Relacionamento com o relacionamento

“Antes me sentia Áries, o Deus da Guerra na frente da batalha, protegendo meus fiéis companheiros. Era aquele mais resistente, sendo o primeiro a tomar as porradas dos dragões. Hoje me sinto Apolo, o Deus que intervém de longe”.

Não é à toa que o tema “relacionamento” seja um dos mais procurados no Blog. Não tem essa fama apenas quando se refere à afetividade. É cercado de desafios, provações, questões e sensações e traduz o desejo do homem lidar com o homem nos mais diversos campos.

Existe uma certa mágica em torno dos relacionamentos. O que faz amigos conviverem há 10 anos, ou parceiros de trabalho atuarem em conjunto há 15 ou namoros ultrapassarem 4 ou 5 anos e, mesmo depois que findam, se perpetuem na lealdade?

Filósofo de botequim que sou, me atrevo a ensaiar sobre o amor, mas não me sinto capaz de traduzir tal mágica do relacionamento. Nem quero.

O que sei é que a maneira que nos relacionamos tende a mudar com o tempo. Vejam vocês que durante 11 anos de empresa (hoje ela tem 14) a maneira que me relacionava com a equipe se configurava de uma forma totalmente diferente de como é nos últimos 3 anos. Nesse chacoalhão e mudanças, algumas pessoas logo se foram, outras – bem diferentes – se aproximaram.

Até não só com as pessoas do trabalho, mas com os amigos, meus pais e meus familiares passei a me relacionar diferente, tudo junto e misturado.

É curioso: até bem pouco tempo atrás, perante os amigos, eu tinha uma vontade absoluta de liderar o grupo. Era o pró-ativo que combinava os encontros, os lugares e me prontificava a chamar um a um (quando não existia a flexibilidade de e-mails e, posteriormente, das redes sociais ou Whatsapp). Era o agregador com muita vontade. Nessa posição, colhia os louros por ser o idealizador, mas quando alguma coisa não saia bem no agradar dos “gregos e troianos” acabava sendo eu o responsável.

Hoje me sinto um pouco agregador mas com outro tipo de fluência.

Até bem pouco tempo atrás, fazia questão de preservar uma inquebrável lealdade com meu primeiro namorado. Me gabava por perpetuar nosso contato como “eternos amigos”, de anos incontáveis com os dedos das mãos.

Ao me relacionar com meu pai, não faz tanto tempo assim, tinha uma necessidade de provação e aprovação intensa. Uma necessidade de transformá-lo em meu “pai ideal” ou percebê-lo próximo da minha idealização nem que fosse em momentos passageiros durante o ano. Ao me relacionar com ele tinha que também mostrar algo dos meus feitos positivos para que ele demonstrasse pelo menos um pingo de orgulho, mesmo que reticente.

E não faz tanto tempo assim que a função de certa forma servil ou paternal aos meus ex-namorados definiam a forma d’eu me relacionar com eles.

Não sei em qual curva ou reta da vida que tudo isso se transformou. Mas sei que é algo que começou a se manifestar nos últimos três anos e hoje se consolida com o pré-acordo com meu sócio, que durante 13 anos me acompanhou e que se desligará da empresa no final de 2014.

A sensação que me dá é que ele representa o último “adeus” de um jeito de me relacionar que hoje não faz mais sentido a mim.

Vivi um momento de inversões muito representativo. Outrora, buscava uma visibilidade e uma presença marcada perante meus amigos. Tão forte era que os encontros funcionavam da minha maneira, talvez porque não dava espaço para que eles mesmos opinassem. Afinal, eu era “Áries”.

Outrora, meu primeiro namorado – que em alguma medida sua presença representava um marco em meu imaginário para alguma coisa que me parecia uma conquista – me parece hoje apenas alguém que convivi no passado e que se tornou tão outro agora que não me parece identificável.

Como já sugeri em outros posts, hoje consigo enxergar meu pai humano que é. Seus comportamentos estranhos que antes me causavam desilusão, são engraçados, do senhor que sempre foi um “bebê mimado”, carente de atenção e competitivo com os próprios filhos – rs. Me sinto pai do meu pai e, apesar da arte e dos mais velhos sugerirem tal verdade, não acreditava que fosse possível acontecer comigo.

Com meus ex-namorados hoje, me parece que, lealdade mesmo, faz sentido ter apenas com o último ex e, claro, com Meu Japinha.

E por fim, e não menos importante, depois de 13 anos de um relacionamento diário, de segunda a sexta, meu sócio não é mais o aprendiz que começou ao meu lado com 16 anos e eu não sou mais o mestre que começou a ensiná-lo a escrever melhor e falar melhor quando éramos tão novatos. Meu sócio hoje, como resultado de nosso longo convívio e experiências – praticamente um casamento de mais de uma década (ou meu “namoro” mais vindouro) – se tornou um mestre e quer buscar sua nova felicidade em outros ares.

Justíssimo. Já faz algum tempo que percebo a missão cumprida. Já faz certo tempo que a sensação de desapego se manifesta.

Será que acontece com todos essas transformações? Não sei, mas são esses movimentos que identifico em minha vida nos dias atuais.

Creio que tenho me dado a chance de me relacionar melhor comigo mesmo. Me enxergo em outros de uma maneira muito diferente.

PS: Curioso notar que o tempo de existência do Blog MVG bate com o momento de todas essas mudanças.

 

1 comentário Adicione o seu

  1. lebeadle disse:

    Você falando em Filosofia colocou duas coisas interessantes que vi esses dias em Lévinas, o dito “filósofo da alteridade”, o conceito de relacionamento, que para ele tem a ver com a busca do Infinito, logo estaríamos sempre sedentos de relacionamentos, no sentido de criar, desenvolver e conservar os relacionamentos e conjugado com tal conceito vem o de compreensão que significa apreender em nós o outro, que é algo impossível dada a condição humana de constante modificação na compreensão de fatos, pessoas e objetos. Por exemplo, a questão do primeiro namorado que antes era visto num determinado viés de conquista e agora é apenas uma lembrança do passado; ou mesmo o pai-modelo a quem se deveria provas de sucesso e agora é uma ‘criança mimada, disputando atenções com os filhos’ (gostei desse comentário demais!). Vi essa postagem e só lembrei disso, querido.

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