Relato Gay – As diferenças morais e sociais em um relacionamento

Recebi um relato bastante interessane do leitor “Er”. Ele é usuário recente mas deixou a sua história afetiva e amorosa tocando três assuntos que sempre trago à reflexão por aqui. Vale a leitura de seu caso e meus comentários.

Relato de Er:

Olá MVG,

Leio o blog a pouco tempo e o encontrei por acaso enquanto procurava sobre relacionamentos gays. Vou relatar meu problema.

Eu tenho dezoito anos, me chamo “Er”. Durante uns dois anos namorei com um garoto mais velho que eu (25 anos), no começo do meu namoro com esse cara ele era enrustido, não queria nem que eu andasse perto dele quando íamos ao shopping, enfim, fiquei nessa tormenta durante seis meses até que resolvi falar para ele que ou ele se assumia ou acabávamos o namoro, isso porque eu já era assumido na época e a minha condição sexual sempre foi bem resolvida e discutida na minha família.

Com muita insistência ele resolveu contar para a família dele. Foi um pandemônio, e quase dois meses para a família dele começar assimilar a ideia e discuti-la civilizadamente. Passando um pouco o tempo depois que ele contou, o F. disse que queria me levar a casa dele para conhecer a família dele, quando ele me disse fiquei animado e fui todo pimpão para casa dele.

Chegando lá estava toda a família dele (pai, mãe e irmãos), era um almoço e me comportei adequadamente. Só que a conversa levava rumos completamente homofóbicos e por vezes também misógino e o que deu a perceber foi que os pais deles pareciam me culpar pelo fato do filho deles ter “virado” gay (sabem de nada inocentes).

Depois desse almoço, teve jantares, festa de natal entre outras comemorações e eu sempre escutando piadinhas de tios e primos dele, até amigos! E o F. sempre mantendo uma postura apática e me dizendo que eu teria que se acostumar. Até que chegou um ponto que eu não aguentei, chamei os pais deles para uma conversa, disse poucas e boas e não voltei mais lá.

Depois de um ano e meio nosso namoro começou a ruir, com o F. me traindo dia e noite e se transformando, virando uma pessoa que eu não conhecia, uma mistura de canalha com galinha. A gota d’agua veio num dia que em que ele disse que eu estava com ele por interesse por trabalhar na agência de marketing do pai dele e ganhar acima da média. Terminei o namoro no ato.

Três meses se passaram e meu pai veio a falecer, o homem que sempre me apoio e me deu toda compreensão possível. Com a morte do meu pai veio a ruina da minha família. Minha mãe perdeu a casa por motivos de dívidas estratosféricas, teve que vender o carro e acabar com o padrão de vida que vivíamos. Da noite para o dia eu me vi deixando minha casa em um bairro bom em São Paulo, para ir morar no subúrbio do subúrbio em uma casa de laje de 4 cômodos, vendo minha mãe ter trabalhar de faxineira para sustentar eu e minha irmã.

Passou-se mais um tempo, nossa vida melhorou um pouco mais não conseguimos encontrar outra casa. Facilmente encontrei um emprego numa agência de viagens como consultor de intercâmbios.

Já tinha esquecido meu ex, mesmo com os insistentes telefonemas dele para voltar, e não estava pegando ninguém e tentando construir uma carreira. Até que surge o G.

Conheci o G. num site de relacionamentos, marcamos um encontro no shopping, fomos ao cinema e ele me disse que era enrustido, não era assumido para ninguém. Aquilo foi um balde de água fria. Todo os problemas do meu relacionamento passado começaram a passar pela minha cabeça, mas no fim acabei ficando com ele, e beijando muito. O que o G. não tinha me dito era que eu tinha sido o primeiro garoto que ele tinha beijado.

Voltei para casa pensando no que eu fiz, no outro dia o G. tratou logo de marcar outro encontro, eu aceitei, mesmo lembrando de tudo o que eu tinha passado com um namorado no armário. No dia do encontro marcado, eu desmarquei, disse que não podia ir porque eu iria sofrer e etc… Teve muito choro, aperto e angústia.

No outro dia reservei a viagem para a Índia que eu tinha ganhado da dona da agência pensando em esquecer tudo o que tinha acontecido, mas o G. não saia da cabeça. Dormia pensando nele, acordava pensado nele… Eu estava gostando dele.

Liguei para o G. e disse que queria reatar, ele logo aceitou e me buscou para passar a noite no apê do pai (tinha viajado) dele. Não vou negar, quando eu pisei naquele apartamento tive a perspectiva da vida que eu poderia ter ao lado dele. O apê era de uma sofisticação impar, com um trabalho muito bem feito por um decorador, cheirava a dinheiro. O pequeno fato que o G. não tinha me falado era que o pai dele era dona de uma construtora.

Transei com ele naquela noite (foi a primeira vez dele), não só uma vez, mas três e dormi muito bem naquela cama de lençóis de dois mil fios. Quando acordei me perguntei se estava gostando do G. ou da vida que ele poderia me oferecer. Essa dúvida me persegue até hoje.

Os dias se passaram, o G. me pediu em namoro, aceitei, e eu fico me perguntando se estou disposto a passar tudo de novo, pois ele não é assumido, não quer demostrar carinho comigo em público e treme só de pensar em se assumir para a família.

O que piora a situação é que o G. tem uma postura totalmente hétero e foge de estereótipos gays. Ele joga bola, ama futebol, tem amigos totalmente héteros e é muito reservado.

Já eu fico pensando se ele se assume e a família dele me rejeita pensando que eu transformei o G. em gay e também pelo fato deu ser pobre e ter uma vida sócio econômica totalmente diferente do G, ou seja, vivemos em mundos diferentes.

Sem falar no fato de estar na minha cabeça o dinheiro que a família dele tem e a vida que ele pode me dar se formos ter algo sério.

Tenho que arriscar dar continuidade nesse relacionamento mesmo que venha a ser doloroso no futuro? Tem algo errado em juntar interesse (dinheiro) e o sentimento (amor) que sinto pelo G.? MVG você acha que o G. vai se assumir para seus amigos e familiares?

P.S.: Desculpa pelo relato imenso, mas eu me empolguei e desabafei por completo. Por favor me responda, mesmo que você não poste no blog eu ficaria muito grato se pelo menos você respondesse o email.

Com carinho,

Er.

Resposta do MVG:

Oi Er,
que super história a sua, hein? Cheio de fatos entrelaçados. Confesso que tive que reler algumas vezes para avaliar com atenção os detalhes e te passar conselhos da melhor maneira possível.

Três fatos a mim se destacam na sua história e, para ajudar a desenrolar, creio que me basear neles seja o melhor. O primeiro fato é sobre a sua necessidade de fazer com seu namorado saia do armário, se assuma para a família e perante seu grupo social. O segundo é a questão da variável “grana/poder aquisitivo” como fator influente em um relacionamento e o terceiro é a questão das classes sociais. Todos esses pontos são muito ricos e cujos temas tenho certo interesse especial.

A necessidade de fazer com que seu namorado saia do armário

Entendo bem o tipo de mal estar quando somos assumidos e o outro lado é enrustido. Há um certo ar de limitação, de aparentemente não conseguir trazer mais intimidade na relação porque a família fica a parte e, por fim, o incômodo. Mas por experiência própria (e se fosse a minha terapeuta conseguiria até imaginar ela falando), ser ou não ser enrustido – tal decisão – faz parte da intimidade individual. Tanto no seu primeiro caso que já é passado, como no seu segundo, eu sugeriria repensar essa sua “imposição” em querer que seu parceiro saia do armário, numa espécie de obrigação ou chantagem emocional. É certo que não cabe a ninguém forçar o outro a tomar tal atitude. Cada um tem um tempo certo e passa por um amadurecimento pessoal para conseguir assumir para os pais ou as pessoas relevantes.

Pra mim é bem claro o por quê de seu ex tratar você de forma estranha depois de todo esse processo: quando nos colocamos ou intervimos nas escolhas das pessoas, seja lá quais forem, desde a compra de uma tevê ou sair do armário, inconscientemente o outro passa a dividir as responsabilidades, seja do sucesso ou do fracasso da própria escolha. Me parece claro que seu ex não estava preparado para se revelar para a família mas, mediante a sua pressão, tomou a atitude precipitadamente e não “bancou” sozinho. Em algum nível te culpou ou sentiu que você tinha que também sofrer pelas consequências e, quando mais amadurecidos, aprendemos a não entrar em situações desse tipo.

Compreendo o sentido que você tem de sair do armário, de poder ser total para a família e de certa forma “livre” do casulo. Mas tal processo, de sair da concha, reverbera diferentemente em cada pessoa. A postura correta, ao meu ver, é você entender tais ideias e ser o companheiro que vai dar força e apoio quando o outro estiver preparado. Mas é muito complicado você colocar em jogo seu próprio relacionamento caso o outro não tome providências voltadas a estar ou não no armário.

Compreendido esse primeiro ponto, a sua história atual já mudaria bem de figura.

A influência da grana ou poder aquisitivo em um relacionamento

Esse é um fato ótimo para levantar reflexões. É sabido que muitos, homens e mulheres, colocam o fator grana na seleção de seus parceiros. Tal situação é histórica e herdada, inclusive, dos modelos tradicionais familiares. Lembra a história do “dote para casar”? Pois bem, tal costume reverbera até hoje, numa sociedade relativamente moderna e que se diz mais esclarecida.

Particularmente eu acho um absurdo escolhermos parceiros pelas condições financeiras. A mim, o que é definitivo para fazer meu relacionamento virar ou não, é o nível intelectual e a sintonia de alguns valores básicos, educação e cultura. Não necessariamente valores, educação e cultura estão relacionados ao poder aquisitivo do indivíduo.

De qualquer forma, essa ideia de que namorar com alguém endinheirado a vida se torna melhor é uma fantasia passageira, novelística e provavelmente fugaz, embora tanta gente acredite que sim. Se damos muito peso à grana na relação há uma forte tendência a atuar como objetos descartáveis. Deixamos de depositar a energia da relação nas trocas reais de indivíduo para indivíduo, no que vai construir sustento para o casal e priorizamos uma superfície frágil que, numa primeira crise, quebra e vem à tona o aspecto da futilidade, do descarte.

Claro que há um certo glamour e encanto. O status é óbvio. Mas fora as passagens na novela brasileira que nos “inspiram”, estou para ver um casal gay que se sustenta tratando a variável “poder aquisitivo” com prioridade. É a velha história do TER vs. SER. E se a gente focar demasiadamente no TER, pressupõe-se apenas um encantamento transitório, quase que um vício e que, fatalmente, trará o sofrimento da desilusão e da abstinência.

De qualquer forma, cada um no seu quadrado. “Cada cabeça a sua sentença”.

A cultura classista entre um casal

Tal ponto cria intersecções com o anterior. Não há problema nenhum em alguém com menos poder aquisitivo se relacionar com alguém com mais poder aquisitivo. Mas se um dos pilares da relação for o “poder da grana” envolvida, objetificamos as pessoas e a própria relação e a chance de quebrar é evidente. É possível viver em um relacionamento cujas diferenças do TER sejam antagônicas. Mas exigirá uma equivalência cultural, educacional e um senso de moral apurado, fora a natural atração.

Mas, como moral hoje em dia é um conceito em baixa e muito deturpado e – como quem tem pouco se ressente por isso e quem te muito se sente humanamente superior por isso – um relacionamento que prospere, entre indivíduos de classes sociais muito diferentes tende a ser bastante raro (acredito que existam! Mas é raro). Primeiro que aquele que tem menos tende a cair nas lamúrias, complexos ou espírito reacionário e vitimista por ter menos e aquele que tem mais não deveria se achar humanamente superior pelo ter. Será mesmo que nesse Brasil a gente consegue tais comportamentos esclarecidos nesse contexto onde se vende tanto a diferença em jogos políticos e sociais? Deve haver, mas são raríssimos. Exige uma habilidade muito grande de cada um sair da própria caixinha.

Você mesmo, no seu texto, deixa bastante em evidência o quanto a questão de poder aquisitivo e de classes são perceptíveis. Como lidar com tais diferenças para não serem pilares nem influências numa relação? Os pilares são outros…

Ok?

Espero ter ajudado a desentrelaçar tantos fatos!

Um abraço,
MVG

7 comentários Adicione o seu

  1. lebeadle disse:

    Esse relato é bem interessante pelo fato da sinceridade com que expõe toda a história. Acredito que ninguém deve forçar uma pessoa a tomar uma decisão como essa de se assumir gay, isso é um processo, isto é, se desenrola com o tempo, tem um contexto pra cada caso – da última vez você tirou o rapaz do armário à fórceps, isso é coisa que se faça?. Penso que a única coisa a fazer é aproveitar esse belo instante pra dar um impulso na sua própria vida e a partir daí também melhorar sua vida econômica. Entrega a Deus o resto e vai aproveitando cada dia por vez, afinal pode durar um ano ou pode acabar mês que vem. Pense que não foi bom o período em que você ficou sozinho, então, se está acompanhado já está melhor, o mais lhe será acrescentado conforme sua virtude.

  2. Daniel disse:

    Qual e-mail do MVG? rs

  3. Bruno disse:

    O fato do namorado ser enrustido, em si, não significa algo sempre muito ruim. Acho q isso faz muito mais diferença quando ele ainda é “dependente” dos pais, ou mora com a família, ou também quando a família exerce uma influência muito grande. Mas quando o cara é independente, mora só, se sustenta, o fato de estar “no armário” já fica bem mais fácil de se levar…

  4. Adônis disse:

    Acabei de assistir um episódio de Sessão de Terapia, que fala justamente dessa confluência entre a sexualidade e o financeiro. Está aqui o trailer:https://www.youtube.com/watch?v=s8QX4bfZ5Uk

  5. EAS disse:

    ER passei por uma situação idêntica e posso te falar como o “outro lado da moeda”.
    Em relação à condição financeira, isso nunca reduziu a admiração que eu tinha pelo E. – admirava como ele era batalhador e tinha aspirações de crescer, como era bem resolvido na sua sexualidade , entre outras coisas .
    Entretanto, o E. começou a transferir a responsabilidade pelo crescimento pessoal/financeiro dele para mim . Assim, ele deixou de ser independente e batalhador, e sua mudança de postura gerou uma frustração da minha parte . O encanto acabou .
    Portanto, o seu namorado ter melhor condição financeira não te exime de batalhar pelo seu sucesso com seus próprios méritos .
    Em relação a ser enrustido, deixe ele descobrir o tempo dele de sair do armário . E separe bem o momento da revelação e o momento de vc ser apresentado à família . Caso contrário, você será o “eterno culpado ” por ter feito o filho deles virar gay, entendeu ??
    Abraços e muita sabedoria para conduzir esses fatos .

  6. Herreira disse:

    Muito bom seu relato! Creio que para algumas pessoas isso está muito envolvida. Eu, por exemplo, não me relacionaria com um cara com condição financeira melhor do que a minha devido, porque, pode ser que aconteça um preconceito tanto por parte de família como de amigos e parentes e com isso prefiro evitar. Essa minha mentalidade não veio do dia para noite foi de experiências que tive que me levaram a isso, sei que nem todos são iguais e nem devo generalizar, mas hoje sinto-me capaz de perceber isso e cair fora.

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