Na falcudade: Atlética vs. Grêmio


Tenho diminuído temporariamente o ritmo de textos no MVG por uma boa causa: estou me dedicando a um livro cheio de assuntos, vivências e reflexões depois de três anos de experiências e trocas por aqui. Diferente de um Blog cujo formato propicia um conteúdo avulso, é possível me aprofundar mais ainda nos assuntos, nos dilemas e nas questões que nós – homossexuais – costumamos passar ao longo de nossas vidas, desde antes do “sair do armário”, em uma história cheia de detalhes com começo, meio e fim.

Vou lançando notícias sobre o projeto de tempos em tempos! :)

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Em conversas com o Meu Japinha, me veio um insight sobre um tema que pode apontar para diversas reflexões: já pararam para ver que normalmente as Atléticas das faculdades são aparentemente formadas por heterossexuais e os Grêmios e Centros Acadêmicos por gente mais “descolada” e aberta à diversidade?

Sei que isso é uma generalização, mas lembro muito bem quando fazia faculdade (e até hoje isso não mudou) e tive a oportunidade de ser meio que um “fornecedor” para a Atlética. Lidava a maior parte do tempo com homens que – ao que tudo indicava – eram heterossexuais. Eu era o tal cara criativo que preparava a comunicação visual da maioria dos eventos e, também, cuidava da reputação do mascote.

Apesar de lidar com criação, aquele clima excessivamente esquerdista do Centro Acadêmico, que me parecia tão contraditório já que era composto por uma elite burguesa, sempre me manteve um pouco distante do próprio C.A. Mas era evidente que a atmosfera mais liberal, uma tentativa de ser algo mais reacionário, oferecia uma empatia aos gays “corajosos” que naquela época já se assumiam.

Difícil dizer quem inventou esse modelo, essa “caixinha”. Mas nos ambientes universitários, tal divisão se torna evidente e credito muito disso a um certo inconsciente coletivo – teoria desenvolvida pelo Jung – que faz as pessoas se agruparem de tal maneira até antes mesmo do cenário da universidade.

Estamos em ano eleitoral e existe todo um clima de expectativas, principalmente depois do falecimento súbito do Eduardo Campos. Conceitos tais como “esquerda” e “direita” voltam a boiar na superfície com certo oportunismo, característica que não falta em nossos costumes.

Lá na faculdade já acontecia algo assim: gente da Atlética era algo de centro e direita. Gente do Grêmio era de esquerda e aprendíamos dessa dualidade mesmo que de maneira sutil ou velada.

O que fez um gay, no caso eu, trabalhar oferecendo meus serviços de criação e design para a Atlética (e não ao C.A.) não tinha absolutamente nada a ver com tais identificações, mesmo porque não tinha consciência de nada disso naquele tempo. Por coincidência, um amigo de sala o qual me tornaria bem próximo, seria o vice-presidente da Atlética logo no primeiro ano e, conhecendo minha reputação em sala de aula, não exitou em me convidar para desenvolver os trabalhos com a Atlética.

Na minha inocência, a questão hoje seria o seguinte: “por que não, se o trabalho me parece acima do bem e do mal da esquerda ou da direita?”. Mas na época não pensava nada disso. Queria apenas exercitar meu serviço.

O C.A. já tinha muita gente “criativa”, “intelectual”, mas que perdia muito tempo em discussões conceituais e, na hora de realizar e executar de maneira organizada, tinham mais dificuldade. Me pareciam mais amadores, atrapalhados, embora muito criativos, aberto às diferenças e cheio de discursos elaborados.

O povo da Atlética me parecia mais organizado. Os eventos funcionavam, existia verba para ações, cargos definidos e me parecia algo de empresa. O Grêmio me remetia a um clube.

Embora voltados aos esportes, que nada tem de “coxinha”, na hora de fazer os eventos a Atlética era vista assim, “coxinha”, no ponto de vista do Grêmio. Mas diante tal organização, não seria estranho dizer que eu era um fornecedor da Atlética, inclusive, sendo pago pelos serviços que a ela prestava.

O povo do C.A. nunca tinha grana ou se precisava de alguma ajuda teria que vir pelo voluntariado. Fora os debates entre gente criativa que, de todos os lados, sempre dava algum palpite em meu trabalho. Achava a Atlética “capitalista demais”.

Em compensação as pessoas do Grêmio transmitiam essa vibração mais leve perante as diferenças, recebiam as “minorias”. Natural alguns gays – pelos menos aqueles encorajados a manifestar a sexualidade no ambiente da faculdade – se sentirem inconscientemente envolvidos pelo C.A.

Mas eu era gay e tinha mais contato com a Atlética. A minha sexualidade, de fato, não estava aberta para nenhuma das partes. Eu queria ter visibilidade com o meu trabalho, assim como qualquer criativo do C.A.

Fora o meu amigo que depois virou presidente da Atlética, em termos de afinidade, não fiz grandes amizades por lá. Não tinha química. Já no C.A., alguns amigos chegados até hoje se aventuraram em meio aquele povo mais intelectualizado. Uma grande amiga montou uma chapa e ganhou. Ficou metida e prepotente naquele tempo.

Hoje entendo melhor certas críticas que recebia quando tais amigos se referiam aos meus trabalhos para a Atlética. Embora eu não enxergasse assim, existia essa rivalidade.

O tempo passou, não frequento mais o ambiente de uma faculdade e tenho hoje 37 anos. Sou dono de empresa, ex-sócio de outras duas e tenho novos projetos em vista quase sempre. Uma coisa afirmo: há coisas muito mais importantes para um jovem gay universitário do que uma mera simpatia pelo Grêmio ou pela Atlética apenas pela acolhida.

A questão é ser jovem e conseguir enxergar.

2 comentários Adicione o seu

  1. lebeadle disse:

    Lembrando de quando era do CA aos 21, tantos sonhos… Fui a um Congresso Internacional de Filosofia do Direito representando os alunos, no qual estava presente o Miguel Reale, um acontecimento, com direito a fotografias, pedidos de dedicatória de livros – ao que ele, do alto dos seus 91 anos – corrigiu para oferecimento, pois os livros dele, disse, eram dedicados somente aos filhos. Nessa oportunidade consegui conviver por alguns dias com os maiores filósofos do Direito do Brasil e também da USP e principalmente com o velho Reale, imortal da ABL, autor da maior obra de Filosofia Jurídica do Brasil, um volume com quase 2000 páginas que devorei compulsivamente em busca da verdade…ah, a juventude!

  2. Adônis disse:

    Adorei a ideia do livro !

    Essa polarização Atlética como direita e C.A. como de esquerda talvez não seja fruto da falta de pensamento de direita no meio intelectual? Me parece haver um monopólio do pensamento de esquerda nas instituições de ensino, desde o seu estágio mais básico. É raro encontrar professores que coloquem, por exemplo, alunos em contato com ideias de liberalismo econômico, ou que ensinem História fora do viés do materialismo histórico. Quantas pessoas, por exemplo, já foram apresentadas a autores como Friedrich Hayek, Milton Friedman por seus professores no ensino médio? ao invés de só mostrarem Marx e negativarem o “nefasto” neoliberalismo?
    Começo a pensar que talvez direita e esquerda no Brasil não faça muito sentido no campo político, justamente pelo fato das pessoas não saberem o mínimo possível do que seria o pensamento político de direita em aspectos econômicos e sociais.Os partidos que se dizem de esquerda no Brasil fizeram muito bem o trabalho de reduzir tudo à luta de classes, o que empobrece e muito o debate em outras frentes.É como você sempre diz aqui, nada além de oportunismo.
    Acho que maior diversidade de pensamento dentro dos centros acadêmicos traria maior capacidade de ação para os mesmos,afinal se fechar no próprio clube é fácil,mas disso sai pouca coisa construtiva.

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