É possível ser feliz


Pelos meandros da vida, pelo intermédio de um amigo da faculdade, tive reunião hoje com a atriz Regina Duarte. Dizem que a popularidade dela não esteve muito boa nos últimos anos, virou meme e tudo mais. Mas confesso que tal viral não chegou até a mim, o que foi bom, para não ter que dissimular em sua frente.

Não é a primeira artista que tive o privilégio de conhecer pelas mesmas sinuosidades da vida profissional. Já conheci alguns escritores, curadores e alguns músicos, sem a necessária intenção de mirar na classe. A gente sabe que uma reunião profissional com um artista acaba entrando em questões da subjetividade da vida, dos conceitos e desse lado humanista que vai além do pragmatismo da profissão. Temos muitas vezes que ser hábeis para captar essências em meio a diálogos ou monólogos que os mesmos estão tão habituados. E foi aí que, ela, Regina Duarte, comentou sobre os desafios e barreiras de sua carreira. Quando a gente vê uma mulher como ela, que para mim imortalizou a imagem da “viúva Porcina”, a namoradinha do Brasil, esquece que – durante a vida – passou por questões, problemas, dificuldades e altos e baixos como mulher, mãe e atriz.

Quando tocou nesse assunto, sobre seus altos e baixos, emendou: “as vezes, a gente precisa abrir mão de uma certa zona de conforto, que nos encheriam de privilégios materiais e certa segurança, para seguir com aquilo que temos paixão” – se referindo a um episódio, não de uma novela ou de uma peça de teatro, mas de sua própria vida, quando teve que recusar certos privilégios de uma grande emissora para tocar seu projeto pessoal, num esquema “ou dá ou desce”. Ela resolveu descer e ir atrás de sua paixão.

Claro que essa situação faz muito sentido ao nosso contexto, no momento que a homossexualidade é uma questão em diversos níveis para nós, gays. Mas será que a nossa questão, de fato, não é o quanto compramos de modelos e caixinhas? E as vezes sem nos dar conta, achando que tais modelos são a regra geral?

Há aqueles homens que sabem que são gays, mas que resistem fortemente a aceitar essa própria condição. Porque a sociedade, desde que somos pequenos e a partir da cultura familiar, já nos coloca dentro de caixinhas. Há pais que, por exemplo, definem desde cedo que tal brincadeira é de menina e que tal coisa é de menino.

A exemplo disso, quero citar uma atitude que é um contraponto, demonstrada pelo meu pai:

Serei tio e consequentemente meus pais serão avós. Em passeio ao shopping, há uns dois meses atrás, meu pai resolveu comprar uma bola de futebol (da Copa) para a criança. De imediato, quando eu vi a tal bola na sacola eu perguntei:

– Para quem é essa bola, pai? – perguntei curioso.

– Ué, para o filho do seu irmão – respondeu.

– Mas pai, eles não sabem o sexo da criança ainda – continuei.

– Ué, mas faz diferença para uma criança? Bola é bola – explicou.

– Poutz, claro, claro… você tem razão!

Naqueles instantes, desatento ao ver uma bola de futebol da Copa dentro da sacola, logo tinha associado tal objeto a figura masculina. Meu pai quebrou imediatamente minhas pernas com seu argumento e, daí, lembrei que na minha educação eu brincava de Barbie com uma amiga que colecionava dezenas e meus pais nunca impuseram questão de gênero. Imagine eu, gay, cheio dos meus discursos por aqui, tomando essa rasteira do meu pai? Ri por dentro e de mim, da minha involuntária estupidez, ao ver a pelota dentro da sacola.

Mas me questiono hoje: quantos jovens meninos ou até homens não reprimem suas paixões (aquelas que a Regina Duarte citou) em detrimento dessas referências sociais? Tive a sorte de não ter tido um pai (figura masculina) impondo questões de gênero em brinquedos. E aqueles que fazem e, no sincero ponto de vista, acham que tem a absoluta razão de ser assim? Que tal atitude é a “verdadeira” educação?

Afirmo que alguns homens, com desejos por outros homens, nasceram num contexto de família cujos valores foram sempre pautados nas questões de gênero, parecendo existir uma contradição entre o seu desejo por outros homens com as normas de seus grupos sociais.

Veio a memória o menino bissexual que tive a oportunidade de ter casos pontuais, na minha solteirice, antes de entrar no namoro com o Meu Japinha. Ele, desde pequenino, sempre teve uma mãe homofóbica. Quando adolescente, naturalmente se afeiçoou a modelos mais heterossexuais tais como as azarações em cima das menininhas com os amigos, as baladas no Itaim, as viagens para Maresias e as festas no Sirena. Todos esses contextos tem um maior teor de heteronormatividade. Tanto é que alguns gays se infiltram com amigos nesses “núcleos” para tentar “pegar um hétero”. Quantas vezes não ouvi tal discurso? São, simplesmente, convenções.

Tal menino me afirmou dezenas de vezes que era impossível assumir seu gosto pela “pegada de um homem”. Acredito no rapaz, pelo simples fato dele não conseguir ver conexões e intersecções entre a “atmosfera da sua vida” (mãe, amigos, tipos de baladas, tipos de conversas e tipos de comportamento) com o fato de gostar de sexo com outro homem. Ele, desde jovem, comprou inúmeros valores de um universo que – por sinal – era algo de homofóbico, mas numa época que não tinha consciência da homofobia. Mas ele gosta e gostava daquele universo. Assim, parece ser extremamente longe e remoto trazer essa realidade (de sua parcela homossexual) para seu contexto geral de vida. Ele precisa dos amigos daquele contexto, dos lugares que seu mundo lhe oferece, das conversas, dos sarros, do tipo de afeto, das putarias e da diversão. Mas gosta de transar com homens também. E aí? E aí que, se ele assumisse esse desejo para seus amigos, as chances da rejeição poderiam ser maior, pelo menos na sua cabeça. E aí que, para ele, não haveria sentindo nenhum trocar as baladas countries do Itaim, cheias de gorós e pegação, pelos outros excessos da The Week. Não trocaria também os “rolês” da Vila Olímpia pelos “rolês” da Augusta. Porque, simplesmente, não se identifica. Mas, ainda, gosta de transar com outro homem.

Meu pai nunca impôs gênero em brinquedos e brincadeiras de criança. Mas imaginem quantos pais não o fazem, achando que estão educando bem, e mais: imaginem as centenas de relações que se estabelecem entre pais e filhos que, cedo ou tarde, vai encaixotar a criança na “coisa de menino” e “coisa de menina”?

O quanto disso tudo a gente acaba comprando e, sinceramente, acaba nos atrapalhando depois?!

Para ser gay precisa frequentar o meio, usar certas roupas, falar determinada gírias e apresentar alguns trejeitos?! Jamais e isso não deve ser obrigação porque se for vira gayismo. Mas, como ser gay tendo plena identificação com os “recipientes” tidos como “para hétero”?

Porque convenhamos: se eu gostasse de balada country do Itaim, certa sociedade gay acharia esquisito!

Bichos estranhos somos nós!

2 comentários Adicione o seu

  1. tjsilva85 disse:

    Complicado esse ponto de normatividade, falam muito sobre a heteronormatividade que dita os padrões de nossa sociedade, mas a homonormatividade também está cheia de preconceitos e discriminações quanto aos próprios gays. Realmente é possível ser feliz e hoje me preocupo pouco com as normas ditadas por grupos, independente da orientação sexual. Vivemos em sociedade e devemos aprender com o diferente, mas minha consciência que dita a minha paz e minha felicidade.
    O melhor de tudo é amar, seja como for, por o amor é leve.
    Um bom dia!

  2. EAS disse:

    Bom dia MVG !! Muito inspirador esse post . Essas questões levantadas por vc batem aqui , bem forte rsrs

    Nosso coração e nossa alma deveriam ser os nossos guias em nossas escolhas de vida. Eles sabem quais são nossas paixões – que nada mais é do que nossa missão. Mas nossa mente absorve conceitos que não são nossos : aí entra sociedade, família, religião, etc . E daí se cria o eterno conflito “eu” X forças externas . E cada um lida com isso como consegue.
    Há aqueles que têm coragem , pagam o preço por escolherem o “eu” e colhem os frutos disso. Há aqueles que se deixam levar pela zona de conforto das convenções e por aí caminham . Há ainda aqueles que nem consciência dessa dualidade têm – e nem se dão a chance por nem imaginarem que pode ser diferente … E , por último, há aqueles que estão acordando agora para o seu “eu”, num período de transição nada fácil .
    De qualquer forma, deixo aqui a minha admiração àqueles que alcançaram a plenitude do “eu” no campo afetivo . E deixo muita energia e estímulo àqueles que estão lutando por isso na fase de transição .
    Para aqueles que estão empurrando com a barriga – como o cara do texto – saiba que a vida vai cobrar isso dele mais cedo ou mais tarde…
    Um grande abraço !!!

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