A fila tem que andar!


Muita gente, mas muita gente por aí – principalmente os jovens rueiros que estão nos bares e baladas – se apropriam do chavão “a fila tem que andar” como uma espécie de grito de salvação, de “libertação” ou do ego que se livra de um problema para encaixotar no passado. Porém, tal expressão que parece ser tão emancipadora e de independência canaliza uma energia muita clara pra mim: da declarada dificuldade de quem a expressa em criar vínculos afetivos e duradouros.

Creio que uma das maiores problemáticas da vida moderna é a dificuldade de se estabelecer relacionamento e, esse post, poderia ser a continuação do recente “Vida Gay – 500!” que publiquei ontem mesmo.

A cultura mundial, em paralelo a um crescimento populacional gritante, tem mudado veementemente a maneira das pessoas se relacionarem. Os cidadãos hoje priorizam muito mais o crescimento pessoal e profissional e o ritmo de vida reduz cada vez mais o espaço e o tempo das pessoas desenvolverem vínculos afetivos mais profundos. Arrisco em dizer que a cultura feminista (e no rabo desse “cometa”, a gayista), da emancipação da mulher perante o “macho”, dentre tantos benefícios sociais, provocou também essa certa volatilidade nas relações. Ao contrário dos tempos anteriores, o que até poderia ser chamado de conservadorismo, quando um casal “baby boomer” batalhava para estruturar a casa, constituir a família, ter um belo carro na garagem e possibilitar bons estudos aos seus filhos, as pessoas hoje em dia objetivam muito mais ter seus bens independentes como garantia. A “luta” de um casal para ter uma qualidade de vida, passa a ser a “luta” de um indivíduo. E filhos, ah – coitados – são criados por babás ou vivem horas a fio na escola para que os pais não se responsabilizem por eles.

E nesse fluxo tão independente e emancipado, o encontro entre duas pessoas e a certa disposição para um relacionamento vingar, se torna muito mais raso. Os tempos modernos são esses, queridos leitores.

Aqueles que carregam alguns dos princípios, valores e conceitos que outrora regiam as relações sociais e que, de maneira esperta conseguem trazer para o cenário social atual, tendem a estabelecer tais relacionamentos desejados. E quando me refiro a tais princípios, não precisa ser alguém acima dos 30. Basta ter tido o olhar e a afeição por esses valores em algum momento de sua vida.

Por isso digo que noções de educação e cultura é fundamental para qualquer indivíduo. As pessoas, por falta de informação, senso crítico e clareza sobre o “chão de hoje”, andam muito desconectadas de seus próprios contextos atuais, dos contextos de ontem e não fazem a mínima noção do fluxo que o amanhã poderá nos trazer. Bem ou mal, a cultura da geração Z e Alpha não demorará para formar novos modelos e, de certa forma, “passar a rasteira” em qualquer leitor que tenha acesso ao MVG nos tempos atuais.

Relacionamentos vindouros (“vindouros”, palavra muito aplicada em décadas passadas, anteriores a minha – rs) são definidos também pelo grau de consciência que um indivíduo tem do mundo que lhe cerca, do mundo que foi ontem e do mundo que será amanhã.

Vejam bem: é possível criar intersecções com modelos de relacionamentos de gerações anteriores (aqueles que boa parte idealiza, de crescer juntos, envelhecer juntos, como representa alguns pais e avós e achamos tão lindo) com os modelos comportamentais de hoje? Totalmente! Mas arrisco em dizer, novamente, que aqueles que vivem a bandeira “da fila tem que andar” estão a quilômetros de distância de efetivamente estabelecer um namoro com vínculos pois – provavelmente sem consciência nenhuma – atuam conforme o modelo de relacionamento vigente e tendem a não ter noção dos por quês da vida.

Por quês da vida. Eis outro tema bastante comum hoje em dia: jovens até mesmo da minha geração passavam a erguer tal ideia de não se preocupar com os tais “por quês” e viver a vida sem rumo. Ora, negar os por quês é praticamente assumir uma postura inconsciente, quiçá inconsequente. Vou dizer que se eu tivesse vivido somente dessa fonte do “carpe diem” não teria estruturado minha vida e, possivelmente/totalmente, o MVG não seria fruto de meus ideais. Se tenho amigos da minha geração tentando se reencontrar hoje em dia, muito provavelmente é porque perceberam que os tais “por quês” são necessários, sooner or later. Tendo a gostar do sooner.

Assim, para concluir, se a fila tem que andar para você, aceite também a sua condição de muito mais descartável. Pense nisso.

1 comentário Adicione o seu

  1. Além disso, as vezes tenho a leve impressão de que o fato da ideia “Metade da laranja” ser trocada pela “Somos completos” ajudou um pouco esse individualismo atual. Tudo gera uma consequência.
    Particularmente, ainda prefiro acreditar que não somos uma metade da laranja, mas sim completos. Isso, de certa forma, não nos torna dependentes do próximo em um relacionamento.
    Não que seja desprendimento, egoísmo, ou coisas do tipo, mas acredito que isso gera seres mais pró-ativos, que não ficam esperando a atitude do outro no relacionamento.

    Nisso, vejo que a ideia “A fila tem de andar” não serve como uma “libertação” ou desprendimento, mas um pequeno aviso de que as coisas continuam e não devem se estabilizar. Eu utilizo essa frase para com meus amigos (que uma vez ou outra necessitam de ajuda) como uma forma de dizer o seguinte: “Você fez o possível para dar certo, mas infelizmente não vingou”, ou, “Não adianta prender-se a algo que claramente já terminou. É hora de seguir em frente e procurar novos amores, afinal, a vida não é feita de um amor, mas de vários”.

    Agora, se esse amigo tentou, lutou, ou fez o suficiente para o relacionamento dar certo são outros 500. A fila tem de andar? Tem! Mas isso não é um motivo para se descartar um relacionamento tão facilmente.

    Abraços do CR!!

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