Laboratório de Relacionamento – O namorado ideal

Quando a gente é jovem, gay ou heterossexual (e principalmente mulheres e homossexuais são reconhecidos assim), costumamos a idealizar nossos relacionamentos estando ou não no status “namoro”.

Esse fato tem bastante a ver com aquela curva de expectativas que já lancei aqui no Blog: jovens hoje até os 30 anos costumam ter um nível de expectativa acima da “curva de realidade”. São criados como super filhos, filhos privilegiados quando – desde pequenos – quase tudo chega a suas mãos.

Filhos de classe média para cima, pela necessidade dos pais (mãe e pai) trabalharem intensamente, farão aulas de inglês, natação, judô, quando não passarão na escola em período integral. Em outras palavras, tudo vem de “mão beijada” e tudo está aí estimulando a hiperatividade e a ansiedade dos filhos. Filhos querem, pais fazem. Fazem porque, na agitação do trabalho, é melhor dar o máximo de ocupação para os rebentos. Menos trabalho para os próprios pais que precisam ter foco no serviço.

Acontece que relacionamento afetivo, namoro, cai num hall fora dessa “bolha de confortos e comodidades”. Dentro de casa somos programados para ter ocupações servidas pelos pais. Fora de casa, quando os hormônios e o desejo de se ter alguém, um companheiro, um namorado começam a se manifestar, sem querer achamos que o outro vai cumprir todas as nossas expectativas, assim como os pais fazem, assim como os cursos nos oferecem. Porque se a professora não parece ser boa, basta trocar. As escolas estão também para servir e, afinal, “tô pagando”. Escolas não querem perder alunos, alunos aprendem a ter o melhor que a escola pode oferecer.

Mas a postura passiva das coisas chegando aos jovens e promovida pelos pais de maneira tão dada não funciona quando o assunto é namoro. Dentro de casa é quase tudo ideal e perfeito porque se o filho quer isso ou aquilo, pode demorar um pouco, pode ser um esforço aqui e ali, mas os pais realizarão. Fora de casa, o filho que se acha “super”, vai perceber que na vida real, nos relacionamentos, nem sempre o chefe da firma é o mais camarada, nem sempre o namorado funciona como o esperado.

Daí a “preferência nacional” dessa juventude classe média, média alta, é fazer relacionamento como se fosse troca de sala porque a professora não é boa. Não é à toa que anda tão difícil namorar. Somos muito mais descartáveis hoje em dia.

Em todo esse contexto de facilidade, quando nos deparamos afetivamente envolvidos, nos sentimos muito mais vulneráveis que a normalidade. As vezes é quase um descontrole que invade a nossa mente, nos tira do foco de nossas obrigações e nos parece que o “culpado” de tudo isso é o namorado. Mas óbvio que não é: se há algum culpado somos nós mesmos que – em certa medida – estamos aprendendo a sair da tal “bolha” e aprendendo a ver que, quando as coisas não saem do jeito que a gente quer, quando não é possível substituir sentimentos, a realidade é bem diferente e costuma ser dura.

As vezes estamos com alguém que consideramos namorado. Olhamos para a pessoa mas não a enxergamos como é de fato. Por trás daquela figura, quase que um objeto para satisfazer nossos modos, enxergamos nossos ideais. Paixão tem muito de idealização, mas juventude moderna também.

Um curso ou uma viagem podem chegar próximos à ideais porque – como serviço – temos certos direitos sendo consumidores. As empresas estão aí para atender expectativas e realizar sonhos. Mas pessoas, vida pessoal, nos “obriga” a rever nossa postura do querer, da ordem e do controle. Pessoas não são produtos, nem serviços, nem objetos, mas parece que nos ensinam a tratar como tal ou melhor, não se ensina como se relacionar.

Laboratório de Relacionamento:

Imaginem uma situação na qual dois namorados – de um relacionamento há mais de 6 meses – estão juntos mas vivem uma crise. Um desgaste natural pelo tempo ou por qualquer falta de sintonia. Nesse contexto, o “Indivíduo A” sugere um tempo. Sugere passar uma ou duas semanas longe para poder respirar. Sabe que ama muito, que está feliz, mas que a situação que vive no momento com o parceiro vai se resolver com certo afastamento. O “Indivíduo B” dessa relação concorda, entende os pontos e acorda de passar esse tempo para respirar.

No dia seguinte, o Indivíduo B se vê descontrolado, quase numa neurose: acha de fato que tal acordo não está certo, se enche de inseguranças e não sabe como se comportar. O tempo vira um monstro, o medo de esfriar invade e, nesse contexto, surge a ideia de terminar porque aquele estado gera um desconforto muito grande. Daí, entre “a fila tem que andar” e enfrentar a situação com honestidade, a tendência é preferir a primeira.

Fato 1: O plano real mostra que o tempo, entre casais maduros, as vezes é fundamental. Mesmo quando casados ou namorados, um par que convive há alguns anos, sabe que afastamentos pontuais as vezes é vital para a saúde da relação. Um deles pode combinar uma viagem com amigos durante uma semana, o outro pode fazer uma visita aos pais no interior. Não importa o que se faça, mas normalmente inventam-se situações para que o distanciamento efetivamente se realize, consciente, tranquilo, de acordo.

Fato 2: O plano idealizado, de expectativas, normalmente deforma a realidade: primeiramente, o Indivíduo B acordou com o namorado um certo distanciamento. Segundo, que o problema posterior – da neurose e do descontrole – não é fruto de uma “maldade” ou de um padrão “dar um tempo” que não dá certo. O problema, de fato, é que tal distanciamento sai fora do “modelo idealizado” do Indivíduo B. O tira de certa zona do conforto que lhe parecia ideal. Foge de seu controle, de suas expectativas. Assim, há o certo tipo de surto.

Conclusão:

– Jovens aprendem que podem ter o controle de quase tudo. Mas a vida real ensina que temos o controle de quase nada;

– Jovens se acham altamente capazes, mas esquecem que o outro e eles mesmos são falíveis e humanos;

– Quanto mais idealizamos uma pessoa, maior a chance de sofrer ou colher frustração;

– Acontece apenas que não há como não passar por todos esses processos dificultosos para encontrar sucesso em um relacionamento. Somos “programados” para entender o mundo de certa forma, quando o mundo – na realidade – é quase que ao contrário. Precisamos as vezes nos virar do avesso, fazer o caminho mais longo para chegar em nossos objetivos e perceber que a realidade é o oposto do ideal. No campo dos relacionamentos, quanto mais humanizamos o outro e menos o idealizamos, maior a chance de fortalecer um namoro.

– Se a cada pequena crise de casal resolvemos terminar, definitivamente não evoluímos nesse aspecto;

– Isso é a própria vida mas diferente do que se aprende em casa. Diferente dos “super filhos queridos”, diferente dos “super pais” que fazem todas as nossas vontades e que certamente darão colo para nossas lamúrias. Selfies são somente a parcela bonita que gostamos de mostrar. O todo é bem diferente disso;

– Pais não servem para determinados assuntos. Principalmente aqueles que os impulsionam naturalmente a proteger os filhos. No mundo, de fato, não existe tais proteções.

 

6 comentários Adicione o seu

  1. Ferreira disse:

    Olá, descobri o blog essa semana e gostei muito dos posts. São muito bem escritos e trazem reflexões excelentes. Parabéns! Como não tenho com quem conversar sobre minha sexualidade está sendo bastante significativo o conteúdo para mim. Gostaria muito de conhecer outros jovens gays aqui em Trindade-PE, mas parece que não é fácil. Aqui é bem evidente a estigmatização da homossexualidade.

    1. Alves. disse:

      Oi. Sou tbm de Trindade . Podemos nos conhecer se quiser Okay . Aguardo.

  2. ESA disse:

    Em relação ao laboratório de relacionamentos, refletindo conforme os dados do texto, o indivíduo B está visivelmente inseguro . O que leva uma pessoa a se sentir insegura : perfil da personalidade ? imaturidade ? carência ? paixão – falta de individualidade – não se vê sem o outro ?? Independente de qual seria a causa, o tempo seria importante para o indivíduo B elaborar esses sentimentos e evoluir para um nível de maior entendimento com o indivíduo A .
    Não ficou claro no texto quais aspectos do relacionamento incomodam o indivíduo A e o levaram a querer esse tempo de reflexão .

    Abraços

    1. minhavidagay disse:

      Oi ESA,
      tudo bem?

      Fica em aberto, para a fantasia dos leitores, os aspectos do relacionamento de incomodam o Indivíduo A.

      Um abraço,
      MVG

  3. pai gay disse:

    nossa, que texto legal, aliás vc escreve mito bem e tem excelentes argumentos! gostei mesmo! e concordo contigo, o nivel de exigencias e expectativas de hoje emdia dificultam muito o namoro, mas fique traquilo que a maturidade resolve algumas coisas!

  4. Bruno disse:

    Adoro esse blog. Gostaria de dizer que, no meu caso, nunca tinha me sentido inseguro em nenhum relacionamento (e os meus sempre duraram bastante) mas em determinado momento fui traído e, depois, novamente traído no relacionamento seguinte. Então afirmo que no meu relacionamento atual já entrei com esse trauma, me senti inseguro no início. Graças a Deus tá passando. Abraços!

Deixe uma resposta