Amor fácil, amor simples

banner_half

A gente, na maioria das vezes, idealiza mesmo o amor fácil, quando um homem (ou menino) nos bajula, nos joga para o alto e nos oferece coisas quase que num tipo de serventia. Dizem por aí, que a maioria dos homens (gays ou heterossexuais), são educados em seus contextos familiares (principalmente das mães) para terem afagos e privilégios. Se realmente isso é uma verdade, o gay, assim, acaba buscando no outro homem (idealizado) esse “colo confortável”. Daí são dois esperando muito um do outro e, no final, ninguém preenche porque ambos aguardam receber.

Se tal matemática for verdadeira ou representar a maioria, teremos bastante trabalho pela frente ainda, quando o assunto for relacionamento homossexual e homoafetivo. Porque, pelo que vejo por aí, a maioria dos homens gays procuram mesmo por esse amor fácil. Sem querer, ou com um propósito claro, criam expectativas sobre o outro e, quando este segundo não oferece, rapidamente a relação mucha, enfraquece, perde a graça ou esfria. Não botam na mesa, porque “DR” é muito chato entre dois homens. Mexe com vaidades, e homem é tosco para tratar de suas vaidades. É geneticamente homem, mesmo que gay.

No final, rolam alguns poucos meses de caso e nem há o tempo de efetivamente criar intimidade, de um entrar mais a fundo na vida do outro e de realmente se estabelecer laços afetivos. Como criar afeto real por alguém que não supre, que não chega e que não vem para completar nossas demandas?

Se tais ideias fazem sentido, digo que há uma luz no fim do túnel para aqueles que realmente querem mudar tal modelo, tal caixinha. É o exame de consciência:

A gente, homem ou menino gays, precisa passar por revisões pessoais e tudo começa do berço: ser o “queridinho da mamãe” (ou do papai), o homem preterido, pode nos trazer muito conforto e o status desejado no núcleo familiar. Mas, na hora do vamos ver, quando a busca pelo mundo for para achar um parceiro, o outro, muito provavelmente também preterido, vai esperar a mesma coisa de você. São dois passivos de atitude querendo afagos, elogios e plateia! Têm dificuldades para dividir o palco.

A pergunta é: quem efetivamente avança? E não falo sobre sexo, acordem! Sexo entre dois homens é tão fácil como descascar banana e o trocadilho é justo. Falo de intimidade.

É possível transformar o amor fácil em amor simples, que não quer dizer “felizes para sempre”, mas que “seja eterno enquanto dure”. A ideia de “felizes para sempre” gera muita expectativa para um futuro incerto, principalmente no contexto que nos encontramos hoje. O mundo mudou e o “enterno enquanto dure” nos dá mais chances de firmarmos no aqui e agora e, consequentemente, ser feliz. O jovem ou homem gays precisam também idealizar menos. As cartilhas heterossexuais tradicionais nem sempre nos representam, e já disse que a gente precisa criar e inventar.

Ao mesmo tempo, não estou dizendo que um casal de gays não possa viver 10, 20 ou 30 anos juntos. Nesse ponto, tudo vai depender da capacidade de reinvenção, de revisão de padrões e modelos do par. A mesmíssima coisa para o casal hétero. Vai depender de sintonia, amizade, companheirismo e muito querer (esforço). Mas se você nem teve um primeiro namorado e nunca aprendeu a dividir sua plateia, vai já querer formar o “casal da propaganda da margarina”?! Está viajando!

O que estou dizendo é que não encontramos uma outra pessoa por carência ou conveniência. Carência ou conveniência é esse amor fácil, oportuno, que provavelmente oferecerá a nós um relacionamento rápido ou sempre a desejar. Amor fácil é fantasia, e a realidade é outra. É mais ou menos tudo isso que estou falando.

Eu busco chegar no amor simples faz tempo. Tal busca, as vezes, implica em começar uma história com uma pessoa, manter com toda força de vontade e aceitar com serenidade um possível fim. Pode durar 3 meses, 6 ou 4 anos. Mas a gente tentou, fomos até a última gota. Vejam só que estou na minha sexta relação afetiva que deve passar de um ano e meio (no mínimo dos mínimos). Sou incapaz de dizer que as demais relações anteriores deram errado só porque terminaram. Essa coisa de “dar errado” é uma convenção cultural focada na referência da “cartilha dos avós”, eternamente juntos. E a gente sofre à toa por acreditar tanto nesse modelo. Aliás, vocês sofrem. Eu não.

Claro que estou mais preparado, tenho bagagem e mais clareza sobre como me colocar num namoro hoje, do que aos 23 anos, quando comecei a namorar pela primeira vez. Porque é isso mesmo que é importante e quase que inevitável: a gente tem que cuidar do nosso e não achar que um possível namoro tem que ser para sempre. A gente tem que sacar como se posicionar perante o parceiro e não esperar que o outro seja sensível o suficiente para cobrir todas as lacunas de nossas sentimentalidades e de nossos egoísmos.

Antes da gente se sentir bem quando estamos namorando, convém a gente se sentir bem sozinho, sabe? Estar feliz consigo não diz respeito somente à autoafirmação ativista, do tipo: “sou gay, caralho! sou feliz!”. Estar bem consigo deve responder uma pergunta positivamente: “você se gosta o suficiente sob todos os aspectos?”. Se não sabe quais aspectos, é bom começar a pensar porque são muitos.

Tal situação, da gente esperar muito do homem, não é diferente da mulher em relação ao cara hétero. A diferença é que a mulher costuma dar a letra do que falta, joga verde, sugere, bota na mesa ou faz charme para o cara sacar. Já o homem gay, na grande maioria das vezes, ou deixa quieto e vai acumulando, evitando todas as DR’s possíveis, ou extrapola, faz a vez de cinco mulheres neuróticas e surtadas ao mesmo tempo! Porque quando o homem está descontrolado é mais intenso que a maioria das mulheres. Se é!

Mas verdade seja dita: chegar no amor simples, para a grande maioria, leva-se tempo. A gente vai ter que calar e acumular muito sapo ou extrapolar como cinco mulheres neuróticas várias vezes.

Se eu sou um cara mais preparado hoje para namorar, se estou mais próximo desse amor simples – que inclusive confere conteúdo para esse post – é porque eu dei a cara para bater diversas vezes.

Você está esperando o quê, “sentado ainda no colo da mamãe”, esperando o príncipe que vai trazer concreto para fechar suas carências ou desejando o amigo hétero? Nem esse último é o tal que você idealiza tanto.

3 comentários Adicione o seu

  1. G Silveira disse:

    Olá, sou do blog Tô Passada e te convido para trocarmos figurinhas. Se puder entre no meu blog e me siga. Obrigado.

  2. W disse:

    Esse texto foi praticamente um “acorda pra vida cara!” e infelizmente me identifiquei com um aspecto exposto no texto: expectativas. Mas venho tentando mudar isso.
    E sobre idealizar um namoro duradouro, acho que isso também tem muita relação com a ideia de que ninguém que envelhecer sozinho e tal.
    Enfim, gostei bastante do texto (inclusive vou reler mais vezes)!

  3. minhavidagay disse:

    Obrigado, W!
    Quando você fala que ninguém quer envelhecer sozinho, abordamos também um assunto de convenção social, como ser velho fosse ser necessariamente inválido, desinteressante e jogado. Isso é mais cultural do que realidade hoje.

    O que justifica tantos homens e mulheres, com seus setenta anos em boa forma física e com franca disposição de socialização? O mundo tem mudado faz tempo, mas ainda estamos apegados a modelos idealizados antiquados.

    Temos que acordar para uma nova realidade que já vem se formando faz tempo.

    Um abraço,
    MVG

Deixe uma resposta