um fator de CONTEXTUALIZAÇÃO!

    Me parece que a campanha eleitoral desse ano vai ser o mesmo festival de comparações entre FHC e Lula que ocorreu em 2010. Até quando isso? Será que as pessoas nunca vão acordar que não dá para adotar um julgamento maniqueísta quando se trata de contextos históricos e políticos totalmente diferentes nos quais esses partidos assumiram seus governos? Eu tenho a impressão que esse tipo de discurso ainda cativa muita gente.

    Será que esse mal estar se traduzirá em soluções políticas que emanem do povo, através do voto e de manifestações? Ou todo esse mal estar vai se render aos medos individuais que as campanhas eleitorais trabalham tão bem, em detrimento de um projeto de país?

    Estou com medo(rs) que esse mal estar seja uma faca de dois gumes, que possa resultar dele um embate de visões do país por diferentes classes com um fim positivo, que seria um estabelecimento de um ordenamento meio que impalpável, um estado de espírito mais colaborativo para com o país, ou em um “ordenamento” destrutivo, um “salve-se quem puder” diante de uma apatia e diminuição no desenvolvimento econômico e social no país que tem nos afligido.

    Daí que respondo ao Lula com seus números mágicos. De que adianta ser a sétima economia do mundo se não tivermos vontade política e cívica de sermos a sétima economia de capital humano,

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