Vida Gay – A sabedoria em relacionamentos


Na vida moderna acabamos recaindo numa questão bastante comum: quando sabemos que um relacionamento gay – num namoro – está vingando realmente? Super complexo responder essa questão já que na maioria das vezes os sentimentos e conexões entre duas pessoas são inclassificáveis ou não funcionam quando racionalizamos. Mas sei que uma grande questão entre nós, gays, é fazer virar um relacionamento afetivo. Assim, será que existem sinais e indícios que apontem para um relacionamento equilibrado, que há interesse mútuo, que há conexão entre duas pessoas?

Vivo um momento bastante positivo para elaborar algumas linhas sobre o assunto, somado aos meus 11 anos de relacionamentos afetivos, ao todo de 4 namoros e um casamento. Seguem assim algumas reflexões sobre o assunto:

– A primeira dica e que acaba sendo definitiva é: não pense muito. Não racionalize e não busque encontrar um termômetro da razão para tentar detectar quem gosta mais ou menos. Ou uma medida para definir quem é o outro. Nesse mesmo ritmo, do não pensar, não crie expectativas sobre a pessoa esperando que ela esteja pronta, atenta ou preparada para atender todas as suas demandas sentimentais. Pensar demais, racionalizar, criar expectativas ou idealizar acabam – em definitivo – tirando a fluidez da relação. A entrega para um relacionamento exige duas habilidades: (1) da consciência de que o sentimento que um indivíduo nutre pelo outro não deve ter como combustível as expectativas sobre o outro. Em outras palavras, quando gostamos de alguém de um jeito diferente (e normalmente sabemos quando gostamos) temos que “erguer as mãos para os céus e dar graças a Deus” por tal sentimentalidade brotar de dentro. Esse sentimento, a princípio, tem que nos bastar independentemente do outro corresponder ou não. E digo isso pela simples prática e vivência: com 37 anos afirmo que – a medida que amadurecemos, a medida que o tempo passa – esse efeito encantador de se sentir envolvido por alguém vai passando ou perdendo a intensidade. Passa, devido a um grupo de motivos: os hormônios já não são mais combustíveis para “surtos anestésicos” por outra pessoa, os calos e as vivências vão nos tornando menos eufóricos e muitos de nós vão acumulando traumas que vão nos endurecendo ou congelando. Imagine que a paixão é uma criança dentro da gente que, a medida que o tempo vai passando e as vivências vão acumulando – se a gente não cuidar – vai criando uma muralha em torno dessa criança. Confundimos maturidade com racionalidade ou dureza e criamos um cenário dentro da gente mais frio que pode adormecer essa criança. (2) quem conseguir entender o item 1 provavelmente não vai deixar essa criança adormecer por muito tempo!;

– Relacionamentos afetivos que funcionam são aqueles que permitem humanizar o outro, de uma maneira geral. Se duas pessoas são capazes de fazer brincadeiras uma com a outra e darem gargalhadas a ponto de doer a barriga, a ponto de quebrar qualquer gelo de estética, de reputação e de postura, há grandes chances dessa história ir para frente. Não é muito diferente da maioria dos filmes da Julia Roberts, quando as cenas mais “corriqueiras”, “tolas” ou “banais” acontecem entre ela e seu pretendente. Cenas que nos emocionamos. Costumamos idealizar tais momentos, sonhamos em trazer para a vida real, mas quando nos deparamos com “o cara”, o achamos tão perfeito que nos cobramos uma reputação exemplar perante o outro. Esqueçam isso. O estrogonofe pode queimar e ficar com aquele gostinho “esquisito”. A rolha do vinho pode quebrar e ficar metade do lado de dentro da garrafa. Na pressa, a meia pode ser aquela furada mesmo e temos que aprender a ser hábeis com tudo isso, tirar uma graça e retirar o outro (e você) do altar. Lembrem-se: até o príncipe William tem dor de barriga. Se você não for capaz de se render as suas máscaras estéticas e posturais e não conseguir quebrar com esse gelo, esqueça. Dificilmente a relação entra na página dois;

– Livre-se (realmente) de qualquer pendência ou migalha do passado. Boas histórias costumam ter começo, meio e fim. Se você gosta de ficar “dividido”, “multiplicado” entre algumas das pessoas que tem ou tiveram alguma representatividade em sua vida, você não deixa de ser uma pessoa insegura que não se banca! Ui, palavras duras. Mas é a pura verdade. Quem realmente leva uma história a sério não vai ficar de ficadas, aproveitando apenas as virtudes das opções. Se é mais gostoso para você curtir aqui e ali, as migalhas de um e de outro, continue assim. Mas não espere que uma dessas opções vá tomar uma consciência maior, da luz divina, e te laçar. A exemplo do filme “Malévola” (Maleficent) que está em cartaz, chegamos num modelo social que as “princesas ao léu” à espera de seu príncipe encantado já não existem mais. Não existem essas princesas, muito menos esses príncipes (que provavelmente em nosso meio gay também são princesas a espera de tal moço – rs);

– Em relacionamentos que ambas pessoas estão abertas e entregues para construir algo mais valioso e profundo uma a outra, situações “mágicas” acontecem. Uma delas é como citei acima, da capacidade de nos despirmos das máscaras e formar ocasiões nas quais ambos gargalham juntos até doer a barriga, por exemplo. As vezes acontece coisas de telepatia, mesmo. Uma delas vai dizer algo e a outra vai responder: “estava pensando nisso agora!” e vice-versa. Começa a surgir algo de sincronicidade e sintonia. Sincronicidade e sintonia normalmente são sintomas de que a relação vai muito bem;

– Independentemente de religiões e crenças, deixo aqui o meu ponto de vista: relacionamentos afetivos não são formados de apenas atração física e intelectual. É mais “profundo” do que isso: relacionamentos afetivos tem uma boa parcela de encontro espiritual. Em outras palavras e para facilitar a ideia, quando duas pessoas se atraem existe um “tesão” que vem do físico, do mental e do espiritual. Energia, por assim dizer. Se a sua pegada é predominantemente física e você faz aquela linha “inteligente” de que o outro não banca seu intelecto, você conseguiu conectar em apenas um dos aspectos. Ou seja: de fato, não está tendo vantagem nenhuma.

– Relacionamentos que dão certo exigem, invariavelmente, uma exposição mútua. Exposição mútua que se desenvolve à medida que as pessoas se permitem estar juntas. Logo, o companheirismo nas mais diversas situações vai revelar quem é quem, as coisas “legais” e as que não são tão “legais” assim. Como já disse num outro post recente, para um relacionamento virar a gente tem que acreditar bastante no sentimento que vem de dentro e aceitar que nenhum relacionamento é um mar de rosas enterno. As pessoas são diferentes! Depois, um pouco na razão/bom senso (porque como Homo Sapiens não dá para tirar o vínculo) e, por fim, entregar a maior parte para “Deus”. Deus, no sentido do destino, da fluência entre as pessoas, sem tentar criar ou buscar controles para “dar certo ou dar errado”. Por isso é fundamental canalizar no “aqui e agora”, no tempo presente, no dia após dia, sem idealizar muito o futuro. Acreditar fortemente no “eterno enquanto dure” costuma a ajudar bastante;

– Cada relacionamento provoca situações bastante diferentes e costumamos comparar com as referências anteriores. Mas quanto mais superamos nossos ideais (e acho que a gente só supera sob o efeito do tempo e das experiências) mais nos relacionamos com o outro pelo simples fato de termos alguém ao nosso lado. Quando essencialmente estamos ao lado de alguém pelo simples fato do desenvolvimento do companheirismo, mais fluido o relacionamento se torna. Lembrem-se: somos inteiros que – as vezes – nos oferecemos a oportunidade de trilhar ao lado de alguém.

Tudo isso não são ideais. Mas uma tendência natural depois de vivências e experiências pelos anos. Nos tornamos mais sábios e mais calmos? Talvez.

O amor, no final de tudo, há de ser simples. Quando invejamos dois velhinhos que permanecem juntos por décadas, estamos enaltecendo a capacidade de abstração e de superação de um pelo outro, privilegiando em primeira instância a vivência em conjunto, da união. Pode parecer papo de religião. Mas acreditem: as palavras que vêm aqui são frutos da minha experiência, percepções e observação. Depois disso, pode vir a religião ou qualquer coisa de “ser gay”.

E para os apaixonados ou para aqueles que procuram por um pouco disso, sábias palavras que já fizeram sentido para mim tantas vezes:

Dedico essa música para “Meu Japinha”. :)

4 comentários Adicione o seu

  1. lebeadle disse:

    Lendo suas anotações e me preparando para saltar no abismo; medo de tudo que não sou eu e esperando que haja em algum lugar um milagre do encontro. (Já sabendo e de certa forma antevendo que são tantos os desencontros…)

    1. minhavidagay disse:

      Uma lição, amigo LeBeadle: não crie tantas expectativas. Deixe a arte do encontro (destino) se manifestar um pouco!

  2. Segundo disse:

    Opa rapaz, gostei muito dos textos! Estou vivendo uma historia um pouco complicada. Me pego várias vezes pensando no que isso vai levar. Vi que você é bem experiente e eu ficaria bem feliz se você me falasse o que acha da situaçao. Tens algum email que eu possa entrar em contato? Obrigado!

    1. minhavidagay disse:

      Oi “Segundo”,
      tudo bem?

      Pode enviar e-mail para o queroumtoque@gmail.com. Talvez eu demore um pouco para responder pois recebo muitos e-mails!

      Abraço,
      MVG

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