A vida fora do nosso quadrado

Esse ano eu abandonei a minha brasilidade. Rejeitei sim ter que participar da eleição como cidadão e, quase que numa fuga consciente, resolvi tirar minhas férias nesse período.

Vir para Nova Iorque, primeiramente, era o motivo certo para me encontrar com o Meu Japinha, que está numa cidade bem próxima. Depois que Manhattan é um lugar conhecido, quando vim para cá, pela primeira vez, há um pouco mais de um ano com meu ex-namorado. Em terceiro lugar, diferente do que a nossa própria cultura brasileira e classista entende, essa cidade não concentra nenhum glamour internacional, a não ser na cabeça de boa parte do turista brasileiro que se acha sofisticado e rico quando o assunto é New York. Porque de fato, quem chega por aqui com o olhar para além do quadrado tupiniquim, vê nessas ruas e avenidas, muito mais de uma certa social democracia, de uma efetiva diversidade cultural, sexual e étnica de respeito inato.

Invejável para aquele que idealiza mas que brasileiramente não enxerga, colocando todo os EUA como os maiores vilões egocêntricos do globo ou como um lugar para esbanjar riqueza e contar para os outros depois que se volta para o Brasil. Isso é um pouco da cabeça de alguns de nós que aprendeu algo assim em alguma cartilha do passado. Eis um paradigma difícil de se superar.

A vida gay em NYC é aquela que a gente idealiza. Tem de tudo, de todos os tipos e todos respeitam, inclusive os próprios gays. Aqui, o gay respeita o semelhante ou, pelo menos, cada um sabe os limites de seu próprio quadrado. Aliás, taí um povo que sabe respeitar o quadrado de cada um!

A ideia, antes que alguém rapidamente comente, não é fazer uma ode a essa cidade gringa. Mas esse post vem num momento certo, para um dia especialmente importante (ou pelo menos deveria ser) para o povo brasileiro. Hoje é dia de eleição e algumas atitudes que são base, da nossa tal democracia, serão praticadas. Se vocês têm algumas referências novas com o Blog MVG, eu também – na mesma proporção – busco as minhas próprias referências. Coisa que tenho encontrado bem pouco, hoje, na minha própria cidade.

Fico aqui pensando (embora longe e curtindo a minha futilidade e merecimento, como meu ex-namorado disse agora pouco, em meio a restaurantes e lojas para gastar) o nosso papel de cidadão, mesmo tendo abdicado do meu voto esse ano para exercer tal “status e poder”, como o próprio brasileiro gosta de achar que é, quando se vai para NYC. Poderia estar dormindo agora para amanhã gastar mais do meu bolo de dólares ou do cartão, abraçado em qualquer canto dessa cidade com o Meu Japinha, mas estou aqui, com uma ponta da minha cabeça pensando em meu país e exercendo, da melhor maneira, meu papel de cidadão.

Estou aqui e fico pensando que, como gay, oriental e brasileiro, é mais fácil praticar a minha própria consciência de cidadania num país e numa cidade que não é minha. Fico lembrando, nesse exato momento de avaliação, que é o meu povo que pára o carro em duas vagas no mercado, quando não supurriam a de idosos e deficientes físicos. É meu povo que normalmente fala alto dentro do cinema, quando não estica as pernas sobre as poltronas da frente para se acomodar da maneira mais folgada e espaçosa possível. É meu povo que, na estrada e diante do trânsito, vai correr pelo acostamento e se achar, assim, esperto. É meu povo que finge estar dormindo dentro do ônibus ou do metrô, quando um idoso se aproxima. É meu povo que inventou o jargão “achado não é roubado”, e que se concede direitos sobre, por exemplo, um celular esquecido ou perdido. É meu povo que acredita que vir para Nove Iorque é coisa de rico, culto e poderoso. É meu povo que coloca o iPhone ou um CRV da Honda como artigo de superioridade.

Alguém voltando de metrô de seu trabalho, em pleno domingo, pode usar uma bolsa Louis Vuitton e colocar uma capa esdrúxula em seu iPhone. Quem nota nesses itens a diferenciação de classe, é o brasileiro. Tais produtos, numa cidade como NY, é de acesso popular.
O estilo de uma jovem em Nova Iorque: voltando de metrô de seu trabalho, em pleno domingo, pode usar uma bolsa Louis Vuitton e colocar uma capa esdrúxula em seu iPhone. Quem nota nesses itens a diferenciação de classe, é o brasileiro. Tais produtos, embora portando suas grifes, é de acesso popular por aqui.

Não menos importante, é meu povo que ainda carrega uma carga machista e homofóbica pelas ruas.

É meu povo porque, com a referência daqui, a gente vê que não é que todo mundo é assim.

Aqui há muitos problemas como qualquer grande capital. Mas o que não há é essa supervalorização do oportunismo, de um certo desejo de tirar proveito do outro cidadão, de invadir o quadrado alheio e de se achar superior por causa de um objetvo.

NYC é apenas uma referência. Poderia ser no Japão, por exemplo. Já tinha notado que as pessoas aqui se colocam de igual por igual (seja em níveis de sexualidade, poder de compra ou raça, etc.), enquanto o brasileiro tem uma compulsão por se destacar do próprio brasileiro. No meu país, ainda e para piorar, o ato de trair um namorado ou um parceiro é quase que natural. É como se a traição fosse normativa em boa parte dos relacionamentos.

Lembrando que sim, amigos leitores, o ato de traição trata-se de um gesto de corrupção.

Dilma, Aécio, Marina, Luciana, Eduardo, Pastor. Estão todos no mesmo saco. O saco que, inclusive, você e eu fazemos parte.

Se não há o mínimo de consciência, me resta torcer por um pouco de sorte para amanhã, dia que o brasileiro irá chutar seus candidatos, a gente vá para além dos nossos respectivos umbigos.

Boa sorte!

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