O feitiço do heterossexual!


Já dediquei um post sobre essa nossa fissura, dos gays por heterossexuais e, “desde sempre”, um dos textos mais lidos no Blog MVG é “Sou gay e me apaixonei pelo meu amigo hétero”.

Quando escrevi esse post, fundamentei toda a minha percepção nas experiências que tinha na rua, entre amigos e colegas. Era muito frequente alguém “brincar” sobre esse assunto e tal brincadeira sempre tinha um conotação maliciosa ou um registro de uma paixão não correspondida.

Muitas pessoas sofrem por entender os por quês das coisas, ao contrário de mim que busco elaborar a maioria das minhas dúvidas. O envolvimento por algum conhecido ou amigo hétero, torna-se um verdadeiro problema dilemático quando o gay se vê perdidamente apaixonado. A pessoa não sai da cabeça e, em certa medida, o homossexual abandona muitas vezes a sua rotina, seus interesses de vida, para passar a maior parte do tempo com tal amigo. No momento que começa a incomodar ou atrapalhar, é necessário ficar atento!

No começo dessas emoções, devem existir aquelas expectativas, uma falta de certeza, quase como numa brincadeira ou uma graça. Mas e quando toda a atenção do gay se volta ao indivíduo hétero e não se têm nenhuma outra referência a mais, a não ser do profundo desejo de se envolver com o amigo?

Eis uma realidade evidente, que faz o post “Sou gay é me apaixonei pelo meu amigo hétero” ser um dos mais lidos em todo tempo de Blog e, inclusive, apresenta inúmeros relatos de leitores na área de comentários. A esmagadora maioria dos casos descritos apresenta os mesmos diagnósticos:

– uma intensidade emocional (do gay quase não conseguir pensar em outra pessoa a não ser o amigo hétero);

– uma vontade de estar junto a maior parte do tempo;

– uma necessidade compulsiva de querer confirmar que qualquer gesto, até o mais improvável que seja, poderia – supostamente – sugerir que o amigo fosse gay;

– uma falta de jeito tremenda para revelar o interesse, mesmo quando o amigo hétero sabe que é gay.

Tais “sintomas”, além daqueles que estão claramente descritos nos comentários do posts, foram bastante recorrentes em épocas do Blog MVG, quando recebia e-mails de alguns leitores com casos semelhates.

Este modelo comportamental sugere um padrão, que no mínimo é intrigante.

O MVG, a mim e durante os mais de três anos, tem servido como um meio para identificar alguns padrões comportamentais, que são as “famosas caixinhas” que tanto falo por aqui. Será que uma paixão platônica do gay por um amigo heterossexual faz parte da homonormatividade?

Aprendi na vida e nos mais de 10 anos de sessão de terapia, que todos padrões (e temos vários) que nos limitam, sufocam ou incomodam podem ser controlados e revistos. Mas me parece que, na mesma medida que os gays publicam seus relatos a respeito desses casos, com um nítido teor de desespero, angústia e aflição, ao mesmo tempo, parece existir um prazer. É como se fosse um tipo de vício.

Curioso também que tais casos vêm a mim com o máximo de detalhamento possível sobre as maneiras, formas e jeitos os quais tais amigos heterossexuais tratam de seus respectivos amigos, como se fosse efetivamente possível caracterizar um “modo gay”. É engraçado e preciso dizer isso que me deixa um pouco inconformado: passamos a vida toda batalhando para tirar o gay da caixinha, assumindo de maneira lúcida, coerente e verdadeira que não existe um jeito gay de ser e, nessas horas, o gay envolvido pelo colega faz o contrário, lança mão de seus ideais lúcidos e tenta arrancar “da pinta do nariz do amigo” a hipótese dele ser gay, e mais, quer que eu valide – como se a minha percepção sobre alguém que eu nunca vi na vida – pudesse confirmar tal verdade!

Desculpe, queridos leitores, mas o MVG não vai alimentar a “loucura” de vocês! O papel aqui, se há algum, é ao contrário! Desculpem novamente: meu papel, se há algum, é ao contrário!

A mim tudo isso, seguindo os termos da psicologia, se chama obsessão. Pode ser compulsão também e tais comportamentos acontecem por “n” motivos que cabe ao leitor resolver com uma boa terapia.

Alguns gays ficam obsecados por uma imagem idealizada de um homem heterossexual e projetam todas as expectivas no amigo (quais são elas, cabe a cada um identificar). A mim é claramente uma imagem idealizada (projetada, fantasiada, diferente do real) porque convenhamos: se o outro lado realmente ceder, ele não é hétero! PUF! Acabou, fantasia!

Assim, da mesma maneira que finalizei o post orginal sobre o assunto, digo: “Tornar-se adulto e ainda cobiçar heterossexuais não costuma ser muito bacana” (esse “bacana” é um eufemismo!). Terapia agora!

8 comentários Adicione o seu

  1. Pedro disse:

    Primeiro parabéns pelo Blog, acho que é uma das melhores referências sobre homossexualidade em português que eu já encontrei.

    Acho que o fato de muitos de nós sermos homossexuais egodistônicos conta muito nessa situação toda. Existe um desejo que não pode ser realizado, você não pode se relacionar com alguém que seja semelhante a você, afinal você tem um preconceito com tudo que se refere à homossexualidade, você não tem amigos homossexuais, você não frequenta lugares onde os gays normalmente estão, e aí todo esse desejo aprisionado acaba sendo descarregado naquela pessoa do mesmo sexo que você tem mais afinidade.
    O problema disso tudo é que na maioria das vezes vai acabar em merda, você foge daquilo você é, e procura se encontrar no outro. Você projeta no outro tudo aquilo você gostaria de ser/ter, da masculinidade do outro, do amor do outro. E fica no será que ele é, se ele for é mais fácil né, tem alguém pra enfrentar junto contigo a “barra” de ser homossexual.
    E acaba muitas vezes vivendo a vida do outro e esquece da sua. E a tua vida vai pro beleléu porque no final, aquele outro que você tanto amava, muitas vezes não te amava como você gostaria e em muitos casos se aproveita da situação e tira vantagens disso, e você fica iludido com aquilo tudo pensando que o cara te amava.
    Tenho aprendido pela dor, com quais pessoas devo me envolver ou não. Meio dramático, falar isso, mas eu sou gay e felizmente tenho esse direito, de poder expressar meus sentimentos sem sentir vergonha de tê-los, muito embora saiba que isto não precisa ser encarado desta maneira.
    Aos poucos as frestas do armário estão sendo abertas por mim, e confesso que não está sendo nada fácil, quando estava acostumado a viver na escuridão, ao ver luz meus olhos doem por não estarem acostumados a ela, causando um desconforto enorme, mas eu sei que isso é necessário.
    Acredito firmemente que acima de tudo o melhor antídoto contra o “apaixonar pelo amigo hétero”, é ter uma auto-aceitação elevada de si mesmo. É saber que ser gay não é esse bicho todo que a sociedade preconceituosa afirma, e ir aos poucos construindo sua experiência de ser homossexual de uma forma própria, autêntica. Acho que pra mim fica muito o que Foucault anos atrás afirmou, o que vale pra gente, não é o que a gente é, porque isso afinal não pode ser modificado, mas como vamos nos comportar, como vamos agir, a partir dos instrumentos que dispomos que são ofertados pelo nosso próprio ser.

    1. minhavidagay disse:

      Oi Pedro,
      suas dicas foram objetivas, mas precisas.

      A autoaceitação, nada mais é que o olhar a si mesmo e buscar por uma autoestima. Porque, de fato, não existe um modelo heterossexual também, a não ser em nosso imaginário, assim como estamos quebrando e rompendo com modelos homossexuais.

      Voltamos a falar em breve.

      Um abraço,
      MVG

      1. Cara, faz muito sentido tudo que escreveu. Mas será que alguém que vença isso, ainda sim verá algum interesse num cara afeminado, por exemplo? Parece que a homossexualidade é totalmente incompatível com o que ela mesma deseja. Me sinto confuso! Com dor…

  2. EAS disse:

    A paixão do gay pelo heterossexual nada mais é do que a paixão platônica, pela qual todos nós passamos um dia independente de ser gay ou não . Para a mulher – adolescente, pode ser o cara mais velho ou o mais popular da turma. Ou para uma jovem, o seu chefe bonitão casado que uma dia vai largar tudo por ela . E por aí vai.

    No caso do gay, a figura mais inatingível é o hétero – então vamos sonhar a distância e projetar toda uma expectativa em cima do irreal. Pode ser uma fase de amadurecimento dos sentimentos – importante para a pessoa ter um insight sobre auto estima e amor próprio e superar isso .

    Ou pode continuar essa retro alimentação eterna – e estamos falando de distúrbio psicológico, obsessão mesmo .

    Nesse último caso, concordo inteiramente : terapia urgente !!!!!

  3. Caio disse:

    O que tenho a dizer sobre o tema é que também sinto que esta “síndrome” está mesmo bem propagada entre os gays. Sempre achei besteira esse pessoal que fica correndo atrás de quem eles não podem ter e muitas vezes só para terem a sensação de buscar o quase impossível, como se fossem ganhar um troféu com isso. Eu não consigo ver vantagem nisso, mas cada um com suas vontades. Concordo com o pensamento do MVG e dos outros comentaristas, mas há algo a mais aí.

    Alguns dizem que esses gays que se atraem por héteros, são assim porque gostam de correr atrás de quem é mais difícil de se conseguir. Ou porque é uma fantasia que não pode se realizar, mas que deve ser vivenciada, o que para mim é completamente destrutivo, pois vai chegar um determinado momento em que o cara que vive assim não vai mais aguentar de tantas não realizações em sua vida.

    Acho mais plausível a ideia de que como a sociedade vê uma maior masculinidade nos homens heterossexuais (e de fato, não sendo hipócrita, é verdadeira em questão de proporção. Sempre relutei à esta verdade, mas caindo na real não posso mais defendê-la), é isso o que realmente acaba chamando mais a atenção da maioria dos gays.

    Eu também me atraí por alguns ao longo da vida e talvez aconteça novamente, mas não porque é um desejo louco pela heterossexualidade em si, como se fosse uma fantasia, a qual me referi no segundo parágrafo, mas sim por causa do cara em si, da maneira como ele se comporta.

    Eu não tenho essa neura de que o cara tem que ser heterossexual para que ele chame a minha atenção e, então, eu me realize, caso esta “relação impossível” se concretize (e se se concretiza-se, o tal desejado não seria mais hétero, como você bem disse XD). O que importa ao meu ver é o cara preencher as minhas expectativas e de preferência, que goste de homens também, para que a vontade vire realidade. Deixá-la somente no mundo das ideias comigo não rola rs.

    Acho que um retrato real que ilustra bem esta postagem é o escritor de um blog que conheci um tempo atrás. Chama-se ogaysozinho.blogspot.com, se não me engano.
    É um homem que diz só se interessar por homens heterossexuais, sendo que para ele não cabe considerar a masculinidade em si, pois segundo suas palavras, até os gays masculinizados não são suficientes para deixá-lo realizado. Eles precisam ser héteros. E se não me engano, ele já está na maturidade sem ter tido uma relação com outro homem devido a esta situação. Não vou julgar, mas acho que isso é doloroso.

    Abraços.

    1. Cara, faz muito sentido tudo que escreveu. Mas será que alguém que vença isso, ainda sim verá algum interesse num cara afeminado, por exemplo? Parece que a homossexualidade é totalmente incompatível com o que ela mesma deseja. Me sinto confuso! Com dor… (perguntei isso aos que comentaram aqui, porque preciso saber opiniões diferentes)

  4. joanjo sheldon orlando disse:

    ola primeiramente quero lhe dar os parabens pelo blog lindo….. Bom eu sou gay mais nao assumido pelos meus pais seu blog vem me ajudando bastante eu queri q voce me desse umas dicas de como se revelar pffv eu to desesperado…..

    1. minhavidagay disse:

      Oi Joanjo!
      Manda um email pelo contayo, ok?

      Abraço,
      MVG

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