Ser gay: orientação ou condição?

Recentemente lancei um post no Facebook do MVG que gerou uma certa polêmica, quando tratei a homossexualidade como orientação e não como condição. Alguns dos poucos fãs que comentaram, manifestaram uma antipatia pela palavra “orientação”, preferindo veementemente a palavra “condição”. Afinal, quais dos dois termos é o correto?

Antes de mais nada, o fato de tais conceitos polemizarem, revela o quanto o nosso próprio grupo anda desestruturado, no sentido da desordem, para que os próprios gays se contextualizem e se assegurem. Já não era hora de sabermos definir tais conceitos sem ter dúvidas?

Pois bem, ainda polemizamos sobre tal fato “condição VS. orientação” e, como qualquer assunto que sai do Blog MVG, é necessário haver embasamentos e reflexões, muito além da imposição. Se não se debate, se não se discute com argumentos, não se desenvolve o senso crítico ou critérios.

Claro que o MVG tem aqui um ponto de vista e os seus por quês.

Ser gay não é condição porque não somos pessoas condicionadas a alguma coisa externa a nós mesmos para sermos gays. Nos condicionamos sim, muitas vezes, para sermos enrustidos! Talvez estejamos condicionados aos nossos sentimentos e desejos por outro do mesmo sexo, mas isso é um tanto óbvio, todos nós estamos, gays, heterossexuais, g0ys, transgêneros, etc.

A nossa natureza caminha por identificação. Num contexto social, diante de um certo conflito com heterossexuais que impõem a sua maneira, podemos até tratar a homossexualidade como uma condição (defesa) e o próprio verbo “condicionar” se refere a alguma coisa externa ao objeto. “O pai está condicionado a levar o filho ao shopping de carro. O menino só vai se for de carro”. “Eu só vou conseguir comprar um novo celular na condição de receber meu salário a tempo”.

Mas eu sou gay. A exatamente a o quê eu estou condicionado? A um sentimento reativo e ativista contra os heterossexuais? Desculpem, mas a minha homossexualidade não depende dos heterossexuais. Eu não sou gay porque não quero ser heterossexual.

Aliás, ser homossexual não depende de nada, a não ser pela natureza interior de identificação, e estar condicionado a algo sugere uma pressão de valores externos. Acontece que eu não sou gay porque fulano é hétero. Eu não imponho a minha condição gay porque beltrano impõe a sua condição heterossexual. São identidades distintas que, em um contexto de orientação, não competem.

Ser gay é uma orientação porque a orientação nos dá o livre arbítrio. “Minha mãe me orientou sobre os caminhos profissionais possíveis. Eu poderia ser professor, médico, advogado, administrador, publicitário, designer, entre tantas outras profissões. Senti as possibilidades e me identifiquei com determinados caminhos. Em nenhum momento ela disse que tal profissão seria a melhor. Isso se chama orientação”. A orientação não coloca condições do tipo: “faça medicina porque assim você estará condicionado a melhores ganhos financeiros”. “Seja gay porque assim você se dará mais ou menos bem”. A orientação é diretamente relacionada à identificação inerente ao próprio indivíduo sem a manipulação, influência ou cobrança externas. São particulares e pessoais, e não se condicionam a opiniões, imposições ou preferências de outras pessoas. Não é exatamente assim quando o assunto é a sexualidade? Então, não me venham falar de condições…

Portanto, amigos leitores, embora os termos não estejam devidamente institucionalizados e difundidos, apesar de haver uma certa “pressão heterossexual” querendo nos condicionar a uma determinada regra do jogo, não me sinto suficientemente capaz de entender a homossexualidade como uma outra condição. Não desejo que o hétero se condicione às sentimentalidades e emoções dos gays nem vice-versa. Nesse caso, espera-se compreensão, o que é bem diferente de condição. Condição subetende alguma imposição.

Cabe a todos os indivíduos, serem orientados sobre a diversidade sexual existente para que cada um encontre uma identificação. Assim, cada um terá a liberdade de se orientar por um dos caminhos apresentados (por um bom educador ou pela própria vida) cujos estímulos serão inerentes a cada indivíduo. Tal orientação, hoje, não se vem dos pais, muito menos dos professores, mesmo porque a orientação nesse país é rasa e parcial. Mas isso são outros quinhentos.

Essa coisa de que gay é uma condição, hoje, a mim, não deixa de ser uma necessidade autoafirmativa do gay, porque gostos, simpatias e desejos, todos temos depois de devidamente orientados sobre as possibilidades sexuais que nos trarão mais ou menos identificação.

Convenhamos: ninguém muda o gosto e preferências de um gay, nem de um heterossexual. A condição já é óbvia a todos. Estamos condicionados aos nossos gostos (Dãr! – rs). “Eu, durante meu crescimento, me identifico. Logo, me oriento”. Orientar não significa impor, pelo contrário. Orientar significa transmitir e apresentar a abrangência de possibilidades sobre determinado assunto com imparcialidade, para que o indivíduo orientado tenha liberdade de identificação. Tal explicação funciona desde para um orientador vocacional, orientador de TCC, um orientador sexual e qualquer outro orientador que seja, no mínimo, ético. Não está sob julgamento a capacitação do orientador, nesse caso. Condição gay, no final, é mais um subterfúgio para nos autoafirmarmos: “daqui ninguém me tira”. Mas quem disse que dessas coisas a gente entra ou sai quando bem entender? Não é escolha, não é opção e, condição, não deixa de ser aquela vontade atual de afirmar que estamos certos com o que somos. Não tem “certo” em ser gay, nem em ser heterossexual.

O que estou fazendo aqui é um ato de orientação. Orientação gay.

 

11 comentários Adicione o seu

  1. continuo discordando, desculpe… não me assumi gay por analisar e ser orientado e apresentado ao mundo gay… segundo vc “Orientar significa transmitir e apresentar a abrangência de possibilidades sobre determinado assunto com imparcialidade, para que o indivíduo orientado tenha liberdade de identificação” eu não me identificava com o mundo gay eu tinha medo do mundo gay medo de tudo que ser gay significa… #chacota #violencia #preconceito entao ver isso e ainda assim ser gay seria no minimo mazoquismo… segundo o dicionario Condição significa : s.f. Maneira de ser, estado de uma pessoa ou de uma coisa: condição humana.
    Circunstâncias de que dependem as pessoas ou as coisas.
    Posição social: desigualdade de condições.
    Estado favorável ou desfavorável: melhorar as condições materiais de existência.
    Base fundamental, qualidade requerida: o trabalho é condição do sucesso.
    Cláusula, convenção de que depende a validade de um ato: as condições de um armistício. entao de todos os significados possiveis vc escolheu o ultimo… desculpa, eu nao concordo… sou gay porque independe de mim… sou gay por ser quem sou, e nao pq fui orientado por algo ou alguem, manter esse discurso é no minimo acatar o que dizem os pastores fundamentalistas…

    1. minhavidagay disse:

      Respeito a sua opinião e quem sou para julgar seu histórico de vida? Mas vc dizer que eu, no mínimo, acato com os pastores fundamentalistas, é sacanagem! Rs Se isso é o “mínimo”, qual o máximo? Rs

  2. Nick disse:

    Eu acho que você se perde nos termos. No caso de sexualidade, o termo orientação sexual veio substituir o termo opção sexual nos estudos sobre a sexualidade. Psicólogos, médicos, psiquiatras e outros estudiosos da sexualidade humana preferem usar hoje o termo orientação sexual, pois segundo a visão deles vários fatores (biológicos r culturais) se combinam para orientar a sexualidade humana: homo, bi ou hetero. Muitos gays preferem o termo condição pois este termo leva crer que a sexualidade que for é imutável, que nascemos com ela, temos essa condição desde o nascimento (como uma pessoa com síndrome de down tem essa condição, uma pessoa de olhos verdes tem essa condição). Como eu acho que o ser humano é mais complexo do que nasci assim, sou assim e serei assim, prefiro o termo orientação sexual.

  3. minhavidagay disse:

    Oi Nick, eu acho que estamos falando da mesma coisa, não entendo onde me perco. Se psicólogos, médicos, psiquiatras entre outros estudiosos adotam o termo “orientação sexual”, inclusive da maneira que expliquei no post, não vejo porque o gay se apropriar e instituir “condição sexual”.

    A mim parece ainda que o termo “condição” é o “daqui ninguém me tira”, como numa proteção, é o mesmo que autoafirmar o óbvio. Não acho esperto se apropriar de conceitos e colocar como verdade num contexto ativista. São essas apropriações que, inclusive, detonam a educação e confundem mais as pessoas.

    O gay enrustido, por exemplo, está fadado a uma condição? Não seria muito mais “leve” tratar como uma orientação, sobre os termos científicos os quais descrevo aqui?

    Não me sinto confortável em me apropriar de conceitos de responsabilidade de outros por uma causa. O que afirmo, sem me perder nos termos é isso: nos apropriamos da tal “condição sexual” para autoafirmação, “me deixe como eu sou porque não tem como mudar”. É óbvio que não tem como mudar forçadamente. Assim como não se muda um hétero. Já a orientação caracteriza a livre identificação.

    PS: Se tiver oportunidade, veja depois o post. Me refiro exatamente que orientação substitui opção.

  4. Fabio disse:

    estou confuso!!!

  5. minhavidagay disse:

    rs… te explico, Fabio: parte dos gays querem tratar a homossexualidade como condição, sendo que a classe de estudiosos definiram como orientação.

    Toda polêmica se gerou a partir de um post que lancei no Facebook no MVG que diz que não é certo falar opção ou escolha nos assuntos da sexualidade. A gente não escolhe ser hétero. Consequentemente não escolhe ser gay.

    Claro que o post foi compartilhado e curtido por uma maioria que entendeu que, a convenção hoje, é que sexualidade é uma orientação, ou seja, na busca de nossa identidade sexual temos hoje o hétero, o gay, o trans e etc (a cada ano surge um novo subsegmento como os gouines, g0ys entre outros que devem pipocar por aí).

    No momento que a classe de cientistas entendeu que sexualidade é uma orientação, ou seja, uma busca individual de um “caminho” por afinidade/indentidade, trocaram a palavra “opção” por “orientação”.

    Mas alguns gays tentam impor a nomenclatura “condição sexual”. E eu justifico que tal termo inventado serve mais para autoafirmar a necessidade do gay dizer que “não muda” (o que é óbvio porque não se escolhe) e sugiro que o termo correto é mesmo “orientação homossexual”.

    Assim, temos a orientação homossexual, a orientação heterossexual e etc. As crianças, a medida que vão tomando conhecimento de si, vão se orientando e se estimulando por meio de elementos externos numa busca de uma identidade sexual. Identidade sexual nada mais é do que, resumidamente, ter tesão por alguém do mesmo sexo ou do sexo oposto.

    Em linhas gerais é isso… realmente muito confuso! Mas é uma questão de propriedade dos termos, educação, ensino, etc.

    Não estou falando que a influência popular não adequa os termos. Adequa sim, como a palavra “você” foi um dia “vossa mercê”, bem antigamente. Foi o povo quem criou a palavra “você” e não teve origem de literários, escritores, professores, outros conhecedores da área e etc.

    Mas o que me incomoda é a posição imperativa que o correto é “condição homossexual”. Aqueles que acham que é assim, não podem falar de maneira autoritária como se fossem a voz da maioria, acima inclusive de quem estuda sobre o assunto. Mesmo porque, no caso do post do Facebook em questão, uma minoria protestou pelo termo. A maioria compartilhou e curtiu, o que a mim, caracteriza um compreendimento maior do termo que entendo como correto: “orientação gay” e não “opção gay”.

    Desculpe escrever tanto! Mas para o seu “estou confuso”, busquei ser o mais claro possível.

  6. Pedro disse:

    Quando se fala em condição, eu me lembro do experimento de condicionamento de Pavlov, um estudo tradicionalíssimo na área psicologia.

    Neste experimento ele tocava uma sineta toda vez que o cão iria ser alimentado com um pedaço de carne, e fez isso repetidas vezes, em repetições posteriores ele tocava a sineta mas não dava o pedaço de carne ao cão, no entanto, o animal começava a salivar, e a ter as demais reações que ele teria caso o pedaço de carne fosse entregue para que ele se alimentasse. Então ele percebeu que o cão ficou condicionado ao som da sineta, pois associou o som da sineta com o pedaço de carne, e mesmo quando não lhe era oferecida a recompensa o cão salivava e tinha todas as reações que seriam comuns caso ali estivesse realmente o pedaço de carne.

    Eu acho que pra muita gente a sexualidade seria uma condição, como no caso de cão de Pavlov, mas se assim fosse acho que seríamos todos heterossexuais, visto que estamos expostos a um série de fatores ambientais, leia-se imposições da sociedade, que nos direcionam à heterossexualidade.

    Até pouco tempo atrás se acreditava que a homossexualidade era causada por abusos sexuais na infância, ou fruto de um ambiente familiar onde havia uma mãe autoritária e o pai pusilânime. Eu passei por um profissional muito experiente da área de psicologia que acreditava piamente nisso, e como eu o procurei exatamente pela questão da insegurança que tinha com relação à minha sexualidade, o profissional me garantiu que eu não era homossexual, afinal eu não tinha o histórico associado e nem apresentava trejeitos e tudo mais, logo eu jamais poderia ser gay, só estava confuso. Quer dizer, pra esse profissional a homossexualidade é realmente uma condição, mas pra mim não, é uma orientação ou preferência sexual.

    Primeiro porque não escolhi e nem muito menos fui obrigado a ser assim, segundo, não fui exposto a nenhuma situação que diretamente, como se acreditava, me levasse a ser homossexual, como a questão do abuso, por exemplo. Simplesmente aconteceu e pronto, era uma coisa que eu já trazia em mim desde sempre, pelo que eu pude perceber quando fiz terapia, mas que veio a tona quando se aproximou o início da idade adulta, por volta dos 19 anos de idade, e se tornou algo significativo, eu nem sequer imaginava que poderia ser gay, achava que todo cara hétero tinha as fantasias e os desejos que eu tinha, só que com as experiências que tive foi ficando claro que não era bem assim (ou seja, o teu amigo hétero não topa fazer aquelas coisas que vc gostaria de fazer rsrs), eu cheguei a conclusão de que eu realmente era diferente.

    No meu caso claramente não se trata de condição, mas vai que pra outra pessoa se trata, eu não sei. A meu ver, a construção da homossexualidade é idiossincrásica, ou seja é uma coisa própria de cada um. Tanto que alguns autores já falam em “homossexualidades” no plural, por considerar as diversas idiossincrasias que se revelam durante o processo de aquisição desta identidade.

    Hoje até mesmo a questão da orientação sexual já é alvo de discussão, muito já se discute se isso não seria um aspecto meramente cultural ou não. Muito é divulgado sobre uma possível origem da homossexualidade ser genética e permeada pela influência de fatores ambientais e culturais, mas até o presente momento as pesquisas não são de fato conclusivas com relação a isso. Alguns autores já sugerem que não existe hétero ou homossexualidade, e que ambas as práticas fazem naturalmente parte do repertório sexual humano, como faz parte do repertório sexual de tantas outras espécies de animais.

    O que parece ser consenso, é que os seres humanos tem diferentes preferências sexuais, seja pelo mesmo sexo ou não, e que todos merecem ser respeitados, porque a única coisa que parece sólida nisso tudo, é o fato de que ninguém opta por ser assim ou assado, simplesmente é, e pronto.

  7. Fabio disse:

    A sexualidade humana é muito complex, muito obrigado por sua atenção.

  8. Caio disse:

    MVG acho que as explicações acima não entram muito como meios de explicar a característica, no caso aqui humana, da homossexualidade. Entendo o que o seu texto quis passar e concordo com ele, mas indo direto no ponto de identificação do termo e o que ele significa, o nome mais adequado mesmo é “orientação”, porém não pelas possibilidades que você relatou, mas sim pelo próprio significado linguístico dele.

    Eu sei que você quis abrir a explicação para algo mais profundo, porém, a literalidade do termo já representa o que a homossexualidade é.

    E sendo direto e não hipócrita, a maior parte do pessoal que discordou do termo “orientação sexual” no Facebook, o fez porque no Brasil é muito comum as pessoas criticarem o que desconhecem e esbravejarem sem ter razão.

    O termo original e completo é “Orientação do desejo sexual”, ou seja, é a DIREÇÃO pela qual o seu desejo sexual (de maneira espontânea, natural) flui. E esta direção é representada pela figura dos sexos biológicos existentes (masculino e feminino). Não sei qual é o problema nesse entendimento. “Ah, mas eles acham que significa que alguém orientou os gays a serem assim”…aí já e demais.

    Se sou homem e meu desejo sexual (e também afetivo) é dirigido exclusivamente ou com alta prevalência a outro homem de maneira espontânea, então eu sou caracterizado como homossexual. Do contrário seria heterossexual; se com igual ou diferentes prevalências, mas ainda sentido atração por ambos os sexos, bissexual e se não sentisse atração sexual alguma, ainda que pudesse sentir afeto e até ter desejo sexual (que é diferente de atração) seria assexual.

    É muito simples, só não entende quem não quer.

    1. minhavidagay disse:

      Valeu, Caio, pelos seus complementos! ;)

  9. Esane disse:

    Olá, tinha muita duvida sobre qual termo usar. E lendo seu texto, concordei com você. Mas analisando as palavras mais a fundo e conversando com meu namorado, chegamos à conclusão que CONDIÇÃO se encaixa perfeitamente melhor.
    Um gay nasce gay, ele não é orientado para ser gay. E quanto ao livre arbítrio, uma vez que eu tomo uma decisão, acabo me condicionando a ele também. Sou livre pra escolher, mas pra escolher sou condicionada a algo interno, que é o MEU livre arbítrio.
    Super concordo com você sobre não se condicionar a a alguma coisa externa. Mas se for a fundo no sentido das palavras, nós somos condicionados internamente, a nós mesmos.
    Enfim, são estudos muito profundos. E espero que esse movimento não precise mais lutar tanto para ter seu devido reconhecimento e respeito. Ninguém tem que aceitar nada, apenas respeitar. Adorei seu post, igual. Beijão!

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