Instinto de Vida e de Morte

Frutíferas são alguns encontros com algumas pessoas, quando elas nos trazem conceitos novos e que enriquecem o nosso intelecto. Compartilho aqui tais conceitos para o público gay e não tão gay assim que frequenta o MVG:

Tenho um amigo, heterossexual, cuja amizade ultrapassa 20 anos. Ele está novamente doente. Doença daquelas considerada grave, que vai e volta sem pedir licença e que não se considera curada se retorna até quatro ou cinco anos depois. Passaram-se três e até hoje ele estava bem.

Tinha convidado tal amigo para fazer uma viagem esse ano para fora do Brasil com o intuito de celebrar o tempo livre de sua doença. Compramos passagens, reservamos hospedagem e para garantir que estava tudo em ordem para viajar, ele resolveu fazer alguns exames. Em menos de um mês de embarcar o infortúnio se deu e tive que correr atrás do reembolso de sua passagem. Para a hospedagem, infelizmente, não teria como ter o estorno, ou eu teria que me desdobrar em negociações exaustivas que meu amigo concordou de me poupar.

Acontece que, há três anos atrás, logo que pôde retomar sua rotina de vida, meu amigo tinha a escolha de rever seu estilo, hábito de alimentação, entre outros. Era obeso, continua sendo e deve estar na margem daqueles de obesidade mórbida. Para quem não conhece o termo, “obesidade mórbida” nada mais é do que um sobrepeso excessivo, evidente, que limita um indivíduo a realizar atividades físicas corriqueiras.

Talvez eu tenha sido o único próximo, fora seus pais, que o aconselhava desde aquele tempo para que procurasse mudar a alimentação, buscar por uma dieta dirigida e praticar exercícios físicos. Como amigo poderia – no máximo – sugerir que fizesse academia no mesmo lugar e no mesmo período que o meu para que o incentivasse. Pode ser que não, mas sabendo que o câncer carrega algo de psicossomático, emagrecer, se sentir mais feliz com o próprio físico – na minha percepção – o ajudaria.

Fiquei muito triste (e ainda estou) de ter idealizado uma viagem, o incentivado, por uma certa causa nobre de levá-lo para conhecer outros cantos do mundo num sentido de celebração. Me invadiu uma certa melancolia, uma certa frustração e ainda estou um pouco assim, embora não vá deixar de viajar e seguir com meus planos. Parece até um jogo divino, quando ele fez um checkup para a viagem e constatou algumas anormalidades, viagem esta para comemorar a trégua da doença que infelizmente voltou.

Dentre as questões da minha vida, levei essa hoje para a minha terapeuta que falou sobre o “instinto de morte”. Logo questionei o que significava tal conceito e ela foi rápida em elucidar:

– Seguindo o Jung existem dois grupos de pessoas. O primeiro grupo que conduz a vida pelo instinto de morte leva consigo – mesmo que inconscientemente – um sentindo de “viver para morrer”. Tais pessoas tendem a não se cuidar quando um problema aparece, postergam questões, desviam e deixam a vida levar sem adquirir um sentido maior de autoria – começou a minha terapeuta.

– Ah, entendo. Então o fato dele saber que era importante tomar algumas providências para mudar seu estilo de vida, o hábito de alimentação, a necessidade de praticar exercícios regulares e mesmo assim não mudar nada disso até hoje sugere que ele conduza a vida pelo instinto de morte? – questionei.

– Sim. Provavelmente. Segundo a psicologia, há casos de pessoas obesas que se escondem atrás desse tipo físico para não ter que lidar com suas questões de baixa autoestima – completou a minha terapeuta.

– E quando uma pessoa está doente e, ao invés de criar dependência de um remédio, busca um nutricionista para mudar seus hábitos de alimentação, cria uma rotina de exercícios físicos e consegue contornar, por exemplo, um colesterol alto sem remédios? Esse seria um exemplo de instinto de vida? – questionei.

– Sim, por exemplo. Um indivíduo que tem o instinto de vida “conduz a vida para viver”. Busca se superar, não posterga problemas, resolve o que incomoda, tenta evitar uma dependência excessiva de coisas e pessoas e encara outros desafios que a própria vida irá trazer – respondeu.

Foi nesse diálogo que tais conceitos deram luz às ideias aqui para o Blog MVG. Logo fiz uma analogia, quando muitos gays colocam a própria homossexualidade como um problema ou “doença” e não buscam resolver e superar. Para alguns leitores ainda hoje, a própria homossexualidade não deixa de ser uma barreira e um peso invisível nas costas. Aqueles que entendem a própria sexualidade assim, e não resolvem, tendem a seguir pelo instinto de morte, tentando se desviar ou reprimir tal questão durante a vida. Outros, aqueles que conduzem a vida pelo instinto de vida provavelmente buscarão uma luz para tais questões para que outras que cruzem seus caminhos também sejam superadas.

Alguns gays enrustidos, mais moralistas, guardam consigo tal realidade e não vão buscar válvulas de escape. Outros enrustidos, que se atrevem a invadir outras “caixinhas”, basicamente atuam como heterossexuais mas encontram válvulas de escape em sites de pornografia, “banheirões”, saunas, com os michês e etc. Claro que existem outras variantes na diversidade sexual, daqueles que transam com homens mas não se intitulam gays, mas tal conceito não está em questão nesse texto. Me refiro aqueles que se entendem, realmente, como homossexuais.

Fico um pouco assustado em pensar que as pessoas se dividem nesses dois grupos e, claro, sendo teoria, fala de uma maioria subentendendo exceções. Mas sei que alguns dos leitores se identificarão com o post de hoje, alguns com o instinto de vida e outros de morte.

Acho muito cruel essa ideia de viver para morrer apenas. Mas tenho aprendido algo muito importante em 37 anos de vida: podemos dar conselhos, apresentar referências e até estimular. Mas os monstros e fantasmas de cada um são pessoais e intransferíveis. Se a homossexualidade lhe parece um problema, ele é seu. Somente. Assim como todos os nossos problemas individuais.

Não será dessa vez que poderei celebrar com meu amigo embora eu quisesse muito.

1 comentário Adicione o seu

  1. Frederico disse:

    Fiquei feliz! Já imaginava que eu conduzia minha vida para viver! Sempre dinâmico e buscado vencer desafios diários!
    Me senti muito bem ao ler esse texto, apesar do problema do seu amigo!

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