Relato gay – Deixar fluir

Costumo dizer que as pessoas – à medida que vão acumulando experiências, desatando seus nós, amadurecendo e evoluindo – vão se tornando a melhor versão delas mesmas. Todos. Isso quando superamos nossas questões, resolvemos nossos medos e aceitamos as mudanças inevitáveis durante toda a vida com paz de espírito.

Em diversos planos da vida assumimos algumas “máscaras” e consequentemente as “caixinhas”. No trabalho como profissionais, como filhos em família ou parentes, como alunos, como namorados e assim por diante.

Durante a vida, desde as primeiras experiências nesses âmbitos (e em outros também) vamos construindo uma percepção pessoal (de nós mesmos) de como consideramos ser um bom profissional, um bom filho, um bom aluno e um bom namorado. Projetamos também expectativas totalmente pessoais nesses contextos, no trabalho, em casa, na escola e num relacionamento. Assim, formamos nossos modelos, padrões e ideias seja de maneira racional e consciente ou totalmente inconsciente, por meio de sensações e intuição.

Quando o assunto é trabalho, estudo ou qualquer outra área que não se envolva (ou se envolva menos) o emocional e a afetividade, parecemos ter mais controle e autonomia. A função nos parece mais clara, objetiva e prática.

Quando os assuntos relacionam família e, especialmente, namoro – quando a emoção e os valores de afetividade se manifestam – tudo parece ficar mais “difícil” ou “complicado”.

Seres humanos que somos, nas áreas da vida que se mistura razão e emoção, o lidar é sempre mais desafiador. Nem sempre os padrões e modelos do outro são semelhantes ao nosso e, mediante um poço de emoções que nos tornamos (mesmo que não se aparente), se a gente começa a racionalizar muito se depara com diversas inseguranças. Racionalmente, aguardamos gestos, posturas e atitudes. Cobramos e exigimos e acabamos por nos confundir.

Algo muito comum mas difícil em relacionamentos afetivos é lidar com expectativas! Acabamos aprendendo (de maneira suave ou dura) a trabalhar isso.

Normalmente, os frequentadores do Blog MVG tendem a elaborar e racionalizar bastante, ou seja, tendem a serem pessoas desse perfil. O interessante é que no “mundo Brasil” a grande maioria faz o contrário, “pensa de menos”, não desenvolve o senso crítico e não busca pelo autoconhecimento consciente. Mas aqui, por ironia da vida, costumamos pecar pelo excesso oposto: pensar demais, elaborar demais e racionalizar um tanto que acaba ofuscando ou confundindo os sentimentos, num puro exercício ou necessidade de se manter um certo controle para garantias imaginárias em relação ao outro.

Em outras palavras, todos nós buscamos segurança. Mas pensar demais pode atrapalhar!

Um pré-requisito dos leitores do MVG em geral é ser – todos – meio “cabeções”, afinal o foco do blog, de muitos conteúdos, filosofias de botequim e psicologia informal nos leva a refletir.

Mas como já sabido por nós mesmos, o equilíbrio é sempre a solução. E quando o assunto é “relações afetivas” e no caso – relações gays – por mais estranho que seja, nem o preto nem o branco são soluções. O tom de cinza parece ser mais sábio.

Para elucidar com um exemplo pessoal, que não deve ser comparativo nem para mais nem para menos com a vida de vocês, sigo com uma referência de momento de vida, das minhas buscas de superação particulares:

Estou entrando numa história afetiva nova numa época, como disse, que me deparo com a “melhor versão de mim”. E, cabeção que sou, tenho consciência que essa nova versão é um acúmulo de conquistas e crescimento:

– Parece besteira ou pequeno, mas os 3 anos de relacionamento harmonioso com meu pai, que outrora era um certo “rival ideológico de vida”, super protetor e controlador; autoritário, irritadiço e competitivo, tem me oferecido uma paz de espírito sem tamanho. Parece que uma lacuna que existia dentro do meu peito finalmente foi preenchida. Me sinto muito mais seguro, tranquilo e lúcido para tocar as diversas frentes da minha vida com menos confusão. Encontrar meu pai nele mesmo foi uma importante resolução que me oferece paz e estrutura para seguir por novos desafios;

– O autopreconceito por ser japa, mais forte inclusive do que ser gay, me deixou. Existia uma certa limitação nas escolhas das relações e das amizades para que eu tivesse uma certa exclusividade egóica ou de proteção. Não há mais nada disso, foi-se esse preconceito íntimo, o que incluiu me pegar atraído por homens ou jovens orientais com a mesma naturalidade que qualquer outra aparência física;

– O término de meu último namoro, encerrado de uma maneira íntegra, consciente e digna, sem traições a ele, sem traições a mim foi mais um passo, não porque não houve especialmente a traição, mas porque vivi o luto de ponta a ponta durante sete meses. Fui honesto comigo. Vivi um período “turvo” no qual poderia acumular algumas paqueras aqui e ali encantando carinhas com interesses mais profundos por mim apenas por garantia, de quando chegasse o tempo livre eu tivesse opções para não estar sozinho. Não segui por esse caminho comum e meus encontros na sauna 269, detalhadamente descritos aqui, me serviram para um propósito muito mais amadurecido que a aparência: se eu estivesse com tesão, subindo pelas paredes, encontraria outros com a mesma disposição na 269. Sairíamos anônimos de lá sem possibilidades de vínculos afetivos. Usávamos uns aos outros sem culpas e na mesma medida de interesses. O mesmo se realizou com o bissexual, minimamente de afetividade e outros rapazes que conheci pelos aplicativos. De certo, com aqueles que apareceram a mim com intenções mais sérias – afetuosas e de interesses de namoro – não segui em frente, não abusei e apontei para a amizade. Fechado para balança como estava, adquirir essa consciência de saber dividir desejo de afetividade, sem manipular pessoas, foi uma grande evolução mental e comportamental (para não dizer também espiritual).

Um dos resultados de tudo isso é que a minha energia da paixão tem apontado hoje para outro japinha. O encontro se deu de maneira tão natural, sem pensar, sem ficar racionalizando ou elaborando. Nos falamos desde janeiro desse ano e tê-lo como alvo das minhas emoções mais joviais e sinceras não era um propósito até umas três semanas atrás. Nesse período, já ciente do calor no peito por ele, fiquei quietinho, curtindo aquele sentimento sem criar alarde, sem querer entrar numa função “mestre do xaveco” como fiz tantas vezes no passado. Quis e quero dar uma renovada na minha caixinha das afetividades, no meu padrão de conduta.

Algo “muito louco” me dizia que daria tudo certo e, mesmo se não fosse correspondido, só o fato de poder sentir tal calor no peito por alguém de novo – provocando minha criança interior a despertar – já me era tão emocionante! Me permiti apaixonar de novo. Sai do “fechado para balanço”. Superei o passado de uma maneira honesta comigo.

Viver o “aqui e agora” continua sendo umas das máximas da vida. Não tenho pressa, não há preocupações com as formalizações, nomes, caixinhas e rótulos, embora – lá no fundo da gente (falor por nós porque conversamos a respeito e há propriedade) – a sensação é de que será pra sempre de novo. Não há preocupações e regras de conduta com o passado nem com o futuro.

Quero viver cada detalhe desse momento, do hoje, de sair para o cinema à dormir de conchinha. De cozinhar juntos, de falar besteiras, de viajar, da certeza que mar de rosas não existe e, acima de tudo, de me reencontrar melhor ainda nesse novo espelho. Porque como disse, repito e reforço aqui: relacionamento afetivo é a oportunidade que temos de olhar a si e buscar ser maior (ainda).

Deixa fluir. É a expressão da sabedoria quando razão e emoção se encontram assim por outra pessoa. Deixar fluir é o oposto de encanar, pensar demais. Levem essa lição de casa. Relacionamentos afetivos não tem que dar certo de qualquer jeito, do nosso jeito. Mas darão certo se tiver que dar. Há uma boa parcela de entrega para o imponderável e temos que nos acostumar com isso se a ideia é virar, ok?

No final também é quando essa coisa de ser gay não faz diferença nenhuma. Ficamos bobocas, palhaços e crianças como qualquer pessoa que se permite viver esse estado, o que me faz crer que estar apaixonado – além de tudo que é bom que acontece dentro da gente – é um dos momentos que elevamos todos os seres humanos a um nível de igualdade. É um estado que permite viver as nossas semelhanças.

“Levo a vida devagar, pra não faltar amor”.

Hoje, de novo, já pode tocar no MVG essa música:

 

4 comentários Adicione o seu

  1. Gabriel disse:

    Quem diria, o MVG crescendo, se desenvolvendo e descobrindo novos limites aos 37 anos, e tantas pessoas no mundo que nem vinte anos completaram e já acreditam que viram de tudo, não podem evoluir mais psicologicamente e que “a vida” tem o dever de dar a eles o que eles querem, na hora que desejarem.

    Anos atras, li um livro sobre a psicologia adolescente, que tratava das relações familiares, mas as vezes descangava para um assunto mais filosófico e com o qual todos se identificam. Entre esses assuntos, estava a diferença entre as pessoas progressivas e retrogradas. Progressivas são pessoas que aprendem com os erros e andam para frente. Enquanto as retrogradas são capazes apenas de andar para trás e nunca se autoconhecerem. E pior, possuem o dom de contaminar os outros a sua volta. Assim, nenhuma família que possua um membro retrogrado, seja o pai ou seja o filho, pode ser saudável. Mesmo depois que os filhos saiam de casa, as magoas e ressentimentos continuam para sempre.

    MVG, não e’ novidade o quanto você me inspira, e o quanto eu tenho a aprender com você, mesmo que seja muito difícil na pratica. Você e’ o maior exemplo que eu conheço de uma pessoa progressiva, que enfrenta os obstáculos gradualmente, com paciência e determinação. Você consegue se manter otimista mesmo nos piores momentos e nos maiores desafios, e mesmo assim ainda transparece um certo lado humano de tempos em tempos. Por isso, e não simplesmente por ser o autor de um blog gay, e’ que tantos outros tem uma visão idealizada de você.

    Eu ainda não consegui, e não tenho certeza se um dia conseguirei, ter todas estas qualidades. Mas como já disse antes, descobrir os próprios caminhos leva anos, e não semanas. Ainda tenho muito pela frente, ou não e’ verdade que você já tem quase o dobro da minha vida? Por isso, acho melhor seguir seu conselho e deixar fluir, como um professor um dia me disse: “os problemas que você tem hoje, daqui a dois anos não passarão de uma memória distante que não mais afetara a sua vida”.

    Sou um dos maiores praticantes da ideologia do excesso de pensamento, tanto que não consigo nem dormir direito. Sofro com desafios que enfrentarei daqui a semanas ou ate meses, e sou frequentemente atormentado por erros que cometi no passado. (o que só me leva a repeti-los de novo). Durmo cansado de noite e continuo cansado no dia seguinte. Nos dias de sol tudo são flores e a vida e’ fácil. Mas quando caem as primeiras tempestades as preocupações abundam e a auto estima vai pelos ares.

    Não sei se sempre serei assim. Vejo meu pai e outros adultos, muito mais velhos que você, presos nesse ciclo vicioso de flutuações de humor e excesso de preocupações. Ha apenas uma coisa com que discordo desse post. A idade em nada amadurece. Pessoas retrogradas e canalhas tambem envelhecem, e se você se sente mais seguro de si com o passar dos anos, e’ porque isso veio com seu esforço, e não com a passagem do tempo. Mesmo assim não custa tentar. Você não e’ o primeiro amigo a me espalhar essa filosofia de vida, e com certeza não sera o ultimo.

    Desculpe se esse post foi muito sobre mim, com quase nenhuma palavra sobre suas recentes conquistas e nova paixão. Mesmo sendo mais novo, tenho orgulho do que se passou na sua vida, um orgulho muito grande. E espero, sinceramente, que tudo de certo com esse japinha. E que um dia, irei visita-los em são paulo, de maos dadas com meu namorado.

  2. Peter disse:

    Tão bom ler essas palavras hoje! Curioso que muitas das situações citadas, foram (e ainda são) presentes na minha vida: a ‘lacuna’ familiar (mesmo os amando muito), o autoconhecimento, o imediatismo (…) e tantas outras questões a serem, por mim, superadas. Mas tudo tem sem tempo.
    ps. não conhecia o blog, passarei aqui mais vezes =)
    Grande Abraço!

  3. Paulo disse:

    Esse post de fato me caracteriza, ainda mais pelo fato de pensar demais e acabar em uma tempestade de ideias cogitadas com relação a um todo. A denotação do blog, relacionado a abordagem do ser gay é o que menos via, e até esperava nunca ver, pois gays que até hoje conheci só sabem pensar em sexo e putaria, creio que a questão das cores se adequa a isso também, de que basta ter a cor da putaria em tua vida se não tens as demais cores pra no final ter a essência de ter vivido, não gosto do termo arco-íris, mas suas cores são necessárias na vida… E retorno a assumir pensar demais, ainda mais numa relação afetiva pra com alguém muito querido, te leva a meios não muito legais a serem cogitados em sua realidade. E ainda tenho o lado, de não ser asiático e ser confundido a todo momento, já desistir de explicar isso… De nada adianta e em nada levam em consideração, simplesmente continuam a me chamar de japa, mangá entre outras coisas rs

  4. Mari disse:

    Eu to procurando algum casal gay com descendência que queira ir para o Japão. Eu sou da 3ª geração e quero levar minha namorada pra lá. Podemos fazer uma troca e nos casar.. infelizmente essa é a única forma de irmos para lá. Interessados mandem email:moraes90@hotmail.com.br

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