Vida Gay – Aproveite mais o hoje e esqueça o amanhã

“É preciso amar as pessoas como se não houvesse o amanhã”.

O Legião Urbana se perpetua com suas canções por uma questão muito simples: traduz sentidos de maneira poética e melodiosa de maneira atemporal, sentidos esses que batem dentro da gente em diferentes fases da vida. Esses caras poderiam ser um de nossos patrimônios, como citei no post anterior.

“Amar as pessoas hoje” pode ter mais de um significado já que, a arte nos oferece a condição mágica de leituras e releituras. Para esse post, “amar as pessoas hoje” nada mais é do que viver o “aqui e agora” sem fantasiar demasiadamente o amanhã.

Racionalizar o amanhã é importante para que se formem planos, metas e objetivos de vida. Mas sentir o amanhã é uma ação em certa medida traiçoeira, que pode nos encher de expectativas e, por consequência, ansiedades. Ansiedades e expectativas podem nos levar à frustração e decepções ingratas.

Sei também que focar energias no hoje é uma habilidade adquirida com o tempo, com as vivências e, inclusive, com as próprias frustrações. Em outras palavras, só vivendo mesmo, tomando nossos tombos e nos reerguendo, dando a cara para bater e recuando quando necessário, que trazemos para a consciência a importância do “aqui e agora”.

De qualquer forma, ter todos esses valores em mente o quanto antes, mesmo que ainda não alcançados, é uma das garantias para nos engrandecermos, nos tornar mais autosuficientes e aumentarmos a sensação de que somos cada vez mais capazes.

Esses assuntos não se ensinam em livros e me parece que nem mais dentro de casa. Conceitos que as vezes parecem tão subjetivos que, para as pessoas com personalidades mais racionais e pragmáticas, tais percepções são difíceis de entrar na cabeça.

Viver o “aqui e agora”, no caso de um relacionamento, nos permite a não depositar demasiadas expectativas no outro. Imagine que o mundo irá acabar amanhã. Seria muito sábio aproveitar cada encontro, cada beijo, cada sorriso, cada almoço juntos e cada viagem. Quando vivemos o hoje, deixamos os problemas entrarem e saírem com muito mais naturalidade, sem desespero ou sem tornar um problema algo demasiadamente pesado para a relação.

Relacionamento é em muitas medidas um jogo de egos. Competimos quem gosta mais, desafiamos o outro para ter um tipo de prova de quanto a pessoa gosta da gente para fazer jus aos nossos sentimentos e, como se fosse possível, queremos comparar “quantidades de gostar”. Quanto mais intenso esse jogo, no final, mais chances das pessoas se distanciarem uma das outras.

Raros são aqueles que se entregam na relação pelo simples parezer de poder gostar do outro. Esperamos sempre um termômetro de sentimento e não damos conta que o próprio sentimento que se pode cultivar pelo outro já é a própria dádiva.

Dizem por aí que sou uma pessoa muito racional, mas existe uma diferença tênue entre conseguir elaborar sentimentos e racionalizar. Elaborar os próprios sentimentos é um processo de autoconhecimento e, se eu realmente fosse tão racional assim, não estaria recomendando as pessoas a praticarem o que faço tanto: “se jogar quando bater a vontade de se envolver por alguém sem necessariamente, a princípio, ter uma moeda de troca”.

É justamente a razão que nos bloqueia a uma entrega ao outro porque, em geral, tem funcionado assim hoje em dia: “quero sempre tentar gostar um pouco menos da pessoa para ter um certo controle”. O controle, nada mais é que a razão nos garantindo uma falsa sensação de autonomia sobre o outro e sobre a relação.

Vou dizer que não teria colecionado tantos namoros se fosse tão racional como dizem (rs).

Aproveitar o hoje é não ter que se bloquear ou interromper processos por medos do que será o amanhã. Não é a primeira vez que disse que é muito importante a gente ir até o fim em nossas coisas, no trabalho, nos estudos, nas vontades em geral até a última gota, para que não tenhamos que ser um acúmulo de sensações do tipo “e se eu tivesse feito isso ou aquilo, será que daria certo?”. Mas para ir até a “última gota” em nossas vontades é primordial a entrega, retirando da frente as condições (do ego).

Na verdade somos seres muito amedrontados e, aqui no Brasil, é de nossa cultura na maioria das vezes resolver nossas questões por intermédio do humor debochado. É super divertido quando se entra nesse clima. Estar no meio de pessoas com essa natureza debochada é ótimo para curtir, para festas, para diversão, para a zoeira e dar risadas. Mas na hora de viver-se a intimidade, o “papo sério” que nos apresenta 360 graus e mostra nossas imperfeições e feridas, e que fazem relacionamentos de profundidade, a coisa muda bem de figura.

A realidade há de estar acima das expectativas e a realidade é o aqui e agora.

 

1 comentário Adicione o seu

  1. André disse:

    Esse texto era o que eu precisava ler hoje. Obrigado (de coração).

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