Minha Vida Gay – Encontros e Despedidas


Ontem deixei Meu Japinha no aeroporto. Serão 13 meses distantes, embora já tenhamos programado dois encontros nesse período. De qualquer forma, tal vivência cai naquela situação de “relacionamento à distância” a qual estamos lidando com (incrível) tranquilidade.

Agora que estou vivendo tal experiência, já me sinto capaz de me colocar no lugar de pessoas que viveram essa situação e a primeira coisa que bate é a questão da carência. Creio que a relação seja essa: quanto mais carentes e inseguros mais difícil de lidar com uma “pausa” num relacionamento.

Acontece que, quando somos carentes nos sentimos metades, naquela história de que de fato somos inteiros mas temos dificuldades de nos entender assim. Ele tem seus projetos de estudos e sonhos para materializar nos EUA. Eu tenho a minha empresa, um projeto de livro agora – voltado para nós, gays – e uma certa rotina que me sustenta, entre família, amigos, almoços e jantares, filmes, seriados e videogame.

Me sinto completo, inteiro, assim como Meu Japinha. Cada qual na sua busca de crescimento pessoal, mas namorados.

Tem a questão da castidade também! Que já virou piada entre nós.

Já estava tudo combinado, há meses, de que o levaria no dia da partida porque os pais não poderiam.

Seus pais e sua irmã souberam recentemente sobre a sexualidade do Japinha e de nosso namoro. É a quinta ou sexta vez que eu estaria lidando com situação semelhante e já teria calos suficientes para aprender a conviver com o tempo das pessoas quando o filho se assume gay. Porém, de última hora, bateu aquela realidade que o Meu Japinha passaria um ano longe e os pais “protestaram”: “Nós é que vamos te levar”.

Combina aqui, ajusta ali e eu o levaria mais cedo pois era dia do meu rodízio e os pais (e possivelmente a irmã se desse tempo de sair do trabalho) chegariam mais tarde. Assim, depois de alguns meses, o namorado do Japinha se materializaria a frente de seus pais pela primeira vez, o que define e marca a homossexualidade de um filho.

Tal situação é ainda motivo de aflição, desconforto e questões para milhares de jovens gays e seus pais. Milhares ou milhões. Está aí um ponto que é ainda normativo e exclusivo para quem é gay, na maioria das vezes. Então, além da natural ansiedade de se apresentar o namorado para a família, sentimento que é até comum entre casais heterossexuais, o certo “plus” é quando o casal é gay.

Peguei Meu Japinha em sua casa e entendíamos que sua mãe já estivesse mais preparada. A recepção foi amável. Conheci rapidamente a avó e a moça que trabalha há anos na casa.

Partimos para o aeroporto e o clima de nervosismo pela viagem era natural. Mas chegaríamos bem mais cedo do horário da partida, o que pôde tranquilizar todos os ânimos.

Por volta das 19h chegariam o pai e a mãe do Meu Japinha. Assim se faria o encontro. Apesar do ligeiro “frio na barriga”, a quinta ou sexta experiência de sair do armário para os pais do namorado, a exposição que muitos gays evitam, postergam ou fogem, aconteceria em minutos.

O pai do Meu Japinha me cumprimentou e me mediu dos pés a cabeça! (rs). Dizem os fomentadores dos estereótipos que japonês tem cara de bravo, não é? (rs). Pois bem, dependendo de como se está nesse momento, a cara pode ser de um dragão, mesmo não sendo japonês! Basta aquele desvio de olhar que a pessoa já derrete (rs).

A mim hoje, tal situação não deixa de ser como foi a décima apresentação de minha antiga banda (da dúvida se faríamos um show bom ou ruim), do primeiro encontro com um cliente novo (da dúvida se faria uma boa venda ou não) ou da quinta ou sexta vez de me apresentar como o namorado gay do meu namorado para os pais! O friozinho da barriga é até fundamental para mostrar que há sentimentos para o momento.

Se eu estivesse aparentando segurança e calma eles também ficariam seguros e calmos porque, no fundo, é assim que o ser humano se comporta em qualquer (e repito, qualquer) situação que há um mínimo de desafio. E sugiro que anotem essas dicas para quando tal situação vierem a vocês, queridos leitores.

Nesse caso não demorou muito tempo para que todos conversassem com uma boa fluidez. O “gelo” dos minutos iniciais passou rápido nessa combinação entre eu, Meu Japinha, seu pai e sua mãe que, sim, formam um grupo particular e exclusivo. Em outras palavras, se qualquer integrante fosse outro já seria diferente.

Sua irmã tocou no meu celular e seria também a primeira vez que ela ouviria a minha voz. Passei meu celular para meu namorado porque ela não chegaria a tempo. O telefone do Japinha já estava desativado justamente por causa da viagem.

No final, a despedida do Meu Japinha saiu além da encomenda. Ele queria muito que seus pais, sua irmã e eu estivéssemos presentes. Os pais não iriam, mas foram. A irmã não conseguiu sair do trabalho a tempo. Guarulhos, marginal, trânsito… quem conhece essa parte de São Paulo sabe bem como é.

A noite foi celebrada com um jantar final, nós quatro sentados a mesa pela primeira vez (de muitas ao que tudo indica).

Dada a hora, Meu Japinha abraçou um a um duas vezes. Se encaminhou para a fila, virou a curva do embarque e o perdemos de vista. Ficamos eu, seu pai e sua mãe por lá preservando a cordialidade.

Um belo dia de encontros e despedidas, cheio de emoções e representatividade. Fica aquela curiosidade gostosa de saber o que os pais acharam de mim…

Mais detalhes, em breve, no livro! ;)

5 comentários Adicione o seu

  1. Tiago Silva disse:

    Bom dividir esse momento com você, me tornei leitor do seu blog em meados de Julho e estou adorando sua visão de vida, principalmente a vida Gay.
    Boas vibrações para você e seu Japinha e que esses 13 meses passem voando.
    Divide mais conosco.
    Um grade Abraço.
    Tiago

    1. minhavidagay disse:

      Obrigado pela gentileza, Tiago! :)

      Um abraço,
      MVG

  2. Caio disse:

    Isso que dá ficar tanto tempo ser dar uma passada por aqui. Agora tem uma carrada de posts para ler; o que será muito interessante rs.

  3. Jonathan disse:

    Bom estou namorando um Rapaz que mora em outra cidade na verdade temos pouco tempo de namoro e ele trabalha direto..e eu me sinto um pouco carente pelo fato de não telo muito presente em minha vida mas gosto muito dele.pesso uns conselhos des de já agradeço abraço.

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