Vida Gay – Sexo é um problema?


A minha sessão de terapia foi bastante interessante.

Para o post de hoje, vamos partir da máxima que “ser gay nada mais é do que a atração física (sexual) e afetiva (emocional) por outra pessoa do mesmo sexo”. Pronto.

Porém, a psique humana e as diversas intersecções com os estímulos sociais apresentam muitas outras variantes da percepção sobre a própria homossexualidade. Não é à toa que terapia é uma demanda da atualidade!

Por exemplo: pode um casal de homossexuais – que não se define como gouine – manter um relacionamento de sete anos e ter apenas 4 ou 5 relações com penetração? Pode, existe e conheço um relato real.

Foi na terapia hoje que tive o despertar de um novo conceito: muitos homens que se intitulam gays, mediante a intersecção da própria psique com a sociedade, se identificam principalmente (para não dizer apenas) pela imagem da masculinidade. A “confusão” está aí, quando “ser gay” deposita uma maior energia no rótulo, na fixação pela imagem e não na qualidade sexual e afetiva. Lembrando que o envolvimento afetivo e sexual é a base para se definir uma orientação.

Outros, mais conhecidos, são aqueles homens que gostam da “pegada do macho”, mas não se consideram gays. Assim, diante dessa pluralidade que é a sexualidade, existem gays que têm temor do sexo e existem heterossexuais que gostam da pegada masculina mas não concebem o envolvimento afetivo por outro homem. Daí, nascem as dezenas de rótulos contemporâneos que – discussões à parte – não interessam para o post de hoje. Reflitamos sobre os gays que têm rigidez pelo afeto e pelo sexo.

Trocando em miúdos: existem muitos homens gays que tem dificuldades, inseguranças e bloqueios na hora da cama. Existem gays que têm medo de sexo e/ou medo do envolvimento afetivo, ou seja, medo da entrega. Por que será que isso acontece de maneira tão recorrente e alguns gays até evitam relações sexuais? E mais: evitam assumir tal “limitação” perante seus grupos?

“A cama” deveria representar um agrupado de desejos sexuais e envolvimentos afetivos. Na cama a gente define nossa sexualidade e nossas emoções. Mas na mesma proporção existem tais gays que têm bloqueios para desenvolver o afetivo, que na mesma proporção existem aqueles que têm barreiras para se entregar para o sexo. E mesmo assim, sentem-se gays pois se atraem pela imagem (rótulo) do homem.

Os diálogos com a minha terapeuta me remeteram a conversas há anos atrás, que tive com meu amigo “Beto”, perfil de beleza, de roupas sempre alinhadas, modelo de boniteza das revistas, daqueles que os holofotes da balada brilhavam e devem brilhar em sua direção. A terapeuta de Beto havia “desafiado” meu amigo, dizendo que ele não era gay (na concepção básica e primordial de que ser gay é ter a atração física e emocional por outro do mesmo sexo). De que aquele estado de Beto seria transitório pois sua afeição/apego/fixação estava na imagem masculina (apenas) e que ele, até então, durante anos vivendo entre gays, não tinha concebido uma relação afetiva e sexual com sucesso.

Eis um contexto polêmico: será então que parte de nós realmente não é gay e que, diante das conexões entre mente e estímulos sociais, faz uma tremenda confusão, nos projetando para outros valores que não do afetivo e sexual?

Falo por mim: sou gay pois na concepção e na maneira que atuo na vida, me sinto atraído sexualmente e afetivamente por outro do mesmo sexo. É simples assim. Talvez essa maneira de pensar e sentir se reflita na minha vida a ponto de me permitir, inclusive, a ter relacionamentos duradouros e entregues, namoros amplamente narrados aqui no Blog que sempre envolveram afeto e sexo. Em outras palavras, namorar nunca foi uma questão para a minha vida. Mas como funcionam aqueles que acham que homossexualidade é mais complexa e vai além da dobradinha sexo e afetividade?

É o caso do meu amigo Beto. É evidente, para quem vê, que ele tem muitos dos atributos intelectuais e físicos para viver feliz em um relacionamento que envolvesse profundidade afetiva e atração sexual. Mas não era assim que ele se percebia, que ele reconhecia o mundo e talvez não seja até hoje.

Até o momento responsabilizamos ou culpamos os modelos sociais pelas pessoas líquidas e transitórias que existem por aí. Nos colocamos como vítimas. Mas o que realmente as fazem? Não seria tal fixação pela imagem ideal que – na mente/psique – deturpa valores, tirando o peso do que é importante e jogando luz na superficialidade? Chega até a ser lógico a ideia de que muitos gays não querem nada com nada. Nunca namoram, fazem sexo rápido, frio e casual e raras vezes liberam o afetivo (na eterna desculpa da espera passiva de alguém incrível e especial que desperte “algo mais”).

Vou retomar a polêmica de que alguns de nós “nos tornamos gays pela moda, pela estética” (não me venham com as demandas evangélicas que o foco aqui é outro). E esses, com enormes dificuldades, terão relacionamentos afetivos e sexuais pois a fixação está apenas na imagem e na reputação da figura masculina que reside em seus imaginários.

Esses gays existem sim, “mascarados”, e que no fundo fazem de sexo e afetividade grandes questões. Mas se fazem é porque talvez não sejam gays. Podemos viver também de desorientação sexual.

Vai uma terapia aí?

 

5 comentários Adicione o seu

  1. Não sei se entendi muito bem o que você quis dizer, mas esse texto me fez lembrar um outro texto que havia lido há um bom tempo atrás, em que o autor afirmava que os homens gays são gays por serem “narcísicos”, que o narcisismo se encontrava presente na maioria dos.
    Ou seja, que o homem gay procura em outro homem a própia imagem. Você citou o caso do Beto e acabei associando a essa leitura.

    Nem vou mentir que se eu for questionar sobre a minha sexualidade, essa ideologia que o outro autor apresentou estaria entre as possíveis explicações.

    – Agora relendo:
    Acho que em uma parte você quis dizer que para um relacionamento vingar, é necessário que essa relação entre atração física e emocional exista.
    Não adianta viver 100% no superficial (dado o exemplo do sexo casual, frio e sem envolvimento) e nem 100% no emocional (dado o exemplo do medo do sexo).

    Bom… Se realmente for isso eu concordo! Nem 8 e nem 80 não é? ;D

    Abraços do CRR

  2. Caio disse:

    Bom, eu diria que homossexualidade é representada mesmo por este conceito curto e grosso que você deu no começo do texto. Aliás, até incluiria aí algo que li num livro sobre o assunto uma vez: envolve o campo afetivo, sexual e espiritual. Este último refere-se ao carinho e desejo por alguém do mesmo sexo de maneira não materializada. Isso também é uma forma de homossexualidade que caso quem apresente-a pode fazê-la ser concreta se quiser.
    Ainda bem que não sou um “travado” igualmente são esses que você descreveu. Eu até digo que sou um ser meio raro ou estranho, faço sexo casual com afeto rs. Não vou atrás de rapidinha. Se descubro que a intenção é esta caio fora ou dou um jeito de torná-la mais apreciável, convencendo o cara que é melhor mudar de ideia. Mas infelizmente, uma boa parte dos “interessados” é assim “largada”. E isso é mesmo um problema.
    Se formos analisar bem afundo a questão, eu diria que ser gay é mesmo complicado, isso que nem estou falando sobre a nossa inserção na sociedade e das inúmeras discriminações a que estamos suscetíveis. Primeiro, a maioria dos homens não curtem homens; por um lado é bom, não passamos por algumas chatices que as mulheres passam e até quem sabe temos acesso a exemplares mais selecionados rs, mas por outro se reduzem as possibilidades; segundo há o aspecto do desejo e da possibilidade de chegar no cara. Se ele curte há,sei lá, no mínimo 1% de chance de algo acontecer, porém pode haver outros 99% de não acontecer; terceiro, se a intenção for conseguir algo mais que uma transa, aí complica, ainda que não seja impossível.
    Como queria que a maior parte (nem precisava serem todos, isso seria utopia) dos gays fossem mais de “boa” e fossem assim menos oito ou oitenta, soubessem aproveitar os prazeres sem pressões, mas com qualidade e apreciação. Aí se for bom para ambos e for o caso, quem sabe as relações mais profundas surgiriam com mais facilidade.

    Mas não vamos desistir né, a esperança é a última que morre XD.
    Ah eu tenho uma novidade pra te contar, vou postar num comentário abaixo.

    Valeu e até mais.

  3. Caio disse:

    Bom MVG, como disse tenho uma novidade.

    Minha irmã me convidou para ir numa festa de aniversário de um colega de trabalho dela num bar/balada há 2 sábados atrás. O local fica num ponto boêmio e nobre daqui onde moro. Resolvi aceitar para poder sair um pouco de casa e quem sabe permitir que algo aconteça de bom na minha vida. Ou até mesmo encontrar um gringo interessante, afinal estamos em período de copa rs.
    Bem, alguns amigos e colegas dela são gays e eu já estava sabendo que o aniversariante também é, então pensei que provavelmente o local poderia ser, assim, meio alternativo. E no fim era mesmo.

    Bom, cheguei lá, haviam poucas pessoas ainda, era umas 22:30 horas e perto da pista de dança já estavam dois garotos se beijando. Pronto, confirmei minha suposição rs. Os amigos dela não sabem que sou gay, pelo menos não que eu ou ela tenha contado, não sei se eles desconfiam pelo GAYDAR rs.
    Eles são do tipo mais expansivos, mais extrovertidos e…você já sabe: o estereótipo do gay que a mídia mais demonstra, ao contrário de mim. Posso dizer de maneira geral que não senti nenhum problema em estar ali e fiquei de boa.
    Mas tenho que ser sincero, não curti bem a noite, pois não me senti muito a vontade. O público que frequenta o local não faz mesmo o meu tipo e muitos ficavam olhando para mim e eu tendo que “ignorar”, sabe, não gostei muito disso, acho que sentiram que era carne nova no pedaço rs.
    Dancei meio paradão (quando não se está muito afim) e fiquei lá mais por ficar. O único carinha que me chamou atenção foi o barman, que segundo o povo de lá é hétero. Só podia né rs.
    Bom, segundo também falaram, o público que lá frequenta é diversificado, mas não foi o que vi. Só haviam garotos com calças skinny e topetes arranha-céu (inventei este termo e acho que você sabe do estou falando) kkkkkkkkk, o que eu detesto. Fora o jeito de ser, que não me atrai nem um pouco, claro em se tratando de uma relação, nada contra eles serem como querem ser.
    Mas em resumo foi interessante esta primeira experiência numa “boite gay”, ver homens se beijando e até meninas fazendo o mesmo e sentir na real como é. Só que se eu for num lugar assim numa próxima vez, espero que tenha homens com o perfil que seja do meu tipo, porque vontade de beijar até tive, mas o desejo que é bom ficou adormecido XD.
    Esse relato também vai de encontro com parte do texto acima, sobre os gostos por homens e o que buscamos neles.

    É isso aí.

  4. Gabriel V. disse:

    Achei super interessante a tal teoria do “narcisismo” citada pelo Carlos. Eu, pessoalmente, não consigo visualizar a relação entre essa teoria e a homossexualidade. Uma pessoa heterossexual também procura uma pessoa parecida consigo mesma. Eu entendi, o tal “narcisismo” é em relação à própria imagem, à aparência. Mas acima de tudo, nós, gays, gostamos de pessoas com os mesmos gostos pessoais; os heterossexuais também. Se apenas a aparência importasse, não haveria tantos divórcios. Acho que a homossexualidade é exatamente o que está dito no texto: trata-se de uma atração sexual e afetiva pelo mesmo sexo. Como ela acontece? Isso não me importa muito. Que possamos todos viver felizes. Abraços.

  5. leonardo disse:

    Cara, muito, muito obrigado pela matéria. Acabei de encontrar o blog e gostei muito. Eu já tinha lido sobre essa idealização de figura masculina e como isso pode desenvolver a homossexualidade, pois esse é meu caso; me sinto atraido desde muito cedo por garotos mas n a ponto de me apaixonar e realmente n consigo entender que haja amor romântico entre dois homens ( desculpas quem n me entender) Mas com garotas era exatamente o contrário, eu n sentia atração física mas já perdi a conta de quantas vezes chorei por “amores” – todos os casos por garotas. Na puberdade só piorou porquê comecei a desenvolver desejo por garotas, o q em vez de me ajudar a definir minha sexualidade, só me deixou mais confuso. Bom eu sempre fui muito vaidoso, sempre criando padrões de beleza masculina e os seguindo, e justamente por esses padrões de beleza que eu me atraia e me atraio. Aceitar a ideia de ser gay sempre pareceu mais fácil, até eu me deparar com a ideia de “pansexualidade” me identifique i no começo, mesmo porque n gosta nem da palavra “bissexual”, mas agora nem me entendo mais assim; as vezes só queria encontrar alguém, dane-se o gênero, que me amasse de verdade sem que fizesse do sexo coisa de tamanha importância… Enfim, o texto saiu bem confuso porque n sabia por onde começar,mas só queria expressar q, seja como for, oa matéria foi muitíssimo importante pra mim, obrigado.

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