Relato Gay – Marido, pai de dois filhos e gay

Não são todos os e-mails que recebo que lanço aqui no Blog Minha Vida Gay por um motivo simples: muitos dos relatos são semelhantes, quase que repetições de confusões amorosas e aquela vontade juvenil de desvendar se determinado amigo é gay. Infelizmente, não sou bidú (rs) e fica bastante difícil dar conselhos para os leitores que desejam determinado amigo e fantasiam comportamentos que fazem crer que o tal é gay! Quero lembrar que, com a falência do machismo – homem macho – amigos heterossexuais (e obviamente gays) podem se tratar hoje com muito mais gentileza e carinho. Claro que isso não acontece em todos os grupos sociais, mas os estímulos para formação desse homem mais delicado (ou metrossexual) é uma realidade.

Assim, aos leitores que não tem seus e-mails publicados no Blog ou até mesmo não respondidos, peço para que não se chateiem! Busquem os temas relacionados de seu interesse no Blog MVG porque, se não respondi ou não postei, certamente têm vasto conteúdo por aqui. Ok? Sem ressentimentos! :D

Vez ou outra recebo relatos de homens gays casados com suas esposas, com filhos, vivendo a antagonia entre a heteronormatividade e a real orientação sexual. Acho que o tema é sempre benvindo no Blog MVG por um punhado de motivos:

– Serve como um tipo de alerta para aqueles gays enrustidos (pseudo heterossexuais que no íntimo sabem que são gays e não tem problema de se intitularem assim intimamente) prestarem muita atenção em suas escolhas que à longo prazo podem trazer consequências bastante intensas e traumatizantes. Reprimir profundamente a homossexualidade em detrimento aos anseios e expectativas do círculo social, pais, irmãos e amigos pode ser um grande problema no futuro. Velha história: quanto mais profunda a raíz, mais difícil de transplantar;

– Funciona bem para os gays que não se atrevem a se envolver demasiadamente em relações heteronormativas. Podemos não dar pintar, até ficar vez ou outra com uma mulher. Mas se deixar levar pelas expectativas e cobranças sociais pelo “caminho normal” pode trazer os mesmos prejuízos e dissabores expressos no primeiro ponto.

Relato de “EA”:

Boa tarde MVG.
Admiro seu modo de lidar com a sua vida e desafios: me dão paz .

Tenho 35 anos, sou casado e tenho 2 filhos.

Moro no interior onde trabalho com minha esposa. Nos conhecemos na faculdade. Namoramos 1 ano e após formados ela engravidou e nos casamos. Sempre nos demos bem – amizade, companheirismo, apoio mútuo, fidelidade. Podemos até dizer que éramos vistos como o casal perfeito: nunca brigávamos. Mas alguma coisa nunca ia bem: sexo . Stress, depressão, dia-a-dia corrido: tudo era uma explicação .

Sentia atração por homens há anos. Desde a infância. Gostava demais de alguns amigos – às vezes tanto que tinha ciúmes quando eles paqueravam meninas. Estar com esses amigos me preenchia de tal maneira que poderia ficar meses sem querer “ficar” com uma menina. Levar murros de brincadeira, abraços então… era tocar o céu . Foi assim na adolescência, faculdade. Mas às vezes batia algo – uma falta de não sei o quê, choro sem motivos, saudade do amigo. Masturbação: era só com fantasias e figuras masculinas.

Até que há 1 ano conheci uma pessoa que mexeu comigo. Não sabia que o colega de academia com quem corria era gay. Um belo dia durante o pré-treino ele vira e me fala: “Sei qual o seu conflito . Você gosta de homens, né?”. Meu chão se abriu por debaixo dos meus pés. De amigos a algo mais, um pulo. Após o pico da paixão e da descoberta do sexo com amor veio o conflito: o que fazer com isso tudo? Três meses de cama, depressão total. Vontade de sumir. Crise no casamento, assumi que era gay para família e amigos mais próximos. A cidade toda ficou sabendo. Termino o relacionamento com o “namorado”.

Abri meu coração para minha esposa: “tenho atração por homens. Não dá mais”. Ela desconfiava de que estava tendo um caso. Saí de casa. Dá-lhe terapia, antidepressivos. Minha esposa fala que vai voltar para a casa dos pais com os nossos filhos – a 2 horas de distância. Não aguentei: além de tudo isso perder o convívio com as criaturas mais lindas do mundo – meu filhinhos.

Após meses de choro, terapia, decido voltar para o casamento. Do jeito que a coisa ia a tragédia estava feita. Tudo muito traumático. Ia perder tudo que havia construído – com amor – por conta da minha homossexualidade.

Hoje continuo em terapia. Vivo uma grande amizade com minha esposa – mas sei que não me preenche. Meu casamento é baseado num amor não romântico – mas de amizade . Também é amor . Mas não se sustenta . Sou casado mas ao mesmo tempo parece que vivo só – sinto falta de carinho, de sexo . Quanto tempo vai ser assim ? Depende de mim .

Será que para ser homossexual terei que perder a convivência diária com pessoas que amo? SIM. Minha esposa vai continuar minha amiga? Por mais que ela seja uma pessoa especial, NÃO. Até que ponto devemos seguir nosso íntimo, nossa alma? Planejo fazer da melhor maneira possível, de maneira digna. E existe divórcio tranquilo? NÃO. Vale a pena perder tudo? O que irei ganhar com isso? Serei mais feliz?

São resposta que busco no meu íntimo . Estou seguindo os meus passos em direção à minha verdade.

Ao post da menina que se apaixonou pelo amigo gay aqui está um futuro não muito promissor pro relacionamento dela.

Abraços MVG.

Comentários do MVG:

Oi EA,
tudo bom?

Seu caso – e isso talvez te conforte – é bastante comum e já recebi dezenas deles nesse tempo de Blog MVG.

Existem muitos gays (que se entendem como tal) ou homens sexualmente confusos que assumem um relacionamento normativo e sofrem certas consequências por essa escolha.

Acho você bastante corajoso por ter assumido para sua esposa, embora tenha “voltado atrás”. Posso imaginar o conflito que você vive, não conseguindo encontrar reais intersecções entre o “mundo hétero” e o “sentimento gay”.

Vivemos determinadas regras do jogo e quando nos afastamos delas sofremos certas rejeições e ameaças e isso é um grande problema. As pessoas normalmente radicalizam quando atitudes infringem as “leis” de suas caixinhas porque determinadas verdades – a fundo – desestabilizam, mexem com a moral, com costumes, com a tradição e etc.

Assim como você que optou pelo caminho da heterossexualidade, mesmo sabendo que lá no fundo sempre foi gay, o que costumo aconselhar é que tenha muita paciência. Sei que as mentes poderiam ser mais libertárias, sei que as pessoas poderiam ser mais leves nas questões do afeto e amor, desprovido do sexo, mas nascemos inseridos em certos modelos e padrões que, quando resolvemos entrar e viver dentro, fica difícil de querer rever e transformar.

Excelente relato para mostrar aos leitores como nossas escolhas geram consequências.

Obrigado por colaborar com a sua referência que significa mais conhecimento para mim.

Um abraço,
MVG

3 comentários Adicione o seu

  1. Gustavo disse:

    Olá MVG,
    como coloquei no email, “quem é vivo…”

    Olá EA,
    sou leitor contumaz do blog, conhecido do MVG, e andava quieto desde que certas mudanças aconteceram em minha vida. Mudanças que aproximam um pouco minha história da sua. E por isso msm não pude deixar de comentar este post.
    Entendo sua angústia cara.
    Sei que isso não ajuda a resolver seus problemas, mas como o MVG disse, você não está sozinho. Não mesmo.
    Somos muitos em situação semelhante…
    E apesar de ainda não ter resolvido completamente minha situação, posso te dizer, com toda a serenidade que consigo encontrar agora, que a pessoa mais importante da sua vida é você, cara!
    Por mais amor que haja entre vc e sua esposa (e eu acredito sinceramente que haja), e pelos seus filhos (de que vai servir pra eles um pai deprimido e incompleto?), vc deve ser, em algum momento, sua preocupação principal.
    Essa é minha humilde opinião.
    Se quiser trocar uma ideia, peça meu email ao MVG.
    Responderei com prazer.
    Abs,

    1. EAS disse:

      Gustavo obrigado pela sua resposta . Estou fazendo terapia e está sendo fundamental na minha vida . Estou trilhando o processo – mas passo a passo, sem pressa . Tentei fazer meio que de supetão mas se a gente não elabora as mudanças dentro da gente não conseguimos ir em frente .
      Tenho interesse sim em saber sua história e vou pedir o e-mail para o MVG.
      Abraços

  2. herlon max disse:

    Nasci para ser feliz….Quando comecei a sentir que eu tinha atração por homens….fiquei brigando com os meus conflitos.Mas o meu EU foi mais forte, eu decidir que seria feliz independe de qualquer coisa meus pais eram felizes no casamento deles, porque eu não seria? porque eu tinha que obedecer os mesmos fazendo a vontade deles sendo infeliz no sentido da sexualidade…assumir com 22 anos. Não sou afeminado mas sou feliz.Onde eu sofro muito é por amor por ser honesto e dedicado ao meu parceiro eles sempre me sacaneam.Mas tiro isso de letra . Abraço

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