Ser gay com 20 anos, ser gay próximo aos 40 anos

Chegou aos 40, virou purpurina!
Chegou aos 40, virou purpurina!

Quando eu tinha 20 e poucos anos, uma dúvida constante era saber por onde andariam os gays de 40 anos ou mais. Pareciam invisíveis aos olhos de um pós-adolescente como eu e de meus amigos mais próximos. Não é à toa que o mito da purpurina se fez valer para mim e creio que ainda se faça para a maioria dos jovens gays.

Tal brincadeira, dos gays que depois de certa idade se pulverizam em partículas cintilantes e viram estrelas reluzentes, não é um incômodo a mim, que não demoro muito para completar meus 38 anos. Talvez porque tenha chegado nessa idade bastante resolvido com a minha sexualidade e com os demais importantes aspectos da vida.

Farei nesse post uma breve retrospectiva sob o olhar de minha homossexualidade, do trabalho, das amizades, pais e relacionamentos afetivos para que os jovens gays e os adultos possam entender um pouco melhor dos ciclos que todos nós deveremos passar.

Gay dos 23 anos aos 28 anos:

Sobre a minha homossexualidade: costumo a dizer que sair do armário é um processo. Não nos sentimos gays resolvidos da noite para o dia. Dos meus 20 aos 30 fui assumindo pouco a pouco para meus grupos sociais. Primeiro para os amigos do colegial, depois para meus pais, para meus amigos da faculdade e para algumas pessoas da minha empresa, como ex-sócios e profissionais com mais tempo de casa. Naquele tempo, por uma necessidade autoafirmativa muito grande eu fiz questão de assumir para uma penca de gente. O legal era assumir, assuntar para qualquer indivíduo que se tornasse mais íntimo, pois eu tinha que me “provar” de alguma maneira que teria respeito das pessoas. Mas, sair do armário, vai além de assumir para os outros. É assumir a si e entrar numa busca de se encontrar socialmente. Nesse período, dos 23 aos 28 anos (aproximadamente), eu passei por um longo processo: revi meu jeito de me vestir, descobri o sexo propriamente, passei a viver o começo, o meio e o fim de relacionamentos afetivos, convivi com famílias de meus ex-namorados, casei (!) por quase três anos, e fui – aos poucos – formando o meu modelo de homossexual perante meus grupos sociais e a própria sociedade. Sair do armário é só o primeiro degrau de uma escada longa e cheia de desafios (quando nos permitimos desafiar). Eu sabia que eu era gay pelo fato de me sentir atraído por outro gay, mas não enxergava direito como me posicionar socialmente porque não há uma cartilha gay e, no meu ponto de vista, não deve existir uma única.

No trabalho: optei logo no começo de carreira a ter a minha empresa própria. Parte da energia de fazer acontecer era um tipo de provação, de me provar (e provar para outros) que um gay poderia ser dono de empresa, liderar equipe e conquistar cliente (pessoas). Entendo hoje que “ser gay” era uma questão muito grande de aceitação naquela época e influenciava minhas escolhas. Como gay, teria que ser bom, autônomo e vencedor.

Nas amizades: depois de aceito (e praticamente ninguém me “abandonou”) passava muito do meu tempo contemplando a felicidade e o orgulho de ser o “gay da turma” entre os amigos. Gostava dessa certa exclusividade. Parecia um diferencial, um tipo de destaque e queria acreditar que era daquele jeito. O acolhimento dos amigos acabou ficando três ou quatro vezes mais especial. Existia uma euforia natural por tudo aquilo.

Meus pais: eles levaram um tempo para assimilar a ideia, ou seja, a receptividade não foi imediata. Minha mãe ficou elaborando a novidade por um ano (mais ou menos) e meu pai, apesar de ter reagido pacificamente e de maneira bastante objetiva, iria encarar melhor tudo que era a homossexualidade somente em 2013, quando eu já tinha 36 anos.

Relacionamento afetivo: com 23 anos me assumi, com 23 anos comecei a namorar. Dizem que “só os bonitos namoram” e acho isso uma tremenda bobagem (e falta de autoestima também). Para namorar, talvez seja necessário um pouco de vocação para entender que – nos tempos de hoje – um relacionamento começa, dura um período e termina. Dos 23 aos 28 anos namorei dois rapazes, casei com um terceiro e namorei um quarto. Vivi por muitos anos um propósito inconsciente de me provar que dois homens (embora jovens) poderiam desenvolver relacionamentos afetivos iguais aos heterossexuais, incluindo família, cachorros e etc. Meu ápice de um relacionamento de modelo heteronormativo foi com o rapaz que fui casado. Seguimos o modelão, a cartilha, mas nem por isso deu certo. Porque, de fato, na ingenuidade de um jovem com 26 ou 27 anos, não enxergava que modelos vendidos não nos sustentam. Precisamos criar o nosso hoje em dia, seja gay, seja heterossexual.

Gay dos 28 anos aos 33 anos:

Sobre a minha homossexualidade: a necessidade de se autoafirmar como gay vai passando. Pelo menos para mim, aquela energia, de colocar a homossexualidade como um dos eixos principais para os diversos aspectos da vida, foi se esgotando. Comecei a esquecer que era gay, ou melhor, já compreendia e vivia meu contexto como homossexual por dentro e por fora.

No trabalho: de nada adianta levar um trabalho para provar a capacidade somente. Antes dos 28 anos descobri a importância de planejar, organizar, estruturar e criar parcerias. Nunca tinha usado tanto a cabeça (de cima!).

Nas amizades: comecei a me afastar de alguns amigos por notar que a vida passa por mudanças e nem sempre, nessas transformações, os caminhos se cruzam como outrora. Comecei a aprender a me desapegar.

Meus pais: minha mãe entrou na minha vida 360 graus. Me pai, 350, como filho e sua atenção como pai nos aspectos de carreira e saúde. Os 10 graus restantes, de encarar um namorado meu, por exemplo, estaria ainda por vir. Aprendi a respeitá-lo profundamente sem imposições. O que viesse seria “lucro”.

Relacionamento afetivo: vivi um ano (aos 32) de grandes putarias, luxúrias, gastos ostensivos nas baladas, status e um monte de coisa que certo “demônio” gosta de ver. Mas aos 33 anos voltei a sossegar e entraria num outro namoro que duraria 4 anos, em meio a uma grande e tradicional família italiana!

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Gay dos 33 anos aos 37 anos:

Sobre a minha homossexualidade: aprendi a ser gay. Em outras palavras, tirei o tema do meu foco, deixou de ser eixo e – definitivamente na prática – passou a ser apenas um detalhe. Foi dos 33 para os 34 que resolvi criar o Blog MVG para contribuir com referências, histórias e relatos aos gays do Brasil (e do mundo) que pudessem se interessar. Hoje, só lembro mesmo que sou gay quando foco minhas energias para os assuntos do MVG. No cotidiano, já estou tão acostumado com a minha orientação (e meus grupos sociais também) que não se nota diferença nenhuma. Minha orientação foi normatizada e já sei bem em quais modelos e “caixinhas” eu quero ter a autonomia. Minhas prioridades são outras hoje em dia, tal qual prosperar mais no trabalho e levar meus conhecimentos sobre a homossexualidade para quem quiser ler.

No trabalho: cheguei a uma estabilidade. Minha empresa, embora micro, se consolidou, tenho autonomia, virei empreendedor e aprendi que a minha pegada é criar negócios. Mas para tudo isso não preciso ser necessariamente gay. Na vida a gente aprende mais dando cabeçadas!

Nas amizades: não preciso provar mais para ninguém que sou feliz como gay. No exercício do desapego, notei que mais amizades se distanciaram pelas mudanças individuais necessárias. Amizades são fundamentais, claro, mas priorizo hoje aquele tipo que não cobra presença. Gosto de pessoas independentes. Outrora, funcionava melhor com dependência.

Meus pais: carne de vaca. Minha homossexualidade é página virada. Minha mãe se vê orgulhosa e em paz com tudo aquilo que eu escolhi e que ela apoiou sem impor condições. O relacionamento com meu pai hoje é fluido, mas ele ainda se preocupa comigo, não pela homossexualidade, mas por achar que meu espírito “porra louca” não vai acabar jamais. Ele está certíssimo! Porque provavelmente eu jamais vou parar de inventar novos projetos e formar novos ideais. Isso é ser empreendedor. Isso é a vontade pela busca do autoconhecimento. Incessante.

Relacionamento afetivo: o namoro anterior durou quatro anos. Depois, fiquei aproximadamente sete meses solteiro. Curti um pouco, sem excesso, e hoje estou e sou com Meu Japinha. Continuo gostando de namorar, mas sem grandes propósitos, a não ser o simples prazer de ter alguém caminhando ao meu lado.

Se a gente muda durante o tempo? No mínimo duas vezes! Mas para mim, sei que virá muito mais.

Gay não vira purpurina, mas tende a aquietar e, assim, fica invisível aos olhos frenéticos dos mais novinhos. Agora, ser jovem, descobri que pode ser para sempre!

A vida que começa aos 40 pode começar aos 30, 50 ou 60. Não importa muito a idade física quando a mente está ávida!

13 comentários Adicione o seu

  1. Ferreira disse:

    Simplesmente incrível este post. Me fez pensar sobre o momento que vivo e o futuro. Não é legal pensar em excesso no que virá, mas é inevitável e até saudável se imaginar alguns anos a frente. A sua história de certa forma fornece um referencial.

    1. minhavidagay disse:

      Obrigado, Ferreira! :)

  2. caiorj26 disse:

    Muito bom este post. Estou na primeira fase ainda. De 23 ao 28. Nem tudo é igual ao relatado. Claro que muda de pessoa pra pessoa e a educação que esta teve. Mas imagino que mais 20 anos a frente nossa sociedade estará tão diferente que talvez isto não seja mais preocupação… hoje já nem é tanto..

  3. caiorj26 disse:

    Muito bom este post. Estou na primeira fase ainda. De 23 ao 28. Nem tudo é igual ao relatado. Claro que muda de pessoa pra pessoa e a educação que esta teve. Mas imagino que mais 20 anos a frente nossa sociedade estará tão diferente que talvez isto não seja mais preocupação…

  4. Luiz Leão disse:

    A primeira fase é a mais confusa. Acho que os relacionamentos afetivos me assombram. É juventude e eles me assombram. Vamos ver aos 30, quem sabe eu já superei os meus fantasmas internos.

  5. Maicon Rodrigues disse:

    Obrigado

    1. minhavidagay disse:

      Obrigado! :)

  6. wil e caique disse:

    Ola realmente o post e muito bom, estou com quase 37 e agora comeco a entender e ficar mais tranquilo quanto a minha sexualidade, vejo como voce que os amigos vao e que temos a necessidade de auto afirmacao, para os meus pais nunca contei mas eles sao sabios e ja compreenderam, ja fazem 12 anos que tenho um lindo relacionamento e uma familia linda, Muito obrigado pelo seu tempo gasto em escrever estas palavras

  7. Isabelle disse:

    Cara, na boa, “bastante resolvido com sua sexualidade e com os outros aspectos de sua vida”? Sério? Quem vc quer convencer, a si próprio? Ninguém é bem resolvido assim….vc pode até ser bem resolvido em um ou outro tópico de sua vida, mas legalglobal? Em que dimensão?!! E já me covenci, só pela sua informação, que vc não é nada resolvido! Mas isso é normal também….

    1. Isabelle disse:

      Quis dizer que independente de orientação sexual, ninguém é bem resolvido neste planeta….todo mundo tem questões…!

      1. minhavidagay disse:

        Oi Isabelle,
        tudo bem?

        Não discordo de você. Jamais serei 100% resolvido mesmo porque isso é utópico. No momento que a vida passa por ciclos e fases, as mudanças são inerentes e, assim, teremos que sempre buscar novas resoluções para a própria vida.

        Agora, sobre a minha própria sexualidade, desculpe. Você se equivoca. Se eu não tiver a consciência da minha própria, e assim afirmar que estou “muito bem, obrigado”, não seria você alguém para dizer o contrário.

        Tal post não foi um exercício de autoafirmação. Quem me conhece pessoalmente e intimamente sabe do que estou falando. O que não quer dizer 100%, mas o suficiente para que homossexualidade seja qualquer coisa hoje em dia.

        De qualquer forma, eis a sua opinião que fica aqui registrado.

        Obrigado! :)

  8. andre disse:

    Eu estou com 40 e penso assim como você.

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