Sair das regras as vezes incomoda


Todo mundo que passa por aqui sabe e entende que o gay foge à regra da heterossexualidade. Nesse contexto, homo VS. hétero, fica fácil identificar o incômodo que causamos para algumas pessoas até que elas se acostumem com a ideia de ter um filho, irmão ou amigo gay.

Existem “normas sociais” que estão sendo reescritas, a medida que o homossexual consegue mostrar o tal orgulho, que se traduz no fato de que também podemos entrar na “normalidade”. Aos poucos, temos conquistado espaço e afetos, embora existam ainda muitos casos de aversão por aí, dispersos nesse Brasil das diferenças.

Ontem, depois de quase um ano sem rever os amigos do meu ex-namorado estive presente em sua festa de aniversário. Não só confirmei como fiquei encarregado de levar as comidas, doces e o bolo, aqueles que meu ex encomendou numa padoca perto da minha casa. Já tínhamos a referência do lugar em festas anteriores.

São nove meses ou mais que terminamos. Seus amigos mais próximos (amigas na verdade e acho que o gênero nesse momento faz diferença) nunca aceitaram bem a ideia de eu e meu ex estabelecermos uma amizade. O mesmo para algumas de suas primas. Então ontem foi o dia, depois que terminamos, que estaria presente em meio a todos. A plateia estava armada!

O que existe nesse contexto é um padrão cultural. A esmagadora maioria das pessoas entende que depois que se termina um relacionamento, a única saída é o distanciamento e, hoje, com as redes sociais, quanto mais apresentamos para o “nosso mundo” de seguidores que estamos “selfie, bem e feliz” sem o ex, mais exercemos tal função cultural. O que no meu ponto de vista é um erro, quase que uma cagada.

Sempre me questionei o por quê de termos que fazer assim e, de fato, todas as minhas reflexões desembocam no sentimento de egoísmo. Depois que a gente termina uma relação, tendemos a não suportar a ideia de que nosso ex pode ser feliz, alegre e contente sem a gente. O ego fica orgulhoso e nunca quer ficar por baixo. Somos quase ridículos!

Mas tal modelo de pensamento, para mim, é pouco maduro. Se eu tive 4 anos incríveis, de muita troca e crescimento mútuo, porque jogar fora? Não dá para conviver como um amigo? O ego normalmente não suporta.

Cheguei na festa sem mais o status de namorado. No máximo, talvez, um título de ex, como alguém durante a celebração questionou. Foi extremamente traquilo chegar naquele ambiente como mais um convidado, amigo, que dos 40 integrantes eu não conhecia apenas dois.

As “caixinhas” que lá se agruparam continuam iguais: as meninas solteiras continuam solteiras, os rapazes solteiros continuam solteiros e os namorados continuam namorados. Apenas um casal de sapas era a novidade para mim pois, uma delas, até nosso último contato, ainda não tinha experimentado meninas. Experimentou, gostou e está namorando. A amiga deixou de fazer parte da caixinha das “eternas solteiras” e passou para o “time daqui”, dos gays com um namoro.

Meu ex, o aniversariante, um mês depois que terminou comigo entrou num barco furado! Teve que viver dois lutos que se encavalaram e chegou em seus trinta anos para exorcizar! Muito bom duas coisas: poder presenciar suas vivências e entrar naquela caixinha de novo com outro tipo de status: apenas como mais um convidado.

A grande maioria – diante do padrão cultural – estranha a simpatia que eu e meu ex temos um pelo outro. Quase como uma “maquininha”, muitas das pessoas devem ter levantado a questão: “o MVG deve ainda gostar do ex e vice-versa”. Claro que gosto. Definimos não jogar fora 4 anos de trocas e temos nos esforçado para transformar um namoro passado em uma amizade presente, o que inclui um certo confrontamento velado com o modelo cultural geral.

Mas vamos combinar: depois de 13 anos assumido como gay, conhecendo inúmeras caixinhas durante três anos de Blog MVG e vivendo meu sexto namoro, sou eu que tenho que ensinar ou são as pessoas que têm que aprender? O silêncio, nessas horas, é sábio.

Ontem, entrei e sai de uma caixinha que me pertencia sem precisar dar satisfação.

No final da balada, o modelo cultural se manifestou, quando minha “ex-cunhada”, na presença de seu marido me perguntou:

– E o seu Japinha? Ele é tranquilo de você estar aqui?

– Ele é sim – respondi sem querer entrar em detalhes.

– Puxa… adulto e maduro ele, né?

– Ele é.

Como Meu Japinha está longe, não sei ao certo o que se passa em seu íntimo a respeito desse assunto. Conversamos algumas vezes a respeito e estamos em conformidade, mesmo porque não somos totalmente isentos dos modelos, por mais amadurecidos que sejamos. Mas perante a “caixinha do meu ex”, de certo, meu Japinha é alguém lúcido e esclarecido! E se, por ventura, houver alguma questão entre nós, não são os outros que precisam se envolver.

Sei muito bem como romper com modelos culturais é difícil. Tão difícil como para o homem (gay) casado e com filhos e que não sustenta mais a cartilha heterossexual. Tão confuso como achar que todo homem afeminado está fadado a ser gay. Tão limitado como a imagem do homossexual que está atrelada ao sexo, ativismo e o humor debochado. É difícil abrir espaço para modelos próprios, sofrer julgamentos abertos ou velados e ainda dar a volta por cima.

Para tanto é necessário integridade, coragem e uma boa parcela do “que se foda”. A gente tem que aprender a se bancar.

O acordo que tenho com meu ex é pessoal e não está livre das fofocas e das projeções de insegurança dos outros. Mas, por enquanto, não há julgamento que seja mais forte do que a lealdade estabelecida. Definitivamente, são os outros que precisam aprender alguma coisa.

4 comentários Adicione o seu

  1. Luiz Leão disse:

    Acho que a maturidade social, em torno de qualquer tipo de relacionamento hoje, é imatura. Falar em ex torna-se socialmente complicado. É uma palavra, uma pessoa, que passou e isso assusta. Somos convencidos de que manter algum relacionamento com um ex é brincar com fogo. Pode ser. E pode não ser.

  2. minhavidagay disse:

    Oi Luiz!
    Pode ser e pode não ser. Tudo vai depender da integridade do interlocutor. Mas, pelo visto, a grande maioria não topa bancar! É mais cômodo privilegiar o ego ao invés de acreditar no bem que uma relação de quatro anos (não foram seis meses) proporcionou um ao outro. Isso tem muito a ver com o amor indondicional mas, por enquanto, preferimos tratar o outro como posse. Não mais serviu? Então é melhor jogar fora…

  3. caiorj26 disse:

    Não mantive amizade com nenhum dos meus três ex-namorados. As vezes, esbarro em um mas não passa de um cumprimento. Se um namoro foi tão bom para durar 6 meses ou 6 anos é porque alguma coisa aquela pessoa tinha de especial. Terminar uma relação e engatar numa amizade imediatamente acho muito sofrido… porém, com o tempo longe dela aparecem outras pessoas, rotinas, interesses… e uma amizade posterior pode ser desinteressante… Não só o ex-namorado como as pessoas e lugares deste círculo.
    Acho possível sim ser amigo do ex-namorado sem cair na tentação de um “flashback”, mas não acho uma obrigação. Abs a todos.

  4. EAS disse:

    Estou me preparando para um processo de separação . E é impressionante como a gente quer se encaixar na caixinha de “como se divorciar”. Pertence a essa caixinha : sumir do mapa e manter contato mínimo, brigar pela separação dos bens, brigar pela guarda dos filhos, querer sair por cima desse término .

    Se não fizesse terapia, achava que ia ser assim e pronto. Mas um hora isso incomoda tanto que dizemos : quero fazer do meu jeito . Quero resguardar o outro e os filhos . Pode ? Sim. Mas depende da condução e do equilíbrio de ambas as partes – e nem sempre só de você. Não quero levar “vantagem” em nada – pois quero o conforto dos que amo . Prefiro abrir mão de bens a ter que eternizar brigas . E aí ? Está certo ou errado ?

    Não sei, mas dessa última forma fico em paz comigo mesmo . E tchau modelo social de separação .

    Abraços !!!

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