Relato Gay – De volta para casa

Thiago antes de assumir que era gay a si, aos familiares, amigos e ao mundo, era aquele típico homossexual – com seus 20 e poucos anos – que incorporava o perfil tão identificável, do jovem gay que passava horas em seu quarto ouvindo música, escrevendo qualquer ideia ou poesias e assistindo a seus filmes prediletos. As vezes trocava as mensagens televisivas por livros, mas era um jovem que preferia a linguagem visual. Era aquele adolescente introspectivo que tinha uma rotina introspectiva.

Ao contrário de sua infância extrovertida e investigativa, tornou-se um adolescente muito mais fechado, ainda inconsciente de uma enorme energia dentro do peito, potencializando, que o levaria a conhecer mundos muito além do seu quadrado.

Assim como tantos adolescentes gays, Thiago passou por muitas crises interiorizadas quando se reconheceu como um homossexual. Já ciente de sua sexualidade, na faculdade, não queria de forma nenhuma trazer à tona sua realidade. Vivia o autopreconceito e, assim, assumia um tipo de personagem assexuado, meio artista e criativo. Número 1 nas aulas que envolviam tais temas. Foi a época do contato com as primeiras drogas, a começar com o álcool, passando pela maconha, loló e parando por aí nesse tempo, quando notava que seus amigos mais ousados experimentavam cogumelo, cola e tudo aquilo os deixavam transtornados! Pelo menos, pareciam sempre ficar transtornados e aquele estado era demais para Thiago.

Era uma pressão enorme, gigantesca, ver seus amigos vivenciando as experiências sexuais com as meninas e vice-versa; certa promiscuidade, troca de pares, sempre regadas com muita cerveja, maconha e euforia. Mas cada panela de pressão que somos, aguentamos o nosso tanto e Thiago era mais resistente do que imaginava.

No final da faculdade e já vivendo de longa data um certo padrão (comportamental) homossexual de conflito com o pai, resolveu buscar por uma psicóloga para solucionar tantos e infindáveis atritos. Foi numa primeira e não se sentiu a vontade. Na segunda, e na terceira aconteceu uma forte simpatia. Logo na primeira sessão disse assim: “sou gay, mas não acho que esse seja o problema maior que trouxe aqui. Preciso resolver uma dificuldade de relacionamento muito grande que tenho com meu pai”.

A partir desse marco, em torno dos seus 23 anos, logo assumiu um namoro com outro rapaz, algo que durou em torno de dois anos. Para ele, ter seus contatos sexuais “tão tarde” era levemente estranho, mas não gerava a preocupação que tantos jovens gays sentem por ter começado mais tarde.

De lá pra cá, somando todos seus relacionamentos foram 11 anos vividos em casal, contando um casamento (de compartilhar o mesmo teto) que durou quase 3 anos. Da idade dos 23 para hoje viveu um pouco mais de dois anos somados de vida solteira, bem vividos, intensos, onde pode desvendar muitas de suas fantasias sexuais. Não foram apenas fantasias, mas convívio com grupos e pessoas de mentalidades, vivências e formas de encarar o mundo de maneira tão diferente. Dos veganos “espiritualistas”, experiência Hare Krishna até gente que trabalha na noite, drag queens e DJ’s. Aprendeu a reconhecer as diferenças e os múltiplos modelos de vida adotados por cada um.

Descobriu com todas essas passagens que as pessoas têm uma forte tendência a se afeiçoar a modelos seguros, se agrupando em “caixinhas comportamentais” que vão desde a maneira de se vestir à gírias, hábitos e lugares a se frequentar. É assim entre héteros, é assim entre gays também.

Descobriu também que infidelidade, ou seja, traição é um costume que praticamente faz parte da cultura brasileira, em se tratando do gay brasileiro no caso. Homossexuais, muitas vezes, preferem corromper a relação (de corrupção mesmo) à abrir o jogo entre o par. Isso é cultural, embora Thiago queira passar longe dessa regra.

Como namorado, durante esses longos anos viveu um tipo de “função”, sendo o equilibrado e racional, que puxava a relação para uma seriedade, para que a história não desandasse. Sem querer escolhia por pessoas mais imaturas, independentemente da idade, e assumia uma posição muito paternalista que até é um tipo de padrão de relacionamento gay. Mas ele mesmo cansou do modelo, que repetiu durante anos.

Tem buscado seu jeito para fazer cada vez mais diferente.

E foi percorrendo o tempo, as vivências e as experiências que Thiago chegou aos seus 37 anos. Faz parte de sua personalidade essa certa postura mais paternal, assim como diversas outras características que formam a pessoa que é. Mas o que não há mais é o excesso, que chegava a virar um peso grande ao final de suas relações. Por acostumar seu ex-namorados assim, ou pelas próprias demandas que faziam a relação funcionar, quando o rapaz queria relaxar, ser um pouco mais vulnerável, o outro lado sempre estranhava ou até mesmo rejeitava porque queria mesmo o Thiago racional e provedor.

Hoje, Thiago começou um novo namoro. Aprendeu um pouco mais que viver o “aqui e agora” sem criar expectativas e idealizar o outro é um bom caminho. Descobriu melhor o sentido de que duas pessoas são inteiros e que ninguém é metade de ninguém. Descobriu que sincronicidade e sintonia também têm uma influência nas relações. E o mais importante, deixou um pouco de querer ser o “zelador” da relação.

Para isso, percorreu um longo caminho e uma longa busca da confiança em si. Minimizou autopreconceitos de maneiras evidentes, resolveu partes enormes dos atritos com seu pai e aquele medo de se sentir sozinho não mais o assola. Com esses pontos resolvidos foi natural a vida trazer outros perfis de pessoas para perto: superando autopreconceitos, pessoas que antes não lhe despertavam interesse passaram a despertar; reconhecendo o afeto pelo seu pai, já não precisava ser excessivamente “pai” de seus namorados nem buscava por um pai ideal por aí, nos pais dos outros; sem mais o temor da solidão, o medo de estar sozinho já não era mais motivo para estar com alguém de qualquer jeito. Muitas vezes, quando a gente está com alguém também pelo medo de se estar só, a gente não enxerga direito o outro. Enxerga o medo.

Por fim, descobriu que o mais importante não é necessariamente encontrar pessoas melhores para a sua vida. Descobriu que se buscar ser uma pessoa melhor, outros tipos de pessoas se aproximarão. Não é à toa que tanta gente do passado não lhe faz mais sentido hoje. Porque não é desdém. É mudança mesmo.

De repente, hoje, Thiago pode voltar a viver tranquilo e feliz em seu quarto.

PS: como de costume, Thiago é um pseudônimo.

2 comentários Adicione o seu

  1. Pedro disse:

    Excelente post.

  2. “Música de suspense”

    Quem é a pessoa por trás desse codinome “Thiago”? Um mistério a ser resolvido.

    Mas, mais importante de tudo: O que será de Thiago? Pois o tempo não para ^^

    Abraços do CR!!

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