Vida Gay – Prostituição Velada

Com o olhar atento à diversidade, vira e mexe tiro novas percepções das pessoas, da maneira que se relacionam e como a interação, no caso entre gays, reverbera das mais diferentes formas. O ser humano parece precisar dos modelos comportamentais, as tais “caixinhas” que cito aqui pelo Blog.

Uma conversa com um amigo me fez relembrar de um padrão que pode ser até recorrente entre heterossexuais, mas que reconheço também entre os homossexuais. O que chamo de “prostituição velada” nada mais é do que o relacionamento por interesses na qual existe um tipo de troca, por um lado oferecendo bens materiais, por outro concedendo a estética e o sexo.

Inspirado no tema, assisti hoje um filme sobre a vida do escritor Oscar Wilde (criador de “O Retrato de Dorian Gray”) e relembrei de algumas situações ocorridas com amigos e colegas próximos durante as minhas vivências e contato com as mesmas: existe uma espécie de escambo, principalmente num contexto brasileiro com tanta desigualdade social, quando um jovem gay bonito oferece sua virilidade e beleza para um gay mais maduro (ou velho) que em troca dá regalias e status para o jovem.

Obviamente não digo que em todas as relações entre um gay mais velho e um mais novo existe esse tipo de troca. Mas o fato, mesmo que seja a minoria, é que alguns jovens gays colocam como preferência outros gays mais estabilizados pela qualidade de vida, bens e um senso de poder que o mais velho pode conferir. Em troca há a virilidade da juventude e a beleza estética, atribuções que o amadurecido perdeu com o inevitável tempo (se é que um dia acreditou que teve). Em maior ou menor grau, mesmo sendo uma minoria, tal tipo de relacionamento é fato e também configura uma “caixinha” envolta de questões de autoestima e percepção sobre o outro.

Em um país como o nosso, em que se explora equivocadamente a diferença de classes, estimulamos inclusive tal modelo.

Vejam como funcionamos: pintou recentemente uma nova moda, de um picolé quadrado e maior que o convencional, com recheio cremoso no meio. Me parece ser doce de leite. É destinado claramente para classes média e alta, nesse tal conceito de sorvete premium. Vi hoje uma loja na Rua Augusta (lado Jardins) e já tinha notado um quiosque no shopping. Brasileiros que somos, quase que numa disputa de “quem fica de fora” e nos fazendo “modistas”, promovemos filas assustadoramente desproporcionais para disputar por um simples sorvete. Nada muito diferente quando foi a inauguração da primeira loja Forever 21 quando por causa de uma euforia, milhares de mulheres se espremeram para ter acesso a tal marca.

Essa é a cultura de consumo do brasileiro, de uma necessidade impetuosa de ter que viver o alívio por se sentir incluso em suas rodas sociais.

Não é muito diferente quando casais jovens competem a ocupação de seus filhos: se a moda é a natação e o casal X coloca seu filho para nadar, o casal Y se vê motivado para colocar seu filho também numa compulsiva necessidade de inclusão. A competição é normalmente velada, mas existe. Tudo por uma reputação.

Se a moda é ir para Turquia, vai todo mundo para Turquia. Se a moda diz que a bola da vez é a Finlândia, vai todo mundo para tal canto. Já oviram falar que brasileiro é praga? Pois bem…

Daí algum leitor pode pensar: “mas isso também acontece em países como Japão ou Estados Unidos. O que explica os jovens formarem filas imensas nas lojas no dia do lançamento de um iPhone ou de um Playstation 4?”. A mim existe uma diferença simples e gritante: os jovens lá no Japão e nos EUA são estimulados a serem fiéis às marcas que o envolvem e não a um modismo transitório, exploratório e que concentra tal energia exclusiva. Em outras palavras, o jovem que ficará na fila para o iPhone é fiel a um conceito e deseja o produto. O casal brasileiro de classe média que entrará numa fila enorme para um sorvete quadrado tende a querer contar que experimentou, como numa vantagem.

Jovem, independentemente de classe, tem uma sede natural pela não exclusão. Assim, se o jovem gay sonha em beber um drink no Skye do Hotel Unique, quer ostentar um relógio Cartier no pulso e pode usar uma jaqueta Dolce & Gabbana, tudo concedido pelo “namorado bem de vida” e mais velho, por que não se aqui no Brasil funciona assim?

Longe de mim discutir a moral desse tipo de comportamento. Não estou aqui para julgar o certo do errado e, se há responsáveis por esse padrão comportamental, é do adulto que financia tais “sonhos” e o jovem que compra. Mas chamo tal comportamento de prostituição velada.

O fato é que existem inúmeras caixinhas e modelos em nossa sociedade. Cada um no seu quadrado e com alguma consciência.

5 comentários Adicione o seu

  1. Tiago Silva disse:

    Tenho um amigo que defende que toda relação é baseada em interesses, ninguém chega perto de ninguém se não houver algo a se ganhar, ele mesmo diz que nossa relação de amizade é baseada no interesse de ter boas discussões, pois elas são sempre longas e nos fazem pensar bastante, mas não posso negar que incomoda pensar que sou “interesseiro” ou que as pessoas de aproximam de mim por “interesse”.
    Ele comentou que por um tempo viveu uma relação onde claramente o rapaz, bem mais novo que ele, se relacionava por interesse e que isso não o incomodava, pois ele também tinha o interesse em sua jovialidade, ou seja, uma permuta. Cada um oferecia o que tinha e viviam felizes.
    Já eu penso que não sendo prejudicial para nenhuma das partes, que se viva o que bem quiser, a sociedade cobra alguns padrões que esses sim fazem sofrer muito e acabamos nos acostumando a eles.
    Hoje eu não me imagino nessa prostituição velada, mas o mundo dá muitas voltas.
    Grande Abraço.

    1. minhavidagay disse:

      Oi Tiago!
      Tudo bem?

      Acho que existe uma diferença entre interesses e trocas. Interesses parecem estar relacionados a uma “compra”, do tipo: “você é bonito e fará bem para minha reputação perante as pessoas. Faça o papel como meu par que em troca te dou o status que você quer”. Nesse caso, o foco está na imagem e na reputação, nos ganhos materiais.

      Numa troca digna a situação é diferente. É quando duas pessoas se apóiam mutuamente mas ambos enfatizam o crescimento individual. Por exemplo: com meu ex-namorado, que saiu de uma grande empresa para se tornar autônomo, eu ofereci meu conhecimento como empreendedor para ajudá-lo a organizar sua empresa e, assim, a se sustentar dela. Não ofereci dinheiro nem dei de mão beijada as respostas. Por outro lado, ele me conferiu a possibilidade de exercer meu papel de consultor, mesmo que informalmente, o que me deu mais segurança para ampliar a minha própria área de atuação. Não tivemos esses objetivos como um interesse de status ou de imagem, mas da simples troca num momento específico para a nossa vida e cujos ganhos estarão incorporados em nós para nosso crescimento, independentes. Depois que ele aprendeu a se tornar um melhor autônomo e eu aprendi a me tornar um melhor consultor, ninguém poderá tirar isso da gente.

      Agora, quando alguém aceita um relógio de marca por status e assim o outro terá um acompanhante bonito para exibir, tais interesses não geram lastros individualmente. Gera-se uma dependência. Se essas duas pessoas terminarem, um ficará com um relógio (se o outro não pedir de volta) e no máximo vai conseguir vender como usado. E o outro, que estava com o bonito pode facilmente procurar por outro bonito e reiniciar o mesmo processo de maneira bastante descartável. Em outras palavras, como a relação tange a superficialidade, acabam por ser frágeis e voláteis. Não há um ganho humano palpável.

      Tudo gira em torno do olhar de cada um, de como cada indivíduo entende as pessoas e o mundo. Seu amigo, que entende o mundo baseado em interesses, tem grandes chances de tratar o outro de maneira descartável assim como há grandes chances de fazer o mesmo a ele.

      Por isso digo: cada um no seu quadrado mas com alguma consciência.

      Um abraço,
      MVG

  2. Léo disse:

    boa tarde. Estou passando por um conflito muito grande na minha vida pessoal e gostaria muito de ter uma ajuda de vocês. Onde eu consigo postar no blog minha história ?

    1. minhavidagay disse:

      Oi Léo!
      No blog você não consegue postar. Mas pode me enviar para queroumtoque@gmail.com para trocarmos uma ideia.

      Um abraço,
      MVG

  3. Léo disse:

    Enviei um email sim. Aguardo uma resposta ! obrigado

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