Gay metendo o bico em futebol


Cinco minutos depois da derrota esmagadora do Brasil em campo, sai da casa dos meus pais (havia decidido assistir esse jogo com a minha mãe que tinha acompanhado as outras seleções em atuação até então) e encontrei o meu japinha.

Torcer mesmo eu torci no penúltimo jogo, contra a Colômbia. Fiz isso de caso pensando pois, assistindo brevemente a performance dos outros times, sabia que a Alemanha seria aquele adversário para se entregar à Deus. Contra a Colômbia, daria ainda para fazer aquela “fezinha” coletiva, de vestir a camisa, fazer uma farra e de impulsionar a seleção brasileira pelo coração de torcedor, energia, vibração e outras subjetividades alcoólicas. Mas com os germânicos, meu ralo conhecimento de futebol somado a uma até que satisfatória intuição, diziam que se não houvesse estratégia, espírito coletivo em campo, foco, metas e aquela participação da sorte divina, depender só dos corações e boa vontade dos torcedores de nada adiantaria.

Assim como praticamente 100% dos 200 milhões de brasileiros, não esperava tal tsunami negro que fez dos jogadores do Brasil verdadeiros bonecos molengas.

Encontrei meu japinha depois do jogo, como comentei de início. Passei no mercado, na COBASI e era evidente aquele silêncio de desânimo pairando nessas praças comerciais praticamente vazias, situação atípica – segundo os lojistas – em relação aos dias de vitória do time.

Hoje, novamente, além do contato com a minha equipe de trabalho pós jogo, notei a mesma atmosfera cabisbaixa voltando ao supermercado.

O tal “luto” veio com força: em São Paulo chegou a chuva, o frio e a atmosfera nublada para completar o cenário.

Definitivamente e com o olhar atento aos transeuntes, diversas pessoas nas ruas e nos centros comerciais, reparei o quanto essa perda, ainda mais de 7 a 1 (que muitos tratam como humilhação), abalou a autoestima geral e tirou aquela típica “alegria de brasileiro”. Tal crise da derrota de uma partida mexeu com os nossos sentimentos, lembrando que o mal estar se agravou pela perda ter sido em solo nacional e pela desigualdade feroz de gols nunca antes vista. Os alemães, embora educados, magistrais em campo, competentes e focados em objetivos de conquista, foram tratores do placar.

Como de costume, debochados que somos, tentamos curar rapidamente as dores com as infindáveis trolagens na Internet. Mas pelo que se vê por aí de fato, desse vez não adiantou muito. Na verdade estamos tristes e ainda perplexos.

Do ponto de vista do “MVG”, que traz hoje mais um post além da homossexualidade, o primeiro problema é que a sociedade brasileira tem poucos vértices de orgulho. Com tão pouco, uma perda ressoa muito mais. Assim, arriscaria a dizer que para a grande maioria dos brasileiros, nosso orgulho reside no futebol e no carnaval, dois eventos que são marcas mundialmente registradas. Nada mais.

Não temos nenhum vértice na música, a exemplo do que foram e são os Beatles para a Inglaterra, nem nas artes plásticas (Romero Britto poderia ser um deles, mas hoje é altamente criticado no Brasil por ter “se vendido” ao capitalismo). Não temos mais Ayrton Senna nos esportes e o Guga quando tentou, caiu na vala cultural do modismo e, como é a natureza do próprio modismo, se perdeu em um breve período de tempo. Não somos sinônimos de inteligência e tecnologia como o povo do oriente, nem de poder de produção como dos EUA. E, ao contrário da Austrália ou até mesmo o Chile, se temos belas fontes de natureza e paisagens, são extremamente mal exploradas por um turismo ainda que engatinha, sem incentivo governamental.

Assim, carentes, depositamos a maioria das fichas no tão abrasileirado futebol. Nos permitimos estar rendidos a uma única possibilidade de glória. Daí, qualquer manifesto de crítica contra a esse estado de tristeza, contra a esse “luto” dos próximos dias, parece crime ou motivo de desrespeito.

O mal do brasileiro, no geral, é a falta de alta autoestima e o baixíssimo esclarecimento cultural para o combate da própria baixa autoestima.

O segundo problema, pra variar por aqui no Blog, somos nós, a sociedade. Perdemos muito mais tempo nesse conflito provinciano entre classes sociais (conflito este amplamente explorado no discurso e propagandas do PT, com intuito exclusivamente eleitoreiro) e não nos focamos no senso de construção de patrimônios coletivos. Assim como o efeito Guga, nos perdemos nos modismos, na vontade de sair de baixo (quando se está em baixo) e de olhar por cima (quando se dá a volta e chega-se num ponto um pouco mais alto). Isso tudo é cultural e impregnado, queridos leitores.

Rechaçamos o Romero Britto por virar produto, mas esquecemos que quem criou essa escola, denominada “Pop Art”, cantada inclusive pela heroína gay Lady Gaga, foi Andy Warhol. Só que para o brasileiro, Andy Warhol, Keith Haring e até mesmo a Yayoi Kusama são “cool”, valem o selfie do dia numa mostra para dizer que se é “bacanudo”. Isso é também a cabeça do brasileiro, da sociedade. Romero Britto é “fela” por ter se prostituído.

Eu costumo a dizer muitas vezes por aqui que a gente aprende muito mais na dor do que no amor. “No pain, no gain” é um lema bastante crível a mim e que reforço por aqui nas entrelinhas de meus posts. Dizer assim: “o brasileiro já sofre tanto”, nada mais é que um tempero extra para a nossa cultura vitimista. Sofrer porque hipoteticamente o outro tem mais ou menos é um distúrbio cultural.

Por fim, esse estado cabisbaixo e coletivo do brasileiro pós derrota não pode terminar em carnaval, ou pelo menos, não deveria. Quando perdemos campeonatos dessa repercussão emocional e nacional, acontece o que mais evitamos: olhar para nós mesmos, revelando toda aquela fraqueza maquiada de deboche. No final, em campo ou fora dele, nos falta mesmo é levar tudo mais a sério.

 

7 comentários Adicione o seu

  1. Olá. Me apaixonei pelo seu blog! Parabéns! Escrita coerente e linguagem adequada. Gosto dos temas que você aborda, também. Tenho um blog, o arosredondos.wordpress.com e escrevo algo lá, de vez em quando. É obvio que sua linguagem também é inspiração.
    Até logo, sucesso!

    1. minhavidagay disse:

      Oi Alexandre!
      Obrigado pelos elogios. Dei uma olhada no seu blog e é bem legal! Parabéns.

      Um abraço,
      MVG

  2. caetano disse:

    Rapaz que história é essa de que o Romero Brito é “prostituído”? Aqui no Nordeste ele é gente grande. isso aí deve ser coisa de um pequena parcela da sociedade sulista, que tu conhece. rs

    E isso do Guga? rs

    Acorda MVG!

    1. minhavidagay disse:

      Legal você ter comentado Caetano!
      Eis um outro problema de nossa cultura: essa certa postura provinciana, que divide a sociedade entre sulistas, nortistas e etc. Qualquer fenômeno de fragmentação de uma nação, a mim, é sintoma de subdesenvolvimento e de uma cultura bem retrógrada.

      Abraço,
      MVG

    1. minhavidagay disse:

      “Meu Japa” é meu namorado (rs).

  3. Andou lendo meus post’s no face no dia do 7 a 1? Hehe!

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