Gays enrustidos querem sair da penumbra


Sair do armário. Situação dilemática para muitos frequentadores calados do MVG e muitos outros tantos que vivem suas crises existenciais quietinhos. O mundo mudou, a sociedade se modernizou e as capitais acolhem muito bem os gays hoje em dia. Mas a questão, no final, está em nossa cabeça, dos gays enrustidos que penam, sofrem e as vezes se torturam por serem gays por mais que lá fora exista receptividade.

Para fazer uma referência para esse perfil, nada melhor que trazer um relato real no típico “antes e depois” que acompanhei desde o começo.

Ontem me encontrei com um casal adorável de amigos, um deles de contato vindo do Blog Minha Vida Gay. Estavam ávidos e felizes para saber detalhes de todo processo que foi com o “Meu Japinha” até o momento – rs. Por outro lado, na troca que é a amizade, pude olhar para os dois, na minha frente em carícias constantes e queridas dentro do Shopping, longe das famosas “áreas gays” de São Paulo. Vê-los tão à vontade, íntimos e resolvidos me projetou para o começo de tudo, quando um deles veio até a mim há aproximadamente dois anos com seu primeiro relato.

A primeira impressão foi que o tempo passou tão rápido! Já se foram 720 dias que se estabeleceu a amizade.

A segunda foi a evolução quanto a aceitação própria, vivências no meio gay e o tão desejado namoro sério. Tudo muito lindo de se ver e, certamente, se eu estivesse mais emotivo, deixaria escorrer umas lágrimas, dignas de dois piscianos que – de cara – se amam muito.

Meu amigo do MVG, naquele passado remoto, além dos pensamentos controversos, confusos e angustiantes por ser gay, vivia outros problemas: contabilizava dois casos mal resolvidos com carinhas que o haviam “usado”, naquele esquema conhecido hoje em dia, que a gente troca de beijos e sexo como trocamos de roupa e – assim como um dia eu tive – vivia seu autopreconceito por ser oriental. Resumo: gay mal resolvido, pendências com caras que jogavam o jogo moderno das relações voláteis e se sentindo inferior por ser oriental, fora dos padrões estéticos ocidentais estabelecidos.

A situação era angustiante, aparentemente sem saída e a apatia era evidente. O não gostar de si mesmo. Se sentir feio. Excluído. Contido. Tudo isso misturado em seu liquidificador mental, como muitos gays enrustidos se sentem. Ainda como um pisciano típico, todos os sentimentos desse estado eram muito mais “à flor da pele”.

Conheceu um primeiro amigo do MVG, antes mesmo de mim, e foi dando seus primeiros passos fora do casulo. Nos encontramos algumas dezenas de vezes, até então, naquela intenção de levar um pouco da “função MVG” para a vida real, com a filosofia de botequim e a psicologia informal. Encarou suas primeiras baladas e, ao se deparar com os universos estéticos comuns no meio gay, teve que olhar para si mesmo e conviver com o sentimento de exclusão: não se identificava com tudo aquilo, mas de certa forma (ou total) precisou viver daquilo para descobrir melhor um pouco mais de si, para ter referência do seu gostar e do seu não gostar.

Mexeu um pouco mais no visual. Suas roupas, sua postura eram evidentemente daquela pessoa que gostaria de passar despercebido, silencioso, se possível invisível. O primeiro passo foi mudar a armação do óculos. Depois comprou um livro sobre roupas e teve algumas dicas minhas (até que sou um bom quebra galho como personal stylist – rs). O ajudei a prestar atenção em outros tons, outras cores. Cores mais claras que dessem uma quebrada em sua fisionomia masculina.

Deixou a barba por fazer, não no sentido do desleixo, mas para dar um “tcham” mais adulto, com mais estilo.

E assim, dava seus passinhos. As vezes queria recuar e, na medidade do possível, quando queria voltar para sua concha, a gente o segurava para seguir firme nos degraus que havia subido. Pisciano, com aquela pegada natural dramática, entrava em seus “mimimi’s”. Mas aí a gente tratava de tirá-lo de olhar para baixo.

“Olhe pra frente e, quando der, olhe para cima!”.

Foi a uma viagem ao exterior para se desafiar, ir sozinho. Dei um conselho um tanto polêmico, de conhecer seus “infernos”, entrar numa balada bagaceira, do tipo sauna, e curtir horrores. Não sei se relutou, mas seguiu meus conselhos. E lá, pôde experimentar loiros, morenos, negros, latinos, orientais e – assim – dar aquele impulso no ego, romper com um senso fictício/fantasioso de que não era atraente, para parar de acreditar em seus pensamentos da autoinferiorização e notar o mundo externo, notar a si, superior (não propriamente arrogante ou egocêntrico).

Meu amigo foi crescendo, não de tamanho físico que isso seria impossível (rs). Mas de energia, vibração e alegria consigo.

Descobriu que não era de balada. Descobriu que poderia vestir roupas mais vistosas para ser percebido e, acima de tudo, para se sentir bem consigo! Passou a rever a opinião que tinha dele mesmo, opinião que carregou durante 20 e poucos anos e, em apenas um ano, foi se transformando.

No final, faltava-lhe um grande amor. Era isso que mais queria.

Experimentou os aplicativos de celular durante toda essa jornada. As vezes odiava por não ter correspondência. A não correspondência o remetia para a pessoa que era, do excluído. Mas perseverou até que um dia, por intermédio de um desses apps, foi retribuído por uma pessoa que chamou sua atenção de um jeito diferente. Diferente por não estar atento a “carne”, aos músculos, aos esteriótipos, fast-foda, camarões e cia.

Não me recordo se foram uma ou duas semanas que conversaram antes do grande encontro. O que recordo é que minutos antes de conhecer pessoalmente seu futuro namorado, escrevia para mim via Whatsapp, dividindo suas ansiedades, suas vontades, expectativas e alegrias. Só de lembrar mareja meus olhos (e eu achava que não estava emotivo! rs)

Sei que foi na esquina da Augusta com a Paulista que um correu aos braços do outro e lá mesmo se abraçaram e se beijaram. Começaram assim, acreditem.

Quase dois anos se passara e ontem estive com ele(s). Foi quando ele mesmo comentou que havia lido recentemente os primeiros e-mails enviados a mim. A sensação, nesse tempo, é que aquela pessoa não mais existia.

O que existe hoje é um amigo bonito, vibrante e feliz consigo. Muito bem acompanhado, vivendo um amor em plena sintonia que a gente percebe em 10 minutos de conversa. Existe paz, afeto e carinho nítidos aos olhos de quem vê.

Se o MVG tem uma missão, que seja missão cumprida. Eu pude mostrar algumas das portas de saída. Mas, no final, quem se encorajou e se arriscou a ultrapassar foi o meu amigo. E a brincadeira é assim mesmo: na vida, alguns apontam os caminhos. Mas quem vai percorrer, invariavelmente, é cada um.

Hoje é assumido para todos, da mãe preparar um prato especial porque o namorado vai jantar em sua casa. E isso, amigos leitores, não é conto de fadas.

Quer dizer, vira um verdadeiro conto de fadas para quem persevera.

2 comentários Adicione o seu

  1. lebeadle disse:

    Linda história, para nos encorajar a dar uns passos e sair um pouco à luz, à exposição pública por mínima que seja, a talvez ligar pra um cara que foi gentil com você pra conversar um pouco, ver um filme ou quem sabe encontrar o grande amor da vida; já diz o MVG “melhor um ano de amor que uma vida inteira de solidão”.

  2. Caio disse:

    Me vejo muito em seu amigo. Sempre fui bem escondido, querendo passar sem ser notado e visto. Tinha medo que desconfiassem de mim. Com isso, perdi muita coisa boa que poderia ter sido notada pelos outros se nao estivesse escondido. Aos poucos mudei e estou mudando. Se nao estivesse passando por isso nao daria tanto valor a coisas pequenas que vc escreveu como simplesmente mudar o ton da roupa. Perfeito!

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