Qual é a direção do vôo?


Nem sempre viajamos acompanhados.

Depois de muitos meses, estive na casa do Tablito. O Ding chegava ontem de um tour de seis meses pelo mundo. Ambos foram grandes amigos de aventuras dentro dos ambientes escuros das baladas e nas paisagens mais naturais do Brasil.

São da geração quando “ser gay” era muito mais complicado. Viveram daquela repressão pela AIDS na década de 80. Gritavam sobre política nas músicas cantadas pelos artistas do rock brasileiro. Foram e são grandes referências a mim, dos caras que participaram em alguma coisa para provocar mudanças na condição dos homossexuais no país, direta ou indiretamente. A gente, que é mais novo, de certa forma desfruta.

Revê-los foi muito bom. Pude aproveitar de alguns aditivos que não saboreava há tempos. Pude estar em meio de uma certa intensidade e emoção, de compartilhar meu tempo com amigos queridos que se apresentam jovens mesmo depois de amadurecidos. De careta eles não têm nada.

A frequência é alta, a vibe é intensa. Existe uma vivacidade natural mesmo que as fisionomias ultrapassem os 40 anos.

Mas não sei em qual vôo que eu peguei outra direção. O que sei, com absoluta certeza, é que quem mudou fui eu. Não existe propriamente uma tristeza ou uma melancolia, mas parece que alguma coisa da sintonia se dissipou.

O que eu aprendi é que os modelos comportamentais dos grupos definem suas regras e certezas. Valem, quase que exclusivamente, quando se está no grupo apenas. A jornada que tem sido a minha vida, me permitindo entrar nas diversas caixinhas que nos confortam – dos alegóricos Hare Krishnas, dos neo hippies e surfistas adoradores do Bob Marley, dos nerds, da típica família tradicional brasileira, dos “velhos punks” cultuadores de uma certa transgressão, das bichas baladeiras, dos coxinhas, dos caretas e de qualquer outra nomenclatura que possa caracterizar um grupo, sem o teor depreciativo necessariamente -, tem me mostrado que é possível aprender um pouco com todos.

Existem óbvias disparidades nas crenças e maneiras de cada grupo conduzir a vida. As pessoas se apegam aos seus valores pela forte necessidade de segurança e, bem ou mal, eu optei por sobrevoar, mergulhando profundamente, mas com a autonomia de poder sair sem ter que ficar.

Claro que eu tenho uma caixinha. Preciso das minhas certezas e de algumas regras. Mas, por uma possível empatia, adquiri uma autonomia de ir e vir em diversas outras. Não tenho medo e não uso do julgamento para me proteger. Tampouco acho que isso seja propriamente um motivo de orgulho. Mas como fazer quando sou capaz de sintonizar na vibração de um matuto do interior, com o cigarro de palha na boca e celebrar inadivertidamente meu aniversário entre ele e seus familiares e, ao mesmo tempo, sobrevoar os terrenos mais urbanos, descolados e tecnológicos como se eu fizesse parte deles?

Descobri que tenho uma capacidade de aceitação e inclusão muito grande. Eu sobrevivo da diversidade. E não adianta me apresentar a diversidade de um mesmo grupo, mas eu preciso sentir as realidades paralelas dos demais.

Talvez seja por isso que sempre consegui formar “ONGs” cujos integrantes têm valores distintos. Não sei. Cabe a esse espaço deixar também tais registros. Talvez eu transpire a aceitação sobre as condições dos indivíduos.

O sentimento, as vezes, é estranho, de olhar para as pessoas e ver que alguma coisa mudou, que eu não sou mais o mesmo sendo que elas esperam e contam com a gente do mesmo jeito.

Acho que eu não tive a chance de preferir ser tal metamorfose ambulante. Mas sinto que é isso que sou.

O denominador comum é uma eterna vontade de nos sentir amados, por mais que uma imagem apresente uma repelência a isso. No mais, parece que precisamos acreditar numa certa fantasia para se manter a sanidade. Mas sanidade, de fato, há de diversas formas.

Nossos vôos não precisam ter uma única direção.

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