A diferença entre fidelidade e lealdade


Li recentemente um texto de Ivan Martins – colunista da Época – sobre um tema bastante frequente aqui no Blog MVG: a diferença entre os conceitos de fidelidade e lealdade.

O conteúdo me inspirou para esse novo post, que poderia ser aquele tipo de trabalho de faculdade, quando fazemos uma análise crítica sobre um artigo ou até mesmo uma continuação, agora, com a minha maneira de traduzir tais ideias no Blog.

Existe uma diferença tênue entre fidelidade e lealdade. A primeira, amplamente abordada por aqui, trata do senso de respeito, da não traição perante a pessoa amada ou, aquela pessoa que se definiu formar um par. Diria que a segunda – a lealdade – é mais ampla, contém a fidelidade e ultrapassa os limites de um relacionamento amoroso.

A fidelidade subentende o comportamento da não traição de um para com o outro num contexto de amizade, namoro ou casamento (normalmente nos últimos dois casos é mais claro). Já a lealdade expressa valores ideológicos, amplos, da maneira de um indivíduo se comportar e se posicionar perante à própria vida. Pode ser um conceito tão forte e enraizado nos valores de um indivíduo que o ser leal não carece de entrar em questões de fidelidade, questões essas que são menores, egóicas.

Foi na leitura do artigo de Ivan Martins que percebi que a maioria das vezes que citei a fidelidade pelo MVG talvez me referisse à lealdade.

A lealdade a si e entre pessoas é aquela que perpassa a condição de namorados, do controle, da posse e das diversas regras egoístas que o status “namorando” provoca dentro da gente quando estamos em um relacionamento. Em certa medida (ou grande medida), quando falamos “MEU namorado”, “MEU relacionamento”, “MEU marido”, tornamos o outro um objeto. E quando se é “MEU” a necessidade de fidelidade se manifesta.

Sigo abaixo com alguns exemplos de postura de lealdade na minha vida, para que os leitores do MVG se identifiquem ou entendam melhor a diferença de tais conceitos:

– Tenho uma amizade que se desenvolve há mais de 20 anos. Meu amigo é heterossexual e nessas duas décadas estivemos muitíssimos próximos, de nos encontrar todos os finais de semana. Em outros momentos ficamos quase um ano sem falar pessoalmente. Nessas idas e vindas de aproximação e afastamento físico nunca colocamos em jogo a própria amizade por estarmos distantes. Nunca fui apaixonado por ele, nem vice-versa e, assim, não se concebeu algo de sentimento confuso ou duvidoso que pudesse tocar em questões de fidelidade. Durante quatro anos, recentes, ele ficou bastante doente e pude estar presente acompanhando-o nessa instabilidade de saúde. Superado as doenças, nos últimos dois anos começou a voltar à sua realidade e rotina sem depender de médicos, remédios e quartos de hospitais equipados. Com a autonomia que adquiri, sugeri a ele que fizéssemos uma viagem para o exterior esse ano, em alguma cidade que já pisei, para que ele pudesse ampliar suas fronteiras, longe do sentimento de clausura e limitação que se fez por tantos anos. Claro que viajar é algo que naturalmente me beneficia, mas ter sugerido a ideia especificamente a esse amigo – que ainda tem certa dificuldade de mobilidade – teve um propósito além;

– Meu ex-namorado, de um relacionamento de praticamente 4 anos, mantém contato comigo. O “amor de namorado”, o tesão e a paixão se transformaram e questões de fidelidade não são mais pauta em nossos assuntos. Porém, somos até hoje leais um ao outro, no sentido de apoio quando um precisa, principalmente com palavras e conversa. Poderia se chamar amizade, mas é lealdade: reconhecemos que quatro anos não são seis meses. Atuamos em áreas congêneres, somos parceiros de trabalho e sempre trocamos serviços numa torcida para que ambos alcancem seus ideais profissionais. A importância de fidelidade, enquanto namorados, não faz mais nenhum sentido pois tanto ele quanto eu podemos ser felizes com outros em nossas vidas agora. Aceitamos essa realidade. O que se estabeleceu e tende a se consolidar é o senso de lealdade;

– Minha ex-sócia atuou durante sete anos comigo e a nossa empresa foi seu primeiro trabalho. Alguns anos antes dela se desligar, brigávamos muito por ideais: eu queria mudar para crescer e ela tinha uma tendência a querer manter o modelo. Brigávamos sim, discutíamos a todo momento, mas conseguíamos esquecer nossas diferenças e nos tratar bem todos os dias. Ela saiu em paz e seguiu seu caminho. Hoje, quando passa perto da empresa, vez ou outra toca a campainha, entra, bate papo, lembra das histórias com humor e – mutuamente – preservamos nossa afeição mesmo que distantes, do querer bem, sem falar pessoalmente por meses;

Lealdade ultrapassa há quilômetros a exigência da presença. Lealdade é ideologia, é a mentalidade leal perante a própria vida e perante aqueles que se aproximam. Talvez, a viagem que vai distanciar eu e Meu Japinha durante um ano seja a desculpa para a pura prática de lealdade, que faz 12 meses parecerem tão pouco tempo.

Como o Ivan Martins concluiu, deveríamos exercitar mais o nosso senso de lealdade. Mas como praticar mais tal virtude em um contexto onde boa parte não é leal aos próprios sentimentos?

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