Vida Gay – A humanização de relacionamentos

Por relacionamentos gays mais humanizados.

Já falei aqui sobre a vaidade, característica complicada que nos serve muitas vezes como proteção/escudo. Vaidade é algo que vai além do apreço estético e que, se for parar para entender bem tal conceito, a parte estética acaba sendo um dos menores problemas.

Existem diversas formas da manifestação da vaidade, dessa que falo que vai além da estética. Vou citar algumas para me fazer entender:

– O ex-presidente Lula teimar, em entrevistas, que o povo brasileiro ir contra à Copa e comparar os investimentos mal empregados do evento com a falta de estrutura da área da saúde são pensamentos retrógrados é o puro exercício de sua vaidade. Vaidade de ex-presidente que foi idealizador da Copa no Brasil e que precisa criar raciocínios “malucos”, frases feitas, para justificar seu “grande sonho”. Orgulho, vaidade e egocentrismo fazem parte do mesmo pacote normalmente. Pacote que gera uma cegueira danada (não posso deixar de citar um aspecto político dos últimos tempos – rs);

– Quando um líder de uma equipe, intitulado normalmente como gerente, abafa boas ideias de integrantes de seu time, ou até mesmo retarda o desenvolvimento de alguns por se sentir – no fundo – ameaçado de perder seu status e seu poder, está exercendo a pura vaidade. Por vaidade, deixa de ser um bom líder, interfere com questões pessoais e está preocupado com a sua posição (ego) em detrimento ao crescimento coletivo, em prol do desenvolvimento da empresa na qual se encontra. Novamente, é mais um exemplo de miopia;

– Em um âmbito mais próximo à realidade comum, é frequente entre casais imaturos os “desânimos imediatos” quando nos condicionamos uns aos outros. “Besteiras” do tipo (que as vezes são veladas ou explícitas, quando criamos expectativas no outro), esperando que o outro nos atenda de maneira “X” ou “Y” porque se fizer diferente não há correspondência. Criar expectativas normalmente cutuca a nossa vaidade pois, raras vezes, a pessoa terá uma sensibilidade ou um “sensor refinado” para perceber as nossas demandas totalmente. Bate no ego, mexe com o orgulho e borbulha dentro da gente um caldo de vaidade.

Precisamos aprender a humanizar as pessoas, enxergá-las de maneira mais real, com menos expectativas. Sabe aquele amigo (ou você mesmo) que vive com aquele discurso-gay-clichê que “fulano é pesado”? Tal termo, “pesado”, virou meio que modinha/jargão/vício de linguagem para alguns gays nesses últimos anos. Posso afirmar com todas as letras que, quem vem demais com essa coisa de “pesado” é extremamente vaidoso/egocêntrico. É o do “não me toques”, de tecer diversas críticas mentais negativas e silenciosas em relação aos outros, é aquele que não curte, que vai sempre criar julgamentos diante de como o outro age porque, inconscientemente, só está vendo a si mesmo nas características estranhas do outro.

E fique como certo: a psicologia explica tudo isso e, se você acha o outro “pesado”, provavelmente o pesado é você que não pára de julgar.

Vamos pressupor que eu, MVG, sou alguém experiente nessa coisa de relacionamentos afetivos sérios, duradouros e íntegros. Pressupondo que isso seja uma verdade, titio vai ensinar aqui algumas dicas de como reconhecer nossas vaidades quando assunto é relacionamento afetivo:

É importante a gente lembrar que todos nós – com o perdão das palavras, mas a ideia é ser didático – cagamos, peidamos, se não tomamos banho fedemos e adoecemos. Também arrotamos e ficamos com bafo se não escovamos os dentes direito ou se exageramos na cachaça! Se a gente não lavar o cabelo vai feder também.

A gente precisa aprender a se humanizar diante do parceiro. Muitas vezes queremos “glamourizar” o relacionamento ou a nós mesmos e, com isso, sem querer, acabamos limitando o bom desenvolvimento da própria relação. Vivemos um literal conflito entre realidade X expectativas. Qual casal que é casal, que viveu alguns anos de relação, não ouviu o namorado soltar um pum na cama enquanto dormia?

Eu, por exemplo, ronco.

No filme “Gênio Indomável”, o Robin Williams narra ao Matt Damon uma situação que, com a esposa falecida, uma das coisas mais “idiotas” porém mais saudosas de sua mulher era quando soltava uns peidinhos enquanto dormia. A cena é linda, engraçada e, vejam que curioso: risível por ser tão humano.

Quem nunca foi na sauna gay pode reclamar, achar promíscuo, fétido ou animalesco. É tudo isso sim! Mas é mais do que isso para quem tiver o olhar: por experiência própria in loco, quando todos os caras, com toalhinha verde na cintura e chinelo preto nos pés estão lá dentro, não importa muito a classe social, se a pessoa veio de carro importado, carro popular, busão ou táxi, não importa o saldo bancário, o celular que tem, as marcas que usa, a raça ou a idade. Nem sequer importa o nome. Passamos a ser todos iguais lá dentro, humanizados. Semi nus, de toalha e chinelo.

Ainda exemplificando a questão de humanizar um relacionamento ou humanizar as pessoas, fundamental para que um envolvimento afetivo dê certo, trago um relato atual: eu e Meu Japinha estamos desvendado nosso sexo, tema bastante recente entre nós. Com seu consentimento trago aqui um relato pessoal e íntimo, que ilustra bem a questão da humanização (que é um conceito que nos escapa, damos pouca importância e que pode distanciar qualquer casal do sucesso numa relação): em nossa terceira transa, no final de semana, eu brochei uma hora.

Primeiro ponto importante: a gente brocha, sabia? Brochar naquele sentido do pau ficar mole, “meia bomba” e não ter Cristo que ajude na penetração!

Dei aquela pausa, busquei relaxar e voilá! O dito voltou a seu estado ascendente com uma excelente ajuda do Japinha. Tudo se resolveu para a minha “reputação”. Minutos depois, quando Meu Japinha estava quase gozando, o que nos acontece?

Escuto dele um “ai” diferente! Não foi um “ai” de prazer. Foi estranho, parecia de dor! Logo dei aquela pausa rápida e perguntei: “O que foi?!”

Ele: “Ai, deu caimbra na panturrilha” (conhecida como “batata da perna”).

Eu: “Aqui? Aqui?”.

Ele: “É, aí! Ai, ai ai!”

Eu: “Peraí, estica porque senão não vai melhorar” – ajudei a esticar. Estica aqui, estica ali.

Ele: “Ai, ai, ai,”.

Constrangimentos? Vergonha? Vaidade?

Não senhores e senhoritos! Lidamos com bom humor, graça, gracejo! Terminamos bem e “salvamos” nossa reputação chegando ao clímax (rs).

Demos boas risadas, isso sim!

Entendam esse post como boas dicas para a humanização dos relacionamentos. Idealizamos demais as coisas, queremos namoros perfeitos, pessoas incríveis, transas indescritíveis e fogos de artifício com pétalas de rosas vermelhas. Se for num iate com golfinhos saltitantes ao lado é melhor ainda! Com isso, nos afastamos demasiadamente da realidade, realidade essa que deixa bem claro: não viaja!

Lembre-se, queridos leitores, doa a quem doer, caras tortas ou literais frescuras: peidamos, cagamos, temos bafo, podemos brochar e ter caimbra!

Querem um relacionamento afetivo? Humanizem-se primeiro, livrem-se das próprias superficialidades advindas das vaidades particulares. Eis aí um bom começo.

 

5 comentários Adicione o seu

  1. lebeadle disse:

    Belo relato. A vaidade, que os antigos chamavam soberba, é o distanciamento de nossa condição humana, quando passamos a nos inflar, inchar como um tumor e acreditar que toda imperfeição do mundo está nos que nos cercam e que se não agimos certo é porque alguém nos atrapalha com sua imperfeição (maldade, inveja,etc.) isso tudo provoca uma falsa percepção da realidade, o que na psicologia se chama projeção. Acredito que, na vida gay, essa vaidade ainda conta com um ingrediente a mais que é o fato do sentimento de homofobia/auto-homofobia experimentado pelos homossexuais e que como forma de se livrar da solidão, da morte acaba-se passando para um narcisismo exacerbado.
    Entretanto chega um momento na vida do sujeito em que é necessário afirmar uma forma mais leve e crítica de viver a existência; creio fortemente que a análise/psicologia é instrumento apto a desatar esse nó górdio ou pelo menos nos dar a consciência disso.

  2. Gabriel disse:

    Haha que post mais divertido! Rolei de rir com algumas cenas, como aquela que fala do filme. De fato, e’ muito difícil encontrar um relacionamento que nada de errado, todos se entendam sem precisar de comunicação e facam tudo o que você quer. Pra não dizer impossível. Concordo que e’ importante abrir mao das vaidades e aceitar a vida como e’. Mas gostaria de destacar que, em parte por causa da sociedade em que vivemos, que nos prega o perfeccionismo e a idealização das coisas desde pequenos, isso e’ muito, mas MUITO difícil.

    Vamos começar com meu namoro, meu único assunto nos últimos tempos. De inicio, do carnaval ate o inicio de abril, tudo ia muito bem: beijos regularmente, mensagens românticas todos os dias, muitas alegrias e conversas loucas e ate presentes românticos. Quando chegaram os resultados das provas dele, a coisa mudou: ficou retraído, introvertido, só pensava em estudar e nunca podia sair comigo. No dia do nosso primeiro aniversario de namoro, ficou doente e todo o plano que eu tinha com ele foi por agua abaixo. Comemoramos depois com uma ida a uma boate gay, mas claro que não foi a mesma coisa.

    Depois ficou pior: Com a greve de ônibus no rio, ele ficou muitos dias sem ir a faculdade. E isso me desesperou. Ia perder meu primeiro namoro tao facilmente? Meu cérebro burguês, naturalmente incapaz de lidar com a frustração e os percalços da vida, entrou em desespero. Liguei para ele, mandei mensagens, critiquei-o abertamente por não esforçar-se o suficiente para o relacionamento e não atender o telefone (para depois descobrir que o cel havia sido tirado dele), pensei varias vezes na traição. Felizmente, tive uma boa conversa com amigos do ensino médio que me convenceram do contrario, de que não valia a pena trair, e que eu poderia escolher terminar com ele e cair na putaria ou permanecer fiel, não havia meio termo. Escolhi o primeiro, mais por medo de perde-lo e não conseguir achar outro do que qualquer outra coisa.

    Felizmente, depois da conversa com os amigos, melhorei um pouco no aspecto da carência. Passei a desesperar-me menos quando ele não vinha para a escola, conversar com outras pessoas e não limitar-me a ele, e segunda feira, dia 26, fui a um supermercado e comprei todo o material para sua festa surpresa de aniversario. Na semana anterior, combinamos de “dar um tempo” no namoro, para não prejudicar os estudos, pois as provas se aproximam, e poder focar a vida em outras coisas, já que essas preocupações excessivas apenas nos fazem mal. Posso vê-lo todo dia na faculdade, e conversarmos amigavelmente, mas para mim isso não era, e ainda não e’, suficiente. Por melhores que fossem as conversas, ainda faltavam as saídas nos (todos) fins das semanas, juras de amor mutuas constantes e, e’ claro, sexo, muito sexo, em qualquer oportunidade. Posso dizer que todas essas exigências são geradas pelo meu ego, alimentado e ao mesmo tempo reprimido desde a infância ate crescer e tornar-se insustentável. Exijo muito dos parceiros, e não faço o bem a eles sem esperar algo em troca. A festa sera o primeiro passo para mudar isso, pois pela primeira vez, não vou esperar uma noite de sexo (nas posições escolhidas por mim), um presente caro e nem sequer um eu te amo. Somente o sorriso do meu namorado, que me encontrara de novo depois das provas para sair e fazer amor, já sera a chama vai alegrar meu dia. E me dar forcas para suportar as provas, e os novos desafios da vida.

    Ps: essa descrição das suas transas me deu uma bela lembrança… pena que estou a a quase dois meses na seca.

    1. lebeadle disse:

      Força Gabriel na sua luta. A coisa é complicada mesmo, já travamos uma luta contra o perfeccionismo e idealização da família, superamos todo o terror imposto e quando começa um mais período tranquilo e de bonança, vêm as realidades do mundo a nos jogar novamente na angústia. Da angústia ninguém escapa mas no momento em que você pensa e não se limitar a ele e muda o foco conversa, estuda, lê, medita, a paz volta a sua vida e aumenta a resiliência para poder encarar o relacionamento com a sobriedade necessária.

  3. minhavidagay disse:

    Olá Gabriel e LeBeadle!

    É aí que está, quando criamos muitas expectativas e idealizamos o outro, perdemos a naturalidade da coisa. Por um lado, é super natural ter algumas expectativas. Por outro, o excesso de ideais nos gera frustrações e ansiedades. Perdemos o chão, que nos interfere (negativamente) em outros aspectos da vida, como o trabalho, os estudos, etc.

    Independentemente se funciona assim porque – como gays – reprimimos e potencializamos vontades, na maioria das vezes projetamos um monte de desejos, esperando que o outro cumpra ou funcione como gostaríamos.

    É a tal “síndrome do príncipe do cavalo branco” que já citei por aqui em outros posts.

    Credito a essa maneira de lidar com o outro o principal motivo dos relacionamentos não darem certo; não passarem do prefácio. Colocamos a outra pessoa numa “caixinha ideal”, criada em nossas mentes, feita nos moldes de nossas expectativas e, assim, rompemos com a naturalidade, com o sentido do “aqui e agora” e vivemos de fantasias. Desumanizamos o outro em prol de nossas inseguranças. Confundimos a pessoa real, que está a nossa frente, com a pessoa ideal (que está em nossa mente).

    É necessário cuidar, livrar-nos das intensidades esperadas, dos excessos porque, lá fora, o mundo já está cheio de intensidades, mas de superficialidades também. Lá fora encontramos todos os dias esse tal ideal, porém, superficial. “One night only”.

    Esse é a realidade atual, essa é a sociedade atual, quando jovens são formados cheios de expectativas e – quando se deparam com o “mundo real” – a curva de expectativa está sempre acima da curva da realidade. Logo, a frustração é comum e o sentido de esforço e concessões perante o outro começa a se materializar.

    Mas para quê se esforçar ou aceitar a humanização de cada um sendo que, lá fora, nas baladas, nos bares as pessoas são “lindas, perfeitas, cheirosas, não cagam, não peidam e não tem bafo”?

    Podemos trocar sim meia dúzia de noites com essa perfeição estética que o mundo nos oferece, ou entrar mais a fundo com uma pessoa só e, assim, curtir e sentir prazer na humanização. Humanização, quando ambos “mostram serviço” um ao outro, descobrem seus defeitos, percebem que nem todas as atenções imediatas serão dadas e que cada um é um ser inteiro com as próprias demandas! Não estaremos à serviço do bem estar alheio a todo momento, embora alguns vistam essas máscaras de super-heróis para se sentirem mais seguros. Aí costuma ser um prato cheio.

    Mas, cedo ou tarde, tal máscara pesa demais. É impossível ser “Super Homem” a maior parte do tempo. Funciona bem em 2 horas de filme e olhe lá.

    Na realidade, na vida real entre um casal, existe o sentido de esforço, concessões, respeito das diferenças e uma visão clara que relacionamentos não são (e jamais serão) um mar-de-rosas.

    Assim, somos muito hábeis a nos apaixonar. Nos apaixonamos com grande frequência até. Mas teremos um chão, longo, para alcançar o amor.

    Vocês viram recentemente a pessoa que é o MVG frustrado, recém chateado pelo fim de um relacionamento, quando contestei todos esses valores e outros também. Mas cá estou aqui no meu eixo de novo, tentando mais uma vez seguir tal caminho das descobertas e aceitações mútuas com meu Japinha. E tenho que confessar que, independentemente dos títulos, nomes, rótulos, e independentemente se durará 20 anos, está sendo incrível, de novo. Me sinto a melhor versão de mim podendo me envolver por alguém e fazer melhor do que ontem. Sacam?

    Essa não é a única estrada e a estrada da solteirice das intensidades está lá, gritando pra gente curtir e viver de ideais, da estética, do asséptico. Como o Gabriel disse, a sociedade moderna vende tal modelo.

    Mas não se confundam: tudo isso é fantasia. Para sentirem-se completos, o caminho é diferente. Pelo menos a mim é diferente. E a diferença se dá quando equilibramos os desejos do ego pessoal com os desejos do ego do outro.

    Relacionamentos duradouros representarão também, invariavelmente, um tipo de doação.

    Benvindos! ;)

  4. Caio disse:

    Você parece minha mãe falando; ela que gosta sempre de lembrar desse lado humano, que muitos, inclusive eu, não curtem falar sobre rs. Mas é verdade, temos que reconhecer o que é comum em nós e entender que em todos é assim, não há distinção (somente nos detalhes rs).
    E quanto a broxar, puts, eu também já passei por isso. Foi bem chato. Diferente de você, foi com um cara que tinha acabado de conhecer e, portanto, presumo que foi pior. Coloquei toda culpa em mim por educação rs. Mas o motivo maior do ocorrido foi por causa da ausência de química. Fui com muita sede ao pote, não o vi em vídeo, aí quando nos encontramos, estava um bocado diferente e isso fez eu perder a animação rs ( e olha que tentei reativar o companheiro 3 vezes XD).
    Sei que temos que levar na esportiva, pois pode acontecer e realmente acontece, mas no momento é difícil ter esta concepção.
    E para fechar, digo que eu e muitos outros muitas vezes buscamos evitar uma relação com uma possibilidade significativa de dar errado com receio de acontecer imprevistos que deixem o clima chato. Isso dificulta mais encontrar alguém? Sim, mas pelo menos quando finalmente achamos, aí é quase certo que será como o esperado.

    Até.

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