Brinquedos e brincadeiras

E agora, menino? Bola ou boneca?
E agora, menino? Bola ou boneca?

A identidade de gênero é uma informação transmitida de pais para filhos desde quando estes são pequenos. Existem algumas convenções, por exemplo: jogar bola é coisa de menino. Brincar de boneca é coisa de menina. Sob esses dois valores, abre-se um leque de variações nas caixinhas “de menino” e “de menina”.

Enquanto os pais têm certo controle sobre os filhos, tais identificações são algumas das bases culturais em família. Da bola, quando menino, o pai vai definir um time de futebol para criança, e ambos, pai e mãe, transferirão diversas percepções de mundo ao filho, muitas delas com base na identidade de gênero. Isso é cultural.

Mas a criança vai crescendo e, naturalmente, vai se desprendendo dos referenciais paternos. Se há a convenção de “coisas de menino”, há também das “coisas de menina” e o jovem pode naturalmente enveredar para gostos femininos.

Há gays que identificam-se pouco com as convenções para a mulher, outros, já gostam muito! Acontece que a identificação sexual nem sempre é diretamente proporcional à identidade de gênero. Vejam o meu caso:

A minha infância e adolescência, de acordo com a educação dos meus pais, não tiveram praticamente nenhuma restrição de gênero. Podia brincar de Barbie com uma amiga, jogar amarelinha, brincar de bambolê, casinha, boneca, dentre tantas outras brincadeiras convencionadas (culturalmente) para o gênero feminino. Em outras palavras, pela educação oferecida pelos meus pais, transitei em ambas caixinhas com autonomia – sem intervenções – e pude brincar também de bola na rua, bolinha de gude, pião, guerrinha de areia na praia, casa na árvore, entre outros.

Fui crescendo e na minha adolescência, entre uma bicicleta rosa e uma montain bike com trocentas marchas, passei a preferir a segunda. Tive o direito de escolha sem “repressão de gênero” e mesmo quando usava a bicicleta de alguma amiga, não havia intervenções. Mas entre prancha de surfe e morey boogie, preferi a segunda. Apesar de ser fã de rock, não deixei de ter boy bands e girl bands no rádio do carro. Mas, de certa forma, não consigo gostar das “negras americanas gritantes” [rs – Meu Japinha vai achar isso engraçado] que tantos gays adoram. Mas gosto da Lady Gaga.

Quando eu era pequeno, uns oito anos, simplesmente me encantei com “Gimme, Gimme, Gimme” do Abba e fiz que fiz para que meus pais comprassem o disco. Minha mãe colocava para tocar pelo menos uma vez por semana na vitrola e eu ficava pulando e me divertindo em cima de sua cama.

Mas, ao mesmo tempo, queria ter uma mobilete e sonhava para ter meu primeiro carro. Quando ganhei um walk machine, não fiquei tão feliz e até passava pela minha cabeça que aquele brinquedo era coisa de menina. Afinal, não estava (nem estou) totalmente isento das convenções!

Assim, felizmente, não tive pais que trouxeram para a minha educação essas caixinhas. Me deixaram reconhecer o geral e por intermédio das minhas próprias escolhas e percepções defini o que era bom para mim, sem ter que viver demasiadamente um conflito de gêneros.

Mas, de certo, não funciona assim para todo mundo. A cultura nacional tende bastante a encaixotar as crianças nas caixas dos gêneros. Quantas vezes não ouvi o pai de um amigo dizer: “fala direito, moleque! Você é homem!”. A sorte desse meu amigo é que era (e é) realmente heterossexual! (rs)

Quantas vezes não percebi os pais chegarem em seus filhos e dizer: “cruza as pernas direito!”, se referindo a maneira do filho se sentar, julgando que as pernas alinhadas e fechadas “era feio para um homem”. E quando a letra do menino é bonita e tem que passar pelo julgamento de que “letra de homem é garrancho”? Tudo muito engraçado até, mas é assim que é na maioria das vezes. Mãos de homem têm que ser ásperas e fortes! E assim vai…

Daí tem algumas outras bobagens: se a gente pega um copo com o mindinho levantado é estranho (risível essa condição). Se o menino é vaidoso e passa muito tempo na frente do espelho, vão encaixotá-lo.

Um indivíduo que é gay, quando não largado, vai ter que passar por todas essas revisões. Seus pais também, cedo ou tarde. Porque uma coisa é fato lúcido: brinquedos e brincadeiras, no final, não definem a sexualidade de um filho!

1 comentário Adicione o seu

  1. Caio disse:

    Ahhhh danado, desde pequeno já curtia um “gimme gimme gimme a man after midnight” hahahahahaha….desde cedo já sabia o que queria rs

    Eu também não tive uma infância assim “repressora”. Escolhia meus brinquedos e brincava do que eu quisesse. Foi completamente espontâneo meu desejo por certos tipos de brinquedo. Amava carrinhos, caminhões, naves, peças de montar, dinossauros (meus preferidos), monstros, coisas que se destruíam rs. Mas também brinquei as vezes de boneca com as meninas e de casinha também.

    Tempo bom que não volta mais…

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